Onde Pára o Estado? Políticas Públicas em Tempos de Crise
7 Novembro 2009, 14:35 · Hugo Mendes
Está nas livrarias há algumas semanas um livro - Onde Pára o Estado? Políticas Públicas em Tempos de Crise (com a organização do Renato Carmo e do João Rodrigues) - que inclui textos de dois autores deste blog: “Socialismo democrático, Estado e liberdade individual” do Tiago Barbosa Ribeiro, e “O imposto negativo, ou como aliar emprego e redistribuição na luta contra a pobreza”, do Hugo Mendes.
Brevemente terão lugar o lançamento e vários debates em torno dos textos do livro.
Boas leituras.
À atenção dos analistas da esquizofrenia política
10 Julho 2009, 16:40 · Hugo Mendes
Os que no passado acusavam os que aderiam às Novas Oportunidades de excessivo instrumentalismo (e o Governo de o promover) - “em Portugal todos querem ser doutores, é só pelo canudo” - em detrimento da busca dos mais altos e emancipatórios valores do “conhecimento pelo conhecimento” são capazes de ser os mesmos que aparecem hoje a dizer que, afinal, aquilo não serve para nada - “nem sequer para arranjar um emprego” - e que isso da auto-valorização pela formação é para os sissies. Decidam-se.
OCDE desmente Nuno Crato (título tablóide, eu sei)
18 Junho 2009, 2:49 · Hugo Mendes
Já é habitual: em tempo de exames, Nuno Crato é a cara e a voz da Sociedade Portuguesa de Matemática na luta contra o “facilitismo” reinante.
Como é provável que volte a ser entrevistado no decurso das próximas semanas, deixo aqui um pedido sincero a um(a) jornalista que tenha a ocasião de falar com ele: pergunte-lhe como explicar estes dados da OCDE (atenção: o relatório não foi encomendado pelo Governo) que descrevo aqui, e que contrariam o que Nuno Crato diz há anos na TV, nos jornais e em livros. O país interessado nas coisas da educação agradecia (e o “jornalismo de investigação” - é verdade, os dados estão perdidos no meio de um relatório de 300 páginas, é preciso procurá-los com um pouco de paciência - podia deixar de significar apenas “descobrir os podres dos políticos”).
É que se a crítica ao “facilitismo” nos exames tiver tanta consistencia empírica como a crítica ao “eduquês” (a quem Nuno Crato atribui quase todos os males do nosso sistema educativo), então…Talvez tenhamos que esperar, um dia, por um estudo da OCDE para (ajudar a) resolver a questão. Até lá, o mesmo discurso estereotipado terá o mesmo monopólio de sempre na imprensa (e a mesma condescendência jornalística também: a “agressividade” e o “jornalismo de investigação” só servem, todos sabemos, para encostar os ministros e políticos à parede - nunca os seus críticos, que têm carta branca para dizer o que lhe apetece sem que o que é dito tenha de ser justificado ou validado).
Agora, fazer “exercícios” como o Expresso fez no sábado passado de “comparação de exames” - mas afinal não se “comparam exames”, o que se “compara” são problemas a vulso, escolhidos provavelmente entre milhares de exemplos possíveis - é brincar com coisas sérias.
Novos movimentos sociais (2)
10 Junho 2009, 15:37 · Hugo Mendes
Com este discurso no dia 10 de Junho - cuja defesa da “política do exemplo” mascara uma posição marcadamente anti-política(s) -, que podia ter sido escrito/lido por Laurinda Alves, António Barreto arrisca-se a ser convidado para dar a cara pelo MEP nas próximas eleições legislativas.
A armadilha conservadora da Europa
8 Junho 2009, 14:32 · Hugo Mendes
1. O centro-esquerda foi o grande derrotado desta eleições, mas não foi o centro-direita que ganhou com este recuo, nem sequer os liberais. Como nos mostra o quadro abaixo, o PPE e os Liberais tiveram mesmo uma perda muito pequena – tal como o GUE/NGL, onde o BE e o PCP se incluem -, e quem ganhou foram os Verdes e sobretudo os “Outros”. O grupo do PCP e do BE, o, teve uma % inferior a 2004. Nos “Outros” temos sobretudo os votos da extrema-direita, embora alguns partidos com representação pela primeira vez - como o Partido Pirata sueco - se possam juntar ao GUE/NGL. Resumindo, os avanços da extrema-direita foram mais significativos e mais preocupantes que os da extrema-esquerda, que vai continuar a ter um grupo parlamentar muitíssimo pequeno.
2. Escreve-se por aí na blogosfera que, pelo que se vê, “se o neoliberalismo criou a crise, as pessoas não votaram à esquerda, mas deram de novo maioria aos partidos conservadores”. É verdade, mas esta é também uma leitura muito torcida dos resultados. Em quase todos os países as eleições europeias são actos eleitorais usados para discutir questões nacionais, e para premiar ou protestar contra o partido no poder; a não ser que esteja a passar por um qualquer “estado de graça” – improvável com a crise que se vive -, este costuma passar um mau bocado: foi isso que agora aconteceu, por exemplo, em Portugal, na Espanha, na Grécia, na Suécia, na Inglaterra, na Irlanda, na Suécia ou na Áustria. E mesmo quando não está no poder, o centro-esquerda é sancionado quando é visto como não tendo credibilidade para oferecer soluções alternativas – é provável que isto explique a vitória dos partidos de Sarkozy e de Berlusconi.
Independentemente do que levou as pessoas a votar, é, infelizmente, bem provável que a maioria do EPP que sai reforçada deste acto eleitoral intensifique as tendências que alimentam a insegurança que leva as pessoas a votar em partidos radicais. Uma vez que o EPP tenderá a fazer muito pouco para mudar a orientação do BCE, para regular o sistema financeiro, para reduzir o desemprego e a precariedade laboral, o que leva as pessoas a votar nas minorias radicais (numa palavra, a insegurança, geradora da desilusão e do medo) vai continuar; a fraca solidariedade entre países e regiões vai continuar a penalizar os países que mais precisam de ajuda; e a saída para o desemprego vai tender a fazer-se “por baixo”, na pressão sobre a protecção social e não “por cima”, mobilizando os sindicatos e procurando políticas inteligentes de regulação do mercado de trabalho.
3. O caminho já vinha a ser trilhado, mas estas eleições reforçam os receios: uma Europa social não é um luxo a que os Estados membros se possam dar; é provavelmente a única forma de conferir oportunidade, segurança e compensação aos losers da concorrência e, desta forma, tornar a Europa legítima e justificável aos olhos dos milhões de pessoas que votaram em protesto nos extremistas (ou não votaram de todo, ou fizeram-no em branco). Sem essa Europa social, teremos no futuro próximo muito provavelmente o aprofundar das dinâmicas recentes, com as pessoas a traduzirem o sentimento de insegurança e estagnação/recuo no nível de vida em votos em grupos radicais cujo mandato no Parlamento Europeu se pode resumir nas palavras do líder do British National Party, Nick Griffith (um dos dois deputados do BNP eleitos para o PE): «we’re here to look after our people because no one else is».
4. A incapacidade da Europa para reagir mais energicamente ao problema actual do desemprego cria, naturalmente, o ambiente perfeito para que a extrema-esquerda e extrema-direita – ainda que, onde existe oferta partidária com expressão eleitoral (o que não é de todo o caso português) a segunda tenha em vários países ganho à primeira – possam crescer, à custa da exploração do medo das pessoas e de uma atitude de vale tudo que produz propostas irresponsáveis como a que marcaram a campanha do BE entre nós (suspender as regras de mercado; proibir os despedimentos; nacionalizar a banca – nada disto verá alguma vez a luz do dia, mas isso não interessa: se as pessoas estão desesperadas e dispostas acreditar em tudo, e se isso traz votos, qual é exactamente o problema de mentir descaradamente, como fez Miguel Portas nesta campanha, quando disse que o que o PS fez foi agravar as desigualdades, quando nenhum indicador mostra isso? É mentira? Não importa. Vale tudo).
Perante esta situação, se por essa Europa fora a direita tem medo que a esquerda no governo perca a cabeça e gaste o que não tem para responder ao populismo de extrema-esquerda, a verdade é que é bem mais provável que a direita acabe por não ser menos irresponsável quando tem de concorrer com o populismo de extrema-direita. Talvez os partidos conservadores de centro-direita não sejam, na sua maioria, particularmente nacionalistas nem xenófobos. Simplesmente, a existência nos contextos políticos nacionais de partidos de extrema-direita que concorrem com parte do seu eleitorado (curiosamente ou talvez não, foi com Sarkozy que a Frente Nacional de Le Pen perdeu força) obriga a que os conservadores tenham que adaptar o seu discurso às reivindicações da extrema-direita.
5. É fácil ver o problema: a Europa social será mais necessária à medida que se tornará também mais difícil de construir, porque a imigração, que torna a Europa social mais necessária - e, inversamente, a possibilita, porque sem o reequilíbrio demográfico que a imigração permite não há sustentabilidade futura dos sistemas de protecção social -, é também aquilo que torna as pessoas mais reticentes a apoiar um Estado social e as suas medidas redistributivas para os indivíduos e grupos mais vulneráveis. Quando a crise é generalizada, as classes médias e trabalhadoras têm menos vontade de financiar as transferências para aqueles que muitos políticos continuam a tratar, directa ou indirectamente, como uns “malandros”. Isto é tanto mais importante quanto muitos estudos têm dado forte solidez empírica à conclusão de que a heterogeneidade étnica e linguística é má para a aceitação pública de políticas redistributivas. As pessoas de um dado país aceitam tanto mais um Estado social generoso quanto mais os que são o seu público-alvo preferencial se assemelham a elas: “solidariedade, sim, mas com os que são como nós”. A conclusão não é particularmente animadora para a esquerda, mas ajuda a explicar porque é que os países nórdicos - dos mais etnicamente homogéneos do mundo - tiveram uma expansão impressionante do Estado social ao longo do século XX, enquanto que os EUA se mantiveram como welfare laggard: o eleitor médio americano sempre soube perfeitamente quem era/é o mais provável beneficiário das políticas sociais federais e/ou estatais – a população negra.
6. O desafio da Europa social é dar resposta a este fenómeno, evitando que ele assuma proporções assustadoras. O desafio da direita e da extrema-direita, infelizmente, parece ser – implícita ou explicitamente - explorá-lo. Desta forma, corre-se o risco de aprofundarem a armadilha conservadora em que a Europa em crise está metida - desemprego –> insegurança e medo -> procura de bodes expiatórios fáceis (como os imigrantes) -> votos na direita moderada e extrema -> continuação de políticas económicas que em nada concorrem para a resolução do problema do desemprego e da fraca procura -> desemprego -> insegurança e medo -> (…) - e que a constituição do novo Parlamento Europeu parece vir reforçar.
Por favor, parem de distribuir papa Mayzena nas redacções II
1 Junho 2009, 11:00 · Hugo Mendes
A propósito do post anterior, vale a pena recuperar um gráfico que já tinha usado aqui.
Por favor, parem de distribuir papa Mayzena nas redacções
1 Junho 2009, 10:44 · Hugo Mendes
O Diário Económico traz hoje um artigo - com chamada de capa - sobre a eficácia da Segurança Social na redução do risco de pobreza em Portugal. Não tendo tempo para me debruçar sobre ele agora com a atenção que merece (talvez mais logo), e antes que o país Mayzena entre em ebulição, não sei se o que mais me chocou foi a sua falta de qualidade ou a sua ma-fé. Para começar, discutir o impacto das políticas públicas de luta contra a pobreza sem distinguir “prevalência” e “incidência” do fenómeno é como discutir futebol sem saber a importância da lei do fora-de-jogo: parece um pormenor, mas é fundamental. O seu desconhecimento enviesa qualquer resultado.
O Diário Económico e o Pedro Romano podiam, para começar, ler estes dois posts do Carlos Farinha Rodrigues, aqui e aqui (em particular o do dia 12 de Fevereiro). Para a próxima cometiam-se menos erros.
Este é o exemplo de que, se muitas pessoas discutem a pobreza e as desigualdades sem conhecerem um número ou uma tendência recente de evolução do fenómeno, não basta ter os números: é preciso saber interpretá-los. A minha frase preferida do artigo deve ser esta:
«Assim, em 1998, um português tinha 27% de probabilidades de cair numa situação de pobreza, um valor que as transferências sociais permitiam atenuar para 21%. Nove anos depois (2007 é o último ano para o qual há dados nesta rubrica), o risco de pobreza antes de transferências diminuiu para 24% e, depois de transferências, para 18%. Ou seja, embora o risco de pobreza tenha caído, esta descida parece não estar ligada aos gastos adicionais com prestações sociais, o que sugere que não houve ganhos de eficiência na diminuição da pobreza.»
Atente-se na competência hermenêutica do autor: não é que não tenha havido melhorias, como os dados não podem deixar de mostrar. O problema é que, embora o risco de pobreza tenha caído, esta «descida parece não estar ligada aos ganhos adicionais, o que sugere que não houve ganhos de eficiência na diminuição da pobreza».
Eu não sei que escola de interpretação o autor segue, mas confesso que isto roça o surreal. Não é oferecida explicação nenhuma para que a «descida não pareça estar ligada aos ganhos adicionais» - vem de onde, então? como a explicar? - nem para não tenha havido ganhos de “eficiência” (ou “eficácia”?), ao contrário do que dados tão claros podem indiciar.
O autor devia saber que a “despesa social” - já que coloca a definição na peça - inclui, por exemplo, os gastos com equipamento social, que não permitem aferir a pobreza monetária, que é aquilo que a peça discute, sem nunca referir. Assim, vale a pena recuperar o que afirma o Carlos Farinha Rodrigues, que lembra haver uma limitação em avaliar-se «a eficácia da política social a partir dos dados publicados pelos institutos oficiais [:] a sua incapacidade de ter em conta políticas sociais que não são canalizadas através de transferências directas de rendimento para as famílias. Uma parte significativa da política social actualmente implementada, com repercussões directas no nível e na qualidade de vida das famílias, é feita através de mecanismos como o apoio social escolar, a construção de creches e de lares para idosos, pelo apoio à manutenção da rede de serviços e equipamentos sociais, etc. De facto, indicadores de eficácia como os atrás descritos são completamente incapazes de captar os efeitos dessas políticas».
O resto pode ficar para depois. Mas fazer comparações do género “nós-gastámos-mais-enquanto-outros-não-aumentaram-os-gastos” sem dizer (ou saber) que no passado sempre gastámos menos que a maioria - e que, por isso, o efeito é de catching up dos níveis de despesa dos países mais ricos - é demasiado tendencioso. Como não consigo perceber se o artigo é sobre “eficiência” ou “eficácia” das políticas (dado que as palavras aparecem quase de forma intermutável). Se calhar também isto não interessa nada.
Não há think tanks e editoriais destes que nos ajudem a resolver os problemas
27 Maio 2009, 18:42 · Hugo Mendes
Alguém avise, por favor, o Franciso Camacho e o Instituto Sá Carneiro que, se querem combater a pobreza, a estratégia de ”a dar aos que mais necessitam” - de tempos a tempos alguém tenta sempre reiventar a roda com esta conversa - tem uma longa história e, se esta nos ensina alguma coisa, é que é menos eficaz do que a estratégia universalista para atingir o objectivo a que se propõe.
Uma olhada no quadro seguinte, retirado daqui (p.165), permite observar isso mesmo: que os países cujos sistemas de protecção social e estratégias de redistribuição assentam numa lógica de basic security (em particular, os anglo-saxónicos) são mais desiguais e têm taxas de pobreza mais elevadas do que os países que historicamente apostaram em sistemas de protecção social e estratégias de redistribuição de cariz mais universalista (encompassing).
Já agora, convinha que o Francisco Camacho e outros tivessem um bocadinho de perspectiva histórica na sua “análise” de problemas tão sérios e na sua procura de “culpados”. Dizer que os portugueses estão «pelo menos desde o século 16, conformados com a própria miséria» dá um belo slogan eleitorial, mas é histórica e factualmente incompetente e irresponsável. E a Mariana Trigo Pereira já explicou porquê.
Bingo!
2 Abril 2009, 12:34 · Hugo Mendes
Esqueçam a Playboy (e a Newsweek)
1 Abril 2009, 14:28 · Hugo Mendes
Na feira do costume.
Workers vs. Workers
31 Março 2009, 9:40 · Hugo Mendes
Para quem gostou do anúncio (alterado do original da Antena 1) do Bloco de Esquerda sobre as manifestações e a deslocalizações para a Eslováquia, vale a pena ler este artigo do Paul Krugman escrito em 2000.
Charles Smith, this chap, é um homem de palavra
31 Março 2009, 9:20 · Hugo Mendes
Hoje fiquei a saber isto:
Mas também isto:
Enfim, nada que faça a imprensa duvidar dos factos narrados por este senhor.
Quando passar o “jornal” de MMGuedes na próxima sexta-feira, o que vai this chap desmentir no sábado para se calhar admitir na segunda-feira seguinte (sem que ninguém questione o interesse das palavras ou do alegado facto em questão)?
Pista credível, esta.
«Falências de empresas aumentaram 51 por cento no primeiro semestre de 2008»
25 Março 2009, 10:06 · Hugo Mendes
Lê-se no ‘Público‘. Agora é só esperar para ouvir Manuel Alegre (entre outros) pugnar de novo pelo aumento dos salários.
the ‘H’ word
25 Março 2009, 2:56 · Hugo Mendes
Poucas coisas me espantam mais, nos dias que correm, do que ouvir pessoas (de esquerda) barafustar, de dia e em público, contra tudo o que for possível e impossível sobre o Magalhães* (ele é a ‘propaganda’, os atrasos nas entregas, os erros de português no software, vale tudo) e, de noite e em privado, embevecerem-se com o novo computador Mac** (ou outro) que deixa maravilhado o seu filho (ou filha).
* um computador portátil grátis para as crianças de famílias com menos recursos, e que custa 50 euros para o resto das famílias.
** que custará pelo menos - e atiro assim um valor para o ar - 3 vezes o salário mínimo nacional.
Publicidade institucional
23 Março 2009, 16:32 · Hugo Mendes
(clicar para aumentar)
Chavez aderiu ao neo-liberalismo?
22 Março 2009, 13:37 · Hugo Mendes
Venezuela corta quase 7 por cento no orçamento de Estado.
Agora no ‘osso’ da questão
19 Março 2009, 17:46 · Hugo Mendes
Este (ver o post mais os comentários, em particular os do Luís Aguiar-Conraria) é um debate que vale a pena ter.
Gostava que os economistas tivessem algo mais concreto para nos dizer sobre como elevar a produtividade dos portugueses - em particular, algo que ainda não tenha sido feito ou tentado ao nível das políticas públicas, ou no caso de o ter sido, porque é que estas não têm funcionado -, de modo a que a saída da crise seja por cima, e não por baixo (descida de salários, por ex.).
Desigualdades, esquerda, história e estratégia
19 Março 2009, 5:01 · Hugo Mendes
Ainda sobre o artigo do Rui Tavares sobre as desigualdades no “Público”, para além das chamadas de atenção certeiras do Pedro Adão e Silva e do Miguel Abrantes - temos que nos entender de vez com o uso das estatísticas, com a evolução recente do fenómeno, e com o impacto das políticas públicas -, há um comentário mais amplo que vale a pena fazer.
Se olharmos para o gráfico que o Rui Tavares foi buscar ao The Guardian (mas qualquer gráfico sobre estas questões mostra isto), há uma lição que vale a pena tirar e levar a sério – sobre o passado e para o futuro. As sociedades que mais longe foram na redução das desigualdades e na concretização de políticas de bem-estar foram aquelas onde a esquerda social-democrata se manteve mais unida, ou se quiserem, menos fragmentada do ponto de vista partidário, eleitoral e sindical - ou, se quiserem ainda, onde os partidos de filiação estalinista e trotskista eram mais pequenos, ou mesmo irrelevantes para o jogo partidário e sindical (ou mesmo proibidos, como na Alemanha pós-1945, o que ajudou desde logo à hegemonia do SPD à esquerda). A experiência dos países nórdicos, onde a social-democracia igualitarista mais avançou na construção de um capitalismo de bem-estar, é bastante reveladora: (…)
(continue a ler no Outubro)
“Crime”, alguém diz?
18 Março 2009, 22:09 · Hugo Mendes
A propósito das recentes declarações do Papa sobre o efeito dos preservativos no combate à SIDA, que tem feito muitos rir, eu gostava que alguém confrontasse a Igreja Católica com a sua responsabilidade moral - para não ir mais longe - na tomada de posição sobre um problema que, em particular onde atinge proporções epidémicas, vitima largos milhões de pessoas.
Afinal, o que está aqui em causa é um bocadinho mais importante do que ‘acreditar’ se o Homo Sapiens é ou não resultado de uma evolução de muitos milhões de anos; o putatitvo debate sobre entre o darwinismo e criacionismo é, comparado com isto, uma história para entreter as crianças depois de jantar.
O que está aqui mesmo em causa é a responsabilidade e a cumplicidade objectiva da Igreja Católica na influência do comportamento de milhões e milhões de pessoas que correm, objectivamente, risco de vida - risco que cresce exponencialmente se seguirem as ‘opiniões’ do Papa.
Como no ‘caso Galileu’, daqui a umas décadas - ou séculos -, virão pedir desculpa pelas mortes e pelo sofrimento causado. Tudo, claro, em nome da “defesa da vida”. Estejam atentos.
Alguém se importa de me explicar?
18 Março 2009, 21:44 · Hugo Mendes
Aparentemente, Manuel Alegre disse na apresentação do último número da Revista “OPS!” que é «preciso aumentar os salários para que não haja um colapso do comércio». Ao mesmo tempo, também «elegeu o desemprego como o problema central, alertando, de seguida, para o risco de “explosão social” na Europa».
Alguém se importa de me explicar quem aumenta e como se aumentam que salários (tirando os da função pública, mas isso já o Governo o fez, para fazer o possível para aumentar ou, pelo menos, aguentar a procura interna, mas sobre isso não consta que Alegre tenha dito uma palavra), quando parte do nosso (e não só, naturalmente) tecido empresarial está com a ‘corda na garganta’, e quando as empresas procuram (ou deviam procurar) usar todas as estratégias à mão para, reduzindo a produção se necessário, evitar despedimentos?
São estas as famosas propostas de Manuel Alegre? Haverá outras interessantes, porventura. Mas quando se fazem propostas, há uma coisa importante que convém não fazer logo voar pela janela: a credibilidade. Não basta dizer o contrário do que defende a SEDES para ficar, para bem da nossa consciência ideológica, do “lado certo” e mais à “esquerda”.
*post editado.
Será que os “novos pobres” já usam o Twitter?
18 Março 2009, 2:52 · Hugo Mendes
Do “24Horas” de hoje (clicar para aumentar).
O futuro do país passará, então, por aqui.
As faces de Janus de MFL
16 Março 2009, 19:19 · Hugo Mendes
Com as suas últimas declaraçãoes, Manuela Ferreira Leite escreveu um pequeno capítulo - pequeno mesmo, cabia inclusivamente no Twitter - na ideologia do PSD em tempos de crise mundial. Diz mais ou menos isto: “Somos contra o investimento público, a intervenção do Estado, esse despesismo que nos torna mais pobres; mas somos a favor de tudo isto, se proteger os nossos compatriotas”.
Neo-liberalismo de um lado, proteccionismo proto-xenófobo do outro, unidos num só, dependendo da ocasião.
Em escuta aqui ao lado >>>
13 Março 2009, 16:44 · Hugo Mendes
The Sound
álbum: From the Lion’s Mouth (1981)
# 1: Winning
Do novíssimo álbum dos Depeche Mode para o velhinho tema ‘Winning’, dos saudosos e underrated ‘The Sound’, companheiros de luta dos New Order et al. nos negros anos da Inglaterra de Thatcher.
P.S. - Juro que o título do faixa - ‘Winning’ - e do álbum - ‘From the Lion’s Mouth’ - nada têm a ver com o acontecimento futebolístico da passada terça-feira.
Carta aberta a ‘Il Speciale’
12 Março 2009, 2:23 · Hugo Mendes
Caro José,
Faz algum tempo que estou para te escrever. Tenho observado uma série de jogos do teu Internazionale e, sem mais comentários - porque sei que o teu tempo é curto e a tua paciência diminuta -, vou directo ao assunto: continuas a não obrigar o Júlio César a meter um defesa no segundo poste quando a equipa adversária marca um canto.
É uma infantilidade, caro José. Ontem, pagaste-a caro. Se o bom do Júlio César tivesse colocado alguém no junto do seu poste direito - como estava um jogador colado ao esquerdo -, um qualquer jogador, desde que mais alto que o Robert Reich, teria evitado aquele golo imbecil do bronco do Vidic logo aos 4 minutos de jogo (meter um jogador só ao primeiro poste só é justificável naqueles jogos em Carnaxide ou em Agronomia a que, sabes bem, estás convidado a assistir, mas, caramba, somos só 7 para cada lado, nao há jogadores para cobrir os postes todos).
Não pude deixar de pensar que se te tivesse escrito mais cedo, talvez hoje não estivesses a pensar como é que vais conseguir motivar uma equipa que, de relevante, só tem a Série A para ganhar - e que, lamento recordar-te, já conquistou, sob a batuta do camarada Roberto, nos últimos 3 anos. Bolas, começa a ser entendiante - como aliás toda a Série A.
Não estando certo que tenhas aprendido a lição - lembra-te: sempre, mas sempre um jogador a cobrir o segundo poste nos cantos do adversário! -, achei por bem endereçar-te estas linhas.
Cumprimentos,
Hugo
Calvin needs a bail out
11 Março 2009, 17:49 · Hugo Mendes
(clicar para aumentar)
Fiquemos à espera, então
10 Março 2009, 1:04 · Hugo Mendes
Europeísmos
7 Março 2009, 22:41 · Hugo Mendes
Sempre que pode, no exercíco do seu direito à indignação cívica e política, Manuel Alegre insurge-se contra a Europa e a sua “constituição económica”. Esta trata-se, sem dúvida, de uma causa e de uma discussão importante, independentemente da forma como Manuel Alegre (não) a faz.
Entrevistado pelo “Expresso”, Manuel Alegre revela na edição de hoje que foi sondado para se candidatar ao Parlamento Europeu: «Houve gente que me tentou convencer. Mas eu passei 12 anos no exílio. Em Bruxelas não há Sol, não há Sul, não há mar, nem Alentejo.»
Manuel Alegre gosta de se apresentar aos portugueses como o guardião da ética num mundo político supostamente rendido aos interesses e carreirismos. Ora, esta é uma resposta muito pouco consonante com alguém que está na política com um espírito de missão, convicção, responsabilidade e entrega que sempre exala das declarações de Alegre.
Para quem acha que a discussão das questões europeias é central - sobre as eleições europeias, Alegre queixa-se que por cá «ainda se discute muito pouco a questão europeia e o que vai estar em causa é a política interna» -, Bruxelas até podia ficar no “fim do mundo”: devia merecer mais respeito de quem se afirma como europeísta.
Se há ou não “Sol”, ”Sul”, “mar” ou “Alentejo” podem ser elementos centrais quando se planeiam umas longas férias (ou mesmo um exílio). Mas não deviam interessar minimamente (muito menos ser referidos numa entrevista…) quando se equaciona uma participação no órgão legislativo europeu (por muitas limitações que este apresente na actual arquitectura política europeia).
Escola e leitura
6 Março 2009, 16:05 · Hugo Mendes
António Barreto na revista ’Ler’, 2009
«Passaram 50 anos e, por razões diferentes, a escola hoje destrói a leitura. Seja com a análise estruturalista linguística dos textos, seja pela ideia de que escola tem de ser mais a acção e tem de ser mais projecto e mais mil coisas que fazem a nova escola. A leitura na escola é a última das preocupações.»
António Barreto na revista ’Análise Social’, 1995
«Portugal distinguiu-se, até aos anos 60, pela crónica incapacidade para escolarizar a população,evitar o analfabetismo e proporcionar aos cidadãos um grau satisfatório de instrução. Até finais da década de 60, os progressos foram extremamente lentos. A partir dessa altura verificou-se uma quase explosão escolar. Em menos de trinta anos, o analfabetismo jovem foi praticamente eliminado, enquanto sobra algum analfabetismo adulto, menos de 9% da população. No ensino secundário público (os actuais 10.° a 12.° anos), a frequência passou de cerca de 8000 para quase 300 000!»
Vale a pena perguntar algumas coisas a António Barreto:
- se estávamos melhor com uma escola que “preza” ou “cultiva” a leitura (ou pelo menos que não a “destrói”) num país que escolarizava uma pequeníssima parte de população, sendo que a maioria era analfabeta ou quase, como há 50 anos.
- se a leitura, no que toca ao que se lia, como se lia, com que objectivo, etc., há meio século, pode continuar a ser ensinada e cultivada hoje da mesma forma numa escola secundária que passou de uma população de 8 mil alunos para 300 mil.
- o que encontrou na literatura científica para apoiar a sua conclusão, e o que mostra esta em relação ao efeito que as novas tecnologias têm sobre a leitura: é de substituição ou de complementaridade/sinergia?
É que, assim de repente, a conclusão que posso inequivocamente tirar das últimas décadas é esta: nunca a população portuguesa leu tanto; e nunca esteve tão exposta às novas tecnologias e mobilizada para o seu uso.
Parece-me que não é uma feliz coincidência.
O “partido dos professores”
6 Março 2009, 12:37 · Hugo Mendes
O João Pinto e Castro costuma dizer que o BE se transformou no “partido dos professores”. A mais recente sondagem da Eurosondagem é bem capaz de lhe dar razão (clicar na imagem para aumentar). A partir de Novembro de 2008, momento alto do descontentamento da classe docente - materializado na manifestação do dia 8 do mesmo mês -, o BE ultrapassou o PCP nas intenções de voto. De lá para cá, manteve-se à frente do seu principal competidor na extrema-esquerda.
Tire-se o chapéu, o BE acertou na mouche.
Era escusado
6 Março 2009, 11:42 · Hugo Mendes
Na mesma capa da revista “Ler” (foto roubada daqui) que cita a extraordinária e premonitória frase de António Barreto - «O ‘Magalhães’ é o maior assassino da leitura em Portugal» -, também se lê: «Os intelectuais: podemos acreditar neles?». Muito à propos.
O responsável por esta capa escusava de ter tirado o tapete ao seu entrevistado de forma tão óbvia. Se esta justaposição de títulos não é de propósito, parece.















