A derrota de Pacheco
19 Dezembro 2008, 10:50 · Rui Branco
«O homem que ontem dizia, na Quadratura do Círculo da SIC Notícias, ponderar votar em Santarém em vez de em Lisboa para não ter de encarar a hipótese de pôr a cruz em Santana sofreu uma das maiores derrotas da sua dupla condição de político e comentador. Não seguramente a primeira - tem aliás o simbolismo trágico de um prémio de carreira. Um prémio ao contrário, como ao contrário estava o símbolo do PSD nos seus escritos anti-Menezes e anti-Santana.»
Fernanda Câncio, hoje, no DN.
Santana vive, mas e Ferreira Leite?
17 Dezembro 2008, 10:19 · Rui Branco
A escolha de Santana Lopes para a Câmara de Lisboa é a negação formal daquilo que supostamente a liderança de Ferreira Leite representa. Quando coisas como credibilidade, rigor e seriedade são os únicos artigos de um pretenso programa político, o populismo despesista e trapalhão de Santana é pura e simples kryptonite. A liderança de Ferreira Leite é já largamente póstuma. Por isso, concordo com o Pedro Marques Lopes qando dizia hoje de manhã no RCP que a liderança do PSD de Ferreira Leite acabou ontem quando Castro Almeida usou o nome do candidato a Braga Ricardo Rio como papel de embrulho para esconder o enjeitado menino-guerreiro.
Pacheco Pereira já tinha avisado: a escolha de Santana «seria um péssimo sinal». E não deixa de ser irónico que o PSD escolha para candidato ao municipio de Lisboa, disputa eleitoral em que as candidaturas são altamente personalizadas, o nome no qual, se tivesse estado no boletim de voto em 2005, a líder do PSD Ferreira Leite não teria votado («se lá estivesse o nome de Santana Lopes não votava»), como lembra o Público. O mesmo Santana Lopes que, ainda há pouco tempo dizia que: «a maneira de governar da dra. Manuela Ferreira Leite castiga, desmoraliza e deprime» e que acha que «o que ela defende para Portugal é o contrário do que Portugal precisa».
É impossível não concordar com Pacheco Pereira quando afirma que «Pedro Santana Lopes é a imagem da derrota do PSD de 2005, uma das derrotas maiores que o PSD alguma vez teve». Mas o que Pacheco Pereira oculta é que Manuela Ferreira Leite é também a imagem de uma tripla derrota: a derrota do rigor com a consolidação falhada das contas públicas, a derrota da credibilidade com a pior recessão à escala europeia em 2003 e a derrota da seriedade com a trapalhada do Citigroup.
E é este o PSD que agora temos. Um PSD que proclama rigor, mas oferece populismo. Um PSD que apregoa seriedade e competência, mas que nos deu truques e trapalhadas orçamentais. Um PSD que enche a boca com sensibilidade social, mas que acha que aumentar o salário mínimo em 25 euros «roça a irresponsabilidade».
«Os portugueses têm boas razões para pensar que as desigualdades não se curam com políticas de esquerda»?
15 Dezembro 2008, 18:49 · Rui Branco
Perguntava o Nuno Lobo no outro dia.
Pois bem, os dados de hoje do INE referentes aos rendimentos de 2006 aí estão para responder.
E a resposta é não, pelo contrário, os portugueses têm boas razões para pensar que as desigualdades se curam com políticas de esquerda.
Aqui fica o sumário e o link para o documento.
«De acordo com o mesmo inquérito, o rendimento dos 20% da população com maior rendimento era 6,5 vezes o rendimento dos 20% da população com menor rendimento, observando-se uma ligeira redução face ao valor de 6,8 estimado no ano anterior. Verifica-se igualmente uma redução no Coeficiente de Gini de 38% para 37%».
Os dados disponíveis sobre a evolução das desigualdades mostram que a evolução tem sido favorável (para além dos dados S80/S20 e do índice de Gini, relembro a evolução do S90/S10, de 12,3 para os rendimentos de 2003 para 10,8 para os de 2006), embora, está claro, ainda longe do necessário (e da média europeia, que se situará em torno dos 4,5 para o indicador S80/S20). Mas a dinâmica, o sentido da evolução, é inegável e se calhar convém dizer com toda a clareza que as desigualdades de rendimento não tem aumentado em Portugal desde 2005. Pelo contrário, têm dimínuido.
O que estes e os dados da evolução do indicador S80/S20 ao longo dos últimos anos mostram são duas coisas muito claras. Primeiro, que medidas como o Rendimento Mínimo Garantido/RSI e o Complemento Solidário para Idosos têm tido um efeito positivo, ajudando a retirar os mais desfavorecidos dos desfavorecidos da pobreza absoluta, embora subsistam ainda demasiados portugueses com rendimentos abaixo da linha de água da classe média que é preciso fazer subir.
Por outro, verifica-se que a desigualdade de rendimentos revela uma elevada sensibilidade ao ciclo político. Ou seja, sempre que o PS está no governo as desigualdades baixam (de 7,4 em 1995 para 6,5 em 2001 e de 7,4 em 2003 para 6,5 em 2006), e que quando a Direita esteve no governo as desigualdades aumentaram (6,5 para 7,4). Veja-se este gráfico, que ainda não contempla os dados de hoje, mas que ilustra o argumento:

What is to be done? A médio prazo, continuar o forte investimento nas qualificações profissionais é o que melhor combate a elevada dispersão salarial. Mas, de imediato, há que apostar na contratação colectiva (daí a importância da revisão do Código do Trabalho) e numa fiscalidade mais progressiva na tributação do rendimento.
Aliás, é muito importante que a mesma indignação colectiva que se manifesta - e bem - com as desigualdades de rendimento se mantenha firme quando se trata de atacar a questão da fiscalidade. Há que construir uma coligação social forte que permita sustentar um aumento da progressividade fiscal.
Mas, e o PSD, caro Nuno Lobo? Um exemplo. O salário mínimo aumentará 6% em 2009, para 450 euros. Foi este aumento de 25 euros que Manuela Ferreira Leite considerou «roçar o nível da irresponsabilidade». O que estas hábeis e piedosas palavras mostram é a importância que o PSD de Ferreira Leite verdadeiramente atribui ao combate à pobreza e à desigualdade de rendimentos.
Como se sabe, e os dados de hoje continuam infelizmente a comprovar, em Portugal, e ao contrário de outros países, ter emprego não garante que se esteja a salvo do risco de pobreza.
Será que Ferreira Leite não percebe que a elevação do salário mínimo é determinante para a progressiva eliminação da pobreza entre aqueles com rendimentos do trabalho muito baixos? Ou será que percebe e não quer saber?
Existe uma palavra que descreve bem aqueles que afectam escândalo com os dados sobre a pobreza e a desigualdade de rendimentos, mas que depois são incapazes de apoiar as principais medidas de combate à pobreza e às desigualdades – o reforço da contratação colectiva, a fiscalidade mais progressiva na tributação do rendimento e o aumento do salário mínimo –: hipocrisia. E ainda outra: demagogia da pior.
Novas oportunidades m/f (ii)
20 Novembro 2008, 12:46 · Rui Branco
Está aberto concurso para o preenchimento da vaga de ponto da dra. Manuela Ferreira Leite. Respostas à São Caetano à Lapa ou ao cuidado do jornal Público.
Novas oportunidades m/f (i)
20 Novembro 2008, 12:45 · Rui Branco
Está aberto concurso para o preenchimento de vagas para explicador/a do que a dra. Manela quer dizer e não consegue (em virtude de uma patologia congénita na relação entre as funções conotativas e denotativas do discurso). Respostas à São Caetano à Lapa ou ao cuidado do jornal Público.
Poder simbólico
20 Novembro 2008, 10:39 · Rui Branco

Grande malha, esta versão do «Be my baby» pelos Glasvegas. («grande malha» salvo seja porque, se bem percebi a linha da reunião de ontem da Comissão Central de Controlo e Quadros, este vosso aparelho ideológico de Estado não se arroga a imposição dogmática aos eleitores, perdão, leitores, de um princípio de visão e de divisão, «isto é, o poder de tornar visíveis, explícitas, as divisões sociais implícitas, é o poder político por excelência: é o poder fazer grupos, de manipular a estrutura objectiva da sociedade» [Bourdieu, 1990: 167], nem do campo de produção cultural, nem, et pour cause, do campo político. Embora confesse, mas que fique bem claro que não quero criar chatices a ninguém, dividir a unidade da luta do movimento ou pactuar com qualquer exercício de fraccionamento, que o que eu desejava para a esquerda em Portugal era que tivesse grande simpatia pelo regime democrático parlamentar.)
Porque é que Hillary perdeu
19 Novembro 2008, 15:42 · Rui Branco
Quem viu o «War Room» se calhar lembra-se dele. Howard Wolfson era o tipo alto de barba meio ruiva que aparecia de vez em quando a olhar para Carville e Stephanopoulos, de braços cruzados, às vezes com ósculos escuros, pensativo.
Nas primárias da nomeação democrata, Wolfson era o «director de comunicações» da campanha de Hillary (o Toby Ziegler, portanto). A campanha parece que correu mal, como se sabe. Abundaram as teses e as exumações, depois menos, e se calhar agora outra vez mais.
No final das primárias, Wolfson tornou-se comentador da Fox News (fair and balanced, topam?), abriu um blog no site da New Republic, e regressou a uma paixão antiga (peço desculpa pelo tom taxonómico involuntário), a música indie. E tem um blog porreiríssimo a mostrar isso mesmo, o Gotham Acme.
Há muitas teorias sobre as razões pelas quais Hillary perdeu a nomeação democrata. Uma, ele pode haver outras: Hillary teve muitos, muitos votos, mas Obama teve mais. E parce que mais delegados também. Mas, se quisermos ser mais analíticos e rigorosos, sugiro aqui esta outra, que me parece ser das melhorzinhas até agora.
Uma campanha que entre «Suddenly I See» de K T Tunstall e «You and I» de Celine Dion escolhe a Celine Dion para a música da campanha - está tudo dito (e mais duas palavrinhas: Mark Penn e mais quem o contratou e não o despediu ou não despediu a tempo).
Como Wolfson entretanto contou com piada, ele na altura previu meio a brincar que essa seria uma escolha fatídica, que seria o fim da campanha. E foi mesmo. Tudo isto é recordado no Gotham Acme, no post «Election turning points», e no New York Times:
«Brainstorming sessions ensued. The Iowa caucuses could wait — this was serious business.
Ideas were put forward: Motown, disco, ballads. I pushed K T Tunstall’s “Suddenly I See” because it seemed empowering and upbeat. It was immediately criticized. What about the singer’s use of the word “hell”?
Everyone had favorites, and every favorite had its detractors. We studied lyrics and performer biographies. We downloaded possibilities and listened. Some of us danced, while others sat and frowned.
Get Ready” by the Temptations? Too sexual. “Rhythm Nation” by Janet Jackson? What about that unfortunate wardrobe malfunction?
To break the stalemate, we sponsored an online contest for supporters and gave them options to choose from. The votes and commentaries rolled in. Celine Dion’s “You and I” was selected, a decision I jokingly predicted would signal the end of the campaign.»
Nada como abrir o melão para ver: K T Tunstall vs. Celine Dion
Manuela Ferreira Leite: famous last words
18 Novembro 2008, 17:22 · Rui Branco
[som aqui]
Alguém que ajude Manuela Ferreira Leite a terminar o seu mandato com dignidade.
Sim, e o Bloco?
13 Novembro 2008, 18:10 · Rui Branco
«E o Bloco?
- É uma força de mudança que reflecte bem sobre uma série de questões mas que está ainda atada ao seu passado. O problema do BE, para ser uma força com potencial de Governo, tem que ver com o percurso dos seus dirigentes. Mais do que com o seu percurso como força política ou com o seu eleitorado. E para mim há duas questões essenciais. O euro e a NATO. O que seria de Portugal no contexto desta crise se não estivesse no euro? Só que nós não podemos dizer que gostamos do euro à segunda, quarta e sexta e dizer que podemos não cumprir o PEC à terça, quinta e sábado. »
Paulo Pedroso hoje no Diário Económico
Sobre a Madeira
11 Novembro 2008, 18:42 · Rui Branco
«Quanto ao Presidente da República - que as últimas revisões constitucionais erigiram também em principal responsável pelo regular funcionamento das instituições autonómicas, embora por interposto representante especial nas ilhas -, também não deixa de ser intrigante a sua discrição.
Não podem certamente sobrar nenhumas dúvidas de que directa ou indirectamente Cavaco Silva trabalhou decididamente para pôr ordem na situação e levar ao recuo do PSD madeirense. Mas teria sido tranquilizador que o Presidente tivesse podido comunicar explicitamente ao país a sua condenação da postergação dos direitos da oposição parlamentar na Madeira.
O silêncio presidencial é, de resto, tão inesperado quanto assimétrico, dada a prontidão e frequência com que se tem pronunciado sobre as mais controversas questões políticas a nível nacional, mesmo que por vezes sem a importância necessária para justificar o desvelo de Belém. Poderá haver algo mais grave do que fazer calar a voz das oposições no próprio quadro parlamentar?»
Vital Moreira hoje no Público (indisponível online)
Barack Obama é “jovem, bonito e está bronzeado”
7 Novembro 2008, 11:25 · Rui Branco

De facto, Deus nos salve de Berlusconi.
West Wing, season 8 começa
6 Novembro 2008, 19:35 · Rui Branco
Josh Lyman, perdão, Rahm Emanuel, acaba de aceitar a posição de chefe de gabinete na West Wing de Matt Santos, perdão, Barack Obama. Esta nomeação coloca-nos vários problemas de narratologia e epistemologia. Ficção e realidade tornam-se uma só (facto também notado por Pedro Marques Lopes). Primeiro, foi a série que se inspirou na realidade (quem viu o War Room e se lembrar da cena da galinha para chamar mariquinhas a quem não quer debater percebe do que estou a falar). Joshua «Josh» Lyman, o deputy chief of staff na West Wing de Bartlett, foi inspirado em Rahm Emanuel, politial adviser na Casa Branca de Clinton. Na 6.ª época, e aproximando-se o final do segundo mandato de Bartlett, Josh tem a ideia de ir desafiar um congressista hispânico, Matt Santos (Jimmy Smits), para concorrer às primárias democráticas. O discurso de Obama em 2004 terá inspirado Aaron Sorkin, o criador e argumentista de West Wing, para esta possibilidade (que o próprio já confirmou), a de um presidente não branco, meio desconhecido, que levanta um país com o poder de uma ideia simples: mudança. Depois de umas duras primárias, Matt Santos ganha a nomeação democrata; na época seguinte, Santos ganha a eleição presidencial contra um nomeado republicano desalinhado, decente, respeitável e respeitado pelos democratas (o magnífico Alan Alda), em quem muitos julgaram ver McCain, e bem. Santos, o primeiro presidente hispânico. O que é curioso é que a personagem de Santos sempre se recusou a correr como hispânico-americano; correu apenas como americano. Também ele enfrentou questões raciais fortes, que superou, percebendo bem, como Obama, que se corresse como o típico e previsível candidato chicano, com uma agenda política nascida e limitada por esse facto adscritivo, nunca poderia ganhar ou nunca poderia ganhar da única maneira que valia a pena ganhar, isto é, transcender as linhas de clivagem étnica. A 7.ª época de West Wing termina com a formação do primeiro governo de Santos, do qual Josh é, naturalmente, o chefe de gabinete. O último episódio da última época do West Wing foi para o ar em 14 de Maio de 2006. A ficção copiou a realidade e depois a realidade copiou a ficção. A 8.ª época começa.

Catatónico (eu vejo a Fox porque a Clix só tem a Fox)
5 Novembro 2008, 21:13 · Rui Branco
Entre as várias leituras argutas dos resultados da eleição de ontem sem esquecer o turnout, o Juan Williams a chorar na Fox, a exegese sobre a natureza do mandato recebido, os acertos de contas e as cobras de apostas, as especulações sobre a formação do governo, a reconstrução do Partido Republicano, a última estupidez do Mark Penn no Financial Times, saber quais as sondagens que mais acertaram, o Shepard Smith a grelhar o Ralph Nader na Fox - e parece que ao Rahm Emanuel foi mesmo oferecido o chief of staff (de Josh para Leo, portanto) -, sugiro uma coizita bastante aconchegante, isto.
Era uma vez a boa moeda
4 Novembro 2008, 18:44 · Rui Branco
«O caso do BPN vem, uma vez mais, revelar o papel decisivo do Estado em garantir a segurança e a confiança nas relações económicas. Mas, esperemos que, do mesmo modo que os novos tempos vieram tornar claras as debilidades estruturais do sistema financeiro capitalista à escala global, obrigando a encontrar novos modelos de regulação, também a solução do BPN não se fique apenas pela nacionalização. É preciso responsabilizar quem cometeu irregularidades, com custos evidentes para os accionistas, e também criar condições efectivas para que histórias como a do BPN não se desenrolem à sombra da passividade e da conivência colectiva»
Pedro Adão e Silva, «Uma história portuguesa», no Diário Económico de hoje.
É hoje
4 Novembro 2008, 12:44 · Rui Branco

É hoje. Acaba hoje; começa hoje. Já está a tocar no video aqui ao lado a musiquinha de intervenção que o momento impõe. Não, não se trata da nacionalização do BPN, embora qualquer oportunidade para colocar aqui posters do João Abel Manta seja boa (já lá vamos). Temos esperança que venha a ser a primeira musiquinha de uma série de musiquinhas alusivas. Para já, temos aqui o Bruce Springsteen a tocar o The Rising, no Storytellers, a mesma música que tocou anteontem à noite, em mais um get out the vote, em Cleveland, Ohio pois claro.
O caddy
3 Novembro 2008, 16:13 · Rui Branco

Este fim-de-semana, o Expresso titula na primeira página «Prodi e Santer criticam Durão Barroso», e explicava que «Os dois ex-Presidentes da Comissão Europeia dizem que Bruxelas deixou Sarkosy liderar o combate à crise. Prodi lamenta a “falta de iniciativa” e Santer gostaria de uma atitude “mais activa”.»
Fazer história
3 Novembro 2008, 12:43 · Rui Branco
Começa o video. Não é só o estarem a gritar «Bomb Obama» com o mesmo aparente pouco caso que McCain trauteva Bomb, bomb bomb, bomb-bomb Iran. Aos 37 segundo aparece um senhor com um cartaz «Democrat for McCain». Eis o diálogo:
- Why are you supporting Senator McCain if you’re a democrat?
- You don’t want my true answer.
- Yes I do.
- I’d never vote for a black man.
Este vídeo mostra bem como há quem faça questão de «fazer história» amanhã votando contra Obama.
Real Clear Politics
30 Outubro 2008, 16:45 · Rui Branco
+
= 
(* + * = *)
Salário mínimo
30 Outubro 2008, 11:53 · Rui Branco
Ainda em relação às hábeis e piedosas declarações de Manuela Ferreira Leite sobre o salário mínimo (repetidas ontem à noite) e aos terrorismos do senhor das PME’s a roçar a obscenidade, convém ler o estudo de Ricardo Paes Mamede «Impacto do Aumento do Salário Mínimo em 2008: uma Estimativa Baseada na Estrutura Salarial das Empresas Portuguesas» (aqui), que a Susana Corvelo deixou linkado em comentário ao post da Mariana, do qual destaco o seguinte, das conclusões:
Primeiro, que «o impacto em 2008 do acordo sobre a evolução da RMMG, em termos de aumento dos custos salariais das empresas portuguesas, assume um valor modesto, correspondendo a cerca de 0,13% do volume total de ganhos dos TCOs [trabalhadores por conta de outrem] a tempo integral».
Depois, que: «Em geral, os resultados sugerem que os efeitos do acordo sobre os custos da generalidade das empresas portuguesas são moderados. O impacto relativamente modesto do acordo sobre a evolução da RMMG em termos de custos salariais reforça a ideia de que o acordo alcançado poderá estar a contribuir para diminuir a incidência do fenómeno dos «trabalhadores pobres» em Portugal, sem com isso pôr em risco o desempenho da economia portuguesa na sua globalidade. Tendo em conta que os salários são apenas uma parcela dos custos totais das empresas, os efeitos globais do acordo para a competitividade do conjunto das empresas portuguesas em 2008 serão provavelmente diminutos.»
O suposto impacto devastador da elevação do salário mínimo sobre as piquenas e médias empresas, que alimenta a deprimente chantagem social do Senhor Presidente da Associação Nacional das Piquenas e Médias Empresas é uma história da carochinha. Uma treta.
Mas este é apenas um dos lados da questão. O outro é o combate à pobreza e à desigualdade de rendimentos. O aumento do salário mínimo é tanto mais significativo quanto, como se sabe, em Portugal, e ao contrário de outros países, ter emprego não garante que se esteja a salvo do risco de pobreza. A elevação do salário mínimo é decisiva na progressiva eliminação da pobreza entre aqueles com rendimentos do trabalho muito baixos.
É aliás curioso que a coligação de todos aqueles que se afirmam escandalizados com os níveis de pobreza e desigualdade de rendimentos se esboroe quando se trata de apoiar as principais medidas capazes de atenuar essas mesmas desigualdades: reforço da contratação colectiva, fiscalidade mais progressiva na tributação do rendimento e aumento do salário mínimo.
Tenham medo, tenham muito medo
26 Outubro 2008, 11:27 · Rui Branco

Palin: Obama’s Tax Plans Could Mean Nightmare Communist State
«See, under a big government, more tax agenda, what you thought was yours would really start belonging to somebody else, to everybody else. If you thought your income, your property, your inventory, your investments were, were yours, they would really collectively belong to everybody. Obama, Barack Obama has an ideological commitment to higher taxes, and I say this based on his record… Higher taxes, more government, misusing the power to tax leads to government moving into the role of some believing that government then has to take care of us. And government kind of moving into the role as the other half of our family, making decisions for us. Now, they do this in other countries where the people are not free. Let us fight for what is right. John McCain and I, we will put our trust in you.»
Em tempos de crise, não construir recorrendo ao crédito: lições da São Caetano à Lapa © (2)
26 Outubro 2008, 10:48 · Rui Branco

[fotografia de Ansel Adams]
Hoover Dam, sem a qual, para além do mais que é muito, não havia Las Vegas, esse templo da auto-regulação moral de que nos fala com insistência Henrique Raposo.

O sexismo e a cidade
24 Outubro 2008, 12:29 · Rui Branco
A minha senhora mandou-me dizer para escrever aqui que estas diatribes contra o dinheiro que Sarah Palin anda a gastar em roupa é puro sexismo e que se fosse um senhor a gastar em fatos Brioni e o catano estava tudo jóia.
Os malefícios do ginásio
24 Outubro 2008, 12:16 · Rui Branco
Parece que Madonna e Guy Ritchie já não tinham sexo há 18 meses, porque, parece, ela após quatro horas diárias de ginásio estava «too tired for love». Querem propostas para o orçamento? Reponham o IVA na merda dos ginásios.
Eu ainda me lembro do jogo de computador que Powell apresentou na ONU
24 Outubro 2008, 11:24 · Rui Branco
Hoje os jornais dizem que o apoio de Powell a Obama parece estar a ser decisivo para ajudar alguma parte dos indecisos (2 em 10, segundo sondagem citada pelo Público) a votar em Obama. Pois.
Em 6 de Fevereiro de 2003, Colin Powell falou na ONU, apresentando o caso a favor da invasão do Iraque. Eu ainda me lembro dos powerpoints e dos videos sobre os supostos comboios que transportavam e escondiam armas de destruição massiva. Entre outras coisas, Powell afirmou:
Argumentam: dá-nos jeito o apoio dele. E eu disputo a premissa desta resposta (que o seu apoio seja susceptivel de «nos» dar jeito). O facto de poder ser agora muito útil para ajudar Obama a ganhar não nos deve fazer de conta que não nos lembramos disto: a bad Pixar movie (com a devida vénia). Porque um dos princípios cruciais da autoridade política da campanha de Obama, para dentro e fora do Partido Democrata, foi a posição correcta e presciente, no conteúdo e no momento, sobre a Guerra do Iraque, apesar das manipulações e mentiras de pessoas como Colin Powell. Diga-se a banalidade evidente: Colin Powell foi protagonista, responsável e um dos instrumentos de uma mal amanhada mentira. E portanto, os termos encomiásticos com que o próprio Obama aceitou o apoio, parecem minar, corroer, a sua própria autoridade (quanto mais Powell vir a aceitar um lugar no Governo, que antes dele aceitar tem que lhe ser oferecido). Ou, para pedir emprestada a frase de hoje de Vasco Pulido Valente sobre Ferreira Leite e Santana, a Obama não ocorreu que o beneplácito a Powell é um acto simbólico que o desautoriza a ele e compromete os próprios princípios da sua candidatura à presidência.
Duas ideias que é preciso contrariar
16 Outubro 2008, 17:24 · Rui Branco
Face à ideia que vai fazendo o seu caminho de que o orçamento é eleitoralista e expansionista (por exemplo, por Pedro Guerreiro em comentário televisivo, e depois em editorial no Jornal de Negócios, e que Paulo Pinto Mascarenhas amplifica), Pedro Adão e Silva chama a atenção para o que está verdadeiramente em causa naquilo que Guerreiro designa de «voluntarismo» e «activismo»:
«Apesar do espectro de eleitoralismo, o exercício para 2009 é mais uma vez projectado como sendo de rigor. Ainda que haja uma variação dos 1,5% previstos para o défice no programa de estabilidade para 2,2% no OE, esta mudança deve-se, no essencial, ao contexto de muito significativo arrefecimento económico. Ou seja, não estamos perante um OE expansionista e o diferencial de 0,7 p.p. do PIB, tudo indicia, resulta mais da menor capacidade de fazer crescer a receita do que de um aumento da despesa. Aliás, o Ministro das Finanças já reconheceu que este ano haverá um abrandamento do crescimento das receitas fiscais.
Contudo, este é também um orçamento sensível ao contexto de crise internacional. Crise que provoca choques assimétricos, afectando mais às famílias de baixos recursos e as classes médias que vivem do trabalho dependente. Perante este cenário, havia duas possibilidades: usar alguma flexibilidade que existe agora no PEC, fazendo aumentar a despesa ou, pelo contrário, desenvolver medidas cirúrgicas, com fraco peso orçamental e escasso impacto no défice, mas direccionadas e eficazes.
O Governo optou pelo segundo caminho, aliviando as famílias de menores recursos nos encargos com IRS, nas despesas com habitação (que com a subida das taxas de juros têm vindo a ganhar um peso insustentável nos orçamentos familiares), ou aumentando um conjunto de prestações familiares (desde a criação do 13º mês no abono de família, passando pelo aumento da despesa com abonos em 15%, até ao reforço da acção social escolar), mas, também, insistindo no desenvolvimento dos serviços de apoio à família (ex. o aumento de 10% no investimento em equipamentos sociais), que é, aliás, a única forma de tornar socialmente viável a flexibilidade no mercado de trabalho de que a economia portuguesa necessita.
Naturalmente que estas medidas, por si só, não serão suficientes para aliviar de modo significativo os encargos financeiros e sociais que as famílias portuguesas têm, mas seria irresponsável, em nome de uma ilusão de bem-estar momentânea, ou de qualquer ambição eleitoralista de curto prazo, sacrificar as vantagens que o equilíbrio das contas públicas terá na vida das famílias portuguesas no médio prazo.»
E se disserem que isto é só inveja, é porque é verdade
16 Outubro 2008, 10:58 · Rui Branco
Quero aqui deixar o meu elogio a Pedro Santana Lopes. Tiro o meu chapéu, descobrindo a minha careca. Vejam-me este comment à sua extraordinária crítica ao filmezinho «Mamma Mia». E se disserem que isto é só inveja, é porque é verdade.
-
Vocas disse… - Boa noite… visitante recente do seu blog, apetece-me deixar hoje um comentário sobre o filme…
Quando o vi… ri, chorei, dancei…e também me apeteceu bater palmas…foi assim como que…aqueles mimos caseiros com cheiro a bolo de mel e canela.
Beijinhos
Muito me espanta um lídimo farol do liberalismo conservador revelar o seu esquerdismo radical unha negra
15 Outubro 2008, 19:40 · Rui Branco
bibliografia: aqui, por exemplo.
O centro virou à esquerda
10 Outubro 2008, 12:39 · Rui Branco
Pedro Adão e Silva, no Diário Económico de hoje.
Simulação fácil e auto-regulação moral
8 Outubro 2008, 17:19 · Rui Branco
Bom, não há por que escondê-lo. Sou membro de um ou outro google group. Já terão reparado que do lado direito do écran aparecem uns links. Ontem, exclusivamente por desfastio, que eu não sou dessas coisas, reparei na palavra «lingerie» ao lado da palavra «sensual». E cliquei na coisa. Pois bem, apareceu-me em letras garrafais «acesso negado pelos serviços informáticos». E eu agradeci, interiormente aliviado. Quem não é capaz de auto-regulação moral, de que falava o Henrique Raposo (e que o Hugo já comentou), precisa de facto de alguém que o faça por si. Injunção de infantilidade? Sim, e quero um Épá. Obrigado. Mas depois reparei que logo ali abaixo estava um link para um certo e determinado banco, que curiosamente parece que foi hoje nacionalizado. E pensei: eh lá, mais um créditozito e com «simulação fácil»? E cliquei. E a página abriu, no seu esplendor crediticio. Ora esta, então mas os serviços informáticos bloqueram o acesso à lingerie sensual mas já quando se trata do crédito fácil é à vontade do freguês? Então mas onde é que pára a hetero-regulação moral de que tanto necessitamos? A crise do subprime, os bancos falidos, a bolsa a pique, as nacionalizações e o diabo a sete e os serviços informáticos preocupados com roupa interior. É o fim do mundo. Quer dizer, eu pessoalmente achava mais inofensivo, neste momento histórico de crise, aceder à simulação fácil da lingerie sensual do que à simulação fácil do crédito. Critérios.
O McCain desconhecido
8 Outubro 2008, 16:51 · Rui Branco
Make-Believe Maverick, por Tim Dickson, na Rolling Stone.





