Não tenho a certeza que a Coreia do Norte não seja uma democracia
3 Junho 2009, 10:34 · Rui Branco
Cocoon reloaded
20 Maio 2009, 10:45 · Rui Branco

«Mención especial merecen los carteles de Ferreira Leite que jalonan las carreteras portuguesas. “Não desista. Todos somos precisos”, reza. Pero la desolada foto en blanco y negro de la candidata, sin maquillar, podría hacer pensar a los turistas que visitan el Algarve que se trata del mensaje de una asociación de apoyo a la tercera edad o de prevención del suicidio.»
Via Hoje há conquilhas, com a devida vénia.
Era exactamente isto que eu tinha medo com o Obama: healthcare cave-in (e se isto não se resolver esperemos que o resto valha a puta de uma missa). A palavra a Robert Reich
19 Maio 2009, 10:31 · Rui Branco
“Don’t make the perfect the enemy of the better” is a favorite slogan in Washington because compromise is necessary to get anything done. But the way things are going with health care, a better admonition would be: “Don’t give away the store.”
Many experts have long agreed that a so-called “single-payer” plan is the ideal, because competition among private insurers who pay health-care bills inevitably causes them to spend big bucks trying to find and market policies to healthy and younger people at relatively low risk of health problems while avoiding sicker and older people with higher risks (and rejecting those with pre-existing conditions altogether), and also contesting and litigating many claims. A single payer saves all this money and focuses on caring for sick people and preventing the healthy from becoming sick. The other advantage of a single payer is it can use its vast bargaining power to negotiate lower prices from pharmaceutical companies, hospitals, and suppliers.
Not surprisingly, insurance and drug companies have been dead-set against a single payer for years. And they’ve so frightened the public into thinking that “single payer” means loss of choice of doctor (that’s wrong — many single payer plans in other nations allow choices of medical deliverers) that politicians no longer even mention it.
On the campaign trail, Barack Obama pushed a compromise — a universal health plan that would include a “public insurance option” resembling Medicare, which individual members of the public and their families could choose if they wished. This Medicare-like option would at least be able to negotiate low rates and impose some discipline on private insurers.
But now the Medicare-like option is being taken off the table. Insurance and drug companies have thrown their weight around the Senate. And, sadly, the White House — eager to get a bill enacted in 2009 rather than risk it during the mid-term election year of 2010 — is signaling it’s open to other approaches. What other approaches? One would create a public insurance plan run by multiple regional third-party administrators. In other words, the putative “public plan” would be broken into little pieces, none of which could exert much bargaining leverage on Big Pharma and Big Insurance. These pieces would also be so decentralized that the drug companies and private insurers could easily bully (or bribe) regional third-party administrators.
Another approach now being considered in the Senate would have states create their own insurance plans. That’s even worse: Big Pharma and Big Insurance are used to buying off state legislators and officials. They’d just continue their current practices.
A third option is to create a public plan that pays for itself and, according to the office of Senator Charles Schumer, who came up with it, “adheres to private-insurance rules.” But adhering to private insurance rules is exactly what the public plan is not supposed to do. How can it possibly discipline private insurers and get good deals from drug companies and medical providers if it adheres to the same rules that private insurers have wangled?
It’s still possible that the House could come up with a real Medicare-like public option and that Senate Dems could pass it under a reconciliation bill needing just 51 votes. But it won’t happen without a great deal of pressure from the White House and the public. Big Pharma, Big Insurance, and the rest of Big Med are pushing hard in the opposite direction. And Democrats are now giving away the store. As things are now going, we’ll end up with a universal health-care bill this year that politicians, including our President, will claim as a big step forward when it’s really a step sideways.
Robert Reich, no seu blog e no Talking Points Memo
Benedetti morreu
18 Maio 2009, 11:53 · Rui Branco
A culpa é de um
Porventura foi uma hecatombe de esperanças
um desabar de algum modo previsto
ah! mas a minha tristeza teve um sentido só
todas as minhas intuições assomaram
para ver-me sofrer
e seguramente viram-no
até aqui tinha feito e refeito
os meus trajectos contigo
até aqui havia apostado
em inventar a verdade
mas encontraste a maneira
uma maneira terna
e ao mesmo tempo implacável
de deixar sem esperança o meu amor
com um simples prognóstico o deportaste
dos subúrbios da tua vida possível
o embrulhaste em nostalgias
o carregaste por um bom bocado
e devagarinho
sem que o ar nocturno o apercebesse
ali mesmo o deixaste
sozinho à sua sorte
que não é, pois, muita
creio que tens razão
a culpa é de um quando não se faz enamorar
e não dos pretextos
nem do tempo
faz muito, muito tempo
que eu não me enfrentava
como ontem à noite ao espelho
e fui implacável como tu
mas não fui terno
agora estou só
francamente
só
custa sempre um bocadinho
começar a sentir-se um desgraçado
antes de regressar
aos meus lúgubres acampamentos de Inverno
com os olhos bem enxutos
se por acaso
te vejo ao entrar na neblina
e começo a recordar-te
Mario Benedetti, «La culpa es de uno», versão RB.
Cindy Jackson, presidente do PSDV
29 Abril 2009, 12:25 · Rui Branco

Ler os outros
10 Março 2009, 9:47 · Rui Branco
Defesa da bipolarização
Tiago Tibúrcio no magnífico Forma Justa
Libertem Nascimento Rodrigues
10 Março 2009, 9:44 · Rui Branco

O Sr. Provedor de Justiça Nascimento Rodrigues é um preso político em Portugal. Está preso político há nove meses da incapacidade dos dois maiores partidos se entenderem na Assembleia da República sobre a identidade do seu sucessor. Isto é inaceitável e tão intolerável que compreenderia que Nascimento Rodrigues abandonasse funções, não exactamente para se furtar a qualquer coisa de profundamente penoso e humilhante no plano pesssoal (embora tal fosse humanamente compreensível - e quem seria capaz de atirar essa pedra?), mas como forma rude, directa e clara de responsabilizar os partidos e a Assembleia da República. Dito isto, diga-se também e com clareza que o PSD, ao insistir teimosamente em indicar o nome, tratando o cargo como se fosse na prática privativamente seu (alguém se lembra de um Provedor que não tenha sido indicado pelo PSD?) tem impedido um entendimento que é absolutamente necessário.
Continue que vai bem
10 Março 2009, 9:17 · Rui Branco

Manuela Ferreira Leite tem de escolher se deseja criticar o Governo por não fazer o que ela julga necessário para dar resposta à crise ou se deseja criticar o Governo por eleitoralismo, cada vez que este faz algo que ela julga necessário para dar resposta à crise. Uma vez que a crise existe, que o Governo está em funções e que as eleições serão inexoravelmente este ano, eu digo: boa malha! ganda crítica! continue que vai bem.
Faço minhas as palavras do João Pinto e Castro
20 Fevereiro 2009, 15:03 · Rui Branco
Um estranho silêncio
Não consigo contar a estória melhor do que Pedro Santos Guerreiro, Director do Jornal de Negócios:
“[Manuel Fino] entregou quase 10% da Cimpor à Caixa [em pagamento de uma dívida], mas as cláusulas leoninas foram a seu favor. A Caixa pagou mais 25% do que as acções valem; não pode vender as acções durante três anos; e Fino pode recomprar as acções, o que significa que foi a Caixa que ficou com o risco: se as acções desvalorizarem, perde; se valorizarem, Fino pode recomprá-las e ficar com o lucro. Não há dúvidas de que Manuel Fino fez um óptimo negócio e de que zelou pelos seus interesses. Assim como a Caixa - zelou pelos interesses de Manuel Fino.”
Os factos são conhecidos desde 2ª feira. Até hoje, porém, não comoveram os nossos media, usualmente tão propensos à indignação. Não fará sentido alguém questionar a administração da Caixa, interrogar o Ministro das Finanças, propor uma comissão de inquérito parlamentar, sei lá?
No momento em que tanto necessitamos de uma intervenção apropriada e rigorosa do Estado na economia, descobrimos que os responsáveis de instituições de relevo como a Caixa não se mostram à altura daquilo que deles temos o direito de esperar.
Isto, sim, é um drama.
O passado de uma ilusão*
17 Fevereiro 2009, 18:07 · Rui Branco
What passes for conservatism today would have been incomprehensible to its originator, Edmund Burke, who, in the late eighteenth century, set forth the principles by which governments might nurture the “organic” unity that bound a people together even in times of revolutionary upheaval. Burke’s conservatism was based not on a particular set of ideological principles but rather on distrust of all ideologies. In his most celebrated writings, his denunciation of the French Revolution and its English champions, Burke did not seek to justify the ancien regime and its many inequities. Nor did he propose a counter-ideology. Instead he warned against the destabilizing perils of revolutionary politics, beginning with its totalizing nostrums. Robespierre and Danton, the movement ideologues of their day, were inflamed with the Enlightenment vision of the ideal civilization and sacrificed to its abstractions the established traditions and institutions of what Burke called “civil society.” They placed an idea of the perfect society over and above the need to improve society as it really existed.
At the same time, Burke recognized that governments were obligated to use their powers to meliorate intolerable conditions. He had, for example, supported the American Revolution because its architects, unlike the French rebels, had not sought to destroy the English government; on the contrary, they petitioned for just representation within it. Had King George III complied, he would have strengthened, not weakened, the Crown and Parliament. Instead, he had inflexibly clung to the hard line and so shared responsibility for the Americans’ revolt. “A state without the means of some change is without the means of its conservation,” Burke warned. The task of the statesman was to maintain equilibrium between “[t]he two principles of conservation and correction.” Governance was a perpetual act of compromise–”sometimes between good and evil, and sometimes between evil and evil.” In such a scheme there is no useful place for the either/or of ideological purism.
The story of postwar American conservatism is best understood as a continual replay of a single long-standing debate. On one side are those who have upheld the Burkean ideal of replenishing civil society by adjusting to changing conditions. On the other are those committed to a revanchist counterrevolution, the restoration of America’s pre-welfare state ancien regime. And, time and again, the counterrevolutionaries have won. The result is that modern American conservatism has dedicated itself not to fortifying and replenishing civil society but rather to weakening it through a politics of civil warfare.
How did this happen? One reason is that the most intellectually sophisticated founders of postwar conservatism were in many instances ex-Marxists, who moved from left to right but remained persuaded that they were living in revolutionary times and so retained their absolutist fervor. In place of the Marxist dialectic they formulated a Manichaean politics of good and evil, still with us today, and their strategy was to build a movement based on organizing cultural antagonisms. Many have observed that movement politics most clearly defines itself not by what it yearns to conserve but by what it longs to destroy–”statist” social programs; “socialized medicine”; “big labor”; “activist” Supreme Court justices, the “media elite”; “tenured radicals” on university faculties; “experts” in and out of government.
Vale bem a pena ler tudo. De Sam Tenenhaus, «Conservatism is dead. The autopsy of the movement», no The New Republic.
* François Furet, O Passado de Uma Ilusão. Ensaio sobre a ideia comunista no século XX.
Don’t mention the war
17 Fevereiro 2009, 10:45 · Rui Branco
Por uma vez, concordo com o João Miguel Tavares: Passos Coelho é sonso; algo que, por junto com o seu derrotado liberalismo, não o recomenda ao futuro político. Passos tem a frescura e o prazo de validade de um comunista ortodoxo depois da queda do Muro. É tudo verdade o que diz João Miguel: a desvelada preocupação de Passos com as «condições anímicas» de Ferreira Leite (don’t mention the war) e a «avaliação que só ela poderá fazer» sobre se se deve demitir (don’t mention the war) são apenas falta de coragem (que passa por «ser hábil») para pedir a demissão da senhora. E, depois, impressiona a finíssima camada de hipocrisia: ainda há poucos dias no Rádio Clube o engenheiro Ângelo Correia veio transparentemente pedir a demissão da Dra. Manuela. Ao menos Menezes adquire, por comparação, as improváveis qualidades da coragem e da frontalidade. Mas o que é mesmo, mesmo grave é Passos entusiasmar com a sua «figura» os «jovens amigos de direita» do João Miguel Tavares, que eu imagino quais sejam, tanto assim que Tavares não tem «dúvidas sobre a falta que a sua postura liberal faça à pátria». O João Miguel consegue com esta frase lançar uma calúnia devastadora sobre toda uma nova geração da «direita inteligente». Relembrando que «postura», em bom rigor, é uma coisa apenas de galinhas, talvez seja adequado concluir que, no quadro da «reconstrução da direita em Portugal», Rui Ramos pariu um Passos.
A derrota de Pacheco
19 Dezembro 2008, 10:50 · Rui Branco
«O homem que ontem dizia, na Quadratura do Círculo da SIC Notícias, ponderar votar em Santarém em vez de em Lisboa para não ter de encarar a hipótese de pôr a cruz em Santana sofreu uma das maiores derrotas da sua dupla condição de político e comentador. Não seguramente a primeira - tem aliás o simbolismo trágico de um prémio de carreira. Um prémio ao contrário, como ao contrário estava o símbolo do PSD nos seus escritos anti-Menezes e anti-Santana.»
Fernanda Câncio, hoje, no DN.
Santana vive, mas e Ferreira Leite?
17 Dezembro 2008, 10:19 · Rui Branco
A escolha de Santana Lopes para a Câmara de Lisboa é a negação formal daquilo que supostamente a liderança de Ferreira Leite representa. Quando coisas como credibilidade, rigor e seriedade são os únicos artigos de um pretenso programa político, o populismo despesista e trapalhão de Santana é pura e simples kryptonite. A liderança de Ferreira Leite é já largamente póstuma. Por isso, concordo com o Pedro Marques Lopes qando dizia hoje de manhã no RCP que a liderança do PSD de Ferreira Leite acabou ontem quando Castro Almeida usou o nome do candidato a Braga Ricardo Rio como papel de embrulho para esconder o enjeitado menino-guerreiro.
Pacheco Pereira já tinha avisado: a escolha de Santana «seria um péssimo sinal». E não deixa de ser irónico que o PSD escolha para candidato ao municipio de Lisboa, disputa eleitoral em que as candidaturas são altamente personalizadas, o nome no qual, se tivesse estado no boletim de voto em 2005, a líder do PSD Ferreira Leite não teria votado («se lá estivesse o nome de Santana Lopes não votava»), como lembra o Público. O mesmo Santana Lopes que, ainda há pouco tempo dizia que: «a maneira de governar da dra. Manuela Ferreira Leite castiga, desmoraliza e deprime» e que acha que «o que ela defende para Portugal é o contrário do que Portugal precisa».
É impossível não concordar com Pacheco Pereira quando afirma que «Pedro Santana Lopes é a imagem da derrota do PSD de 2005, uma das derrotas maiores que o PSD alguma vez teve». Mas o que Pacheco Pereira oculta é que Manuela Ferreira Leite é também a imagem de uma tripla derrota: a derrota do rigor com a consolidação falhada das contas públicas, a derrota da credibilidade com a pior recessão à escala europeia em 2003 e a derrota da seriedade com a trapalhada do Citigroup.
E é este o PSD que agora temos. Um PSD que proclama rigor, mas oferece populismo. Um PSD que apregoa seriedade e competência, mas que nos deu truques e trapalhadas orçamentais. Um PSD que enche a boca com sensibilidade social, mas que acha que aumentar o salário mínimo em 25 euros «roça a irresponsabilidade».
«Os portugueses têm boas razões para pensar que as desigualdades não se curam com políticas de esquerda»?
15 Dezembro 2008, 18:49 · Rui Branco
Perguntava o Nuno Lobo no outro dia.
Pois bem, os dados de hoje do INE referentes aos rendimentos de 2006 aí estão para responder.
E a resposta é não, pelo contrário, os portugueses têm boas razões para pensar que as desigualdades se curam com políticas de esquerda.
Aqui fica o sumário e o link para o documento.
«De acordo com o mesmo inquérito, o rendimento dos 20% da população com maior rendimento era 6,5 vezes o rendimento dos 20% da população com menor rendimento, observando-se uma ligeira redução face ao valor de 6,8 estimado no ano anterior. Verifica-se igualmente uma redução no Coeficiente de Gini de 38% para 37%».
Os dados disponíveis sobre a evolução das desigualdades mostram que a evolução tem sido favorável (para além dos dados S80/S20 e do índice de Gini, relembro a evolução do S90/S10, de 12,3 para os rendimentos de 2003 para 10,8 para os de 2006), embora, está claro, ainda longe do necessário (e da média europeia, que se situará em torno dos 4,5 para o indicador S80/S20). Mas a dinâmica, o sentido da evolução, é inegável e se calhar convém dizer com toda a clareza que as desigualdades de rendimento não tem aumentado em Portugal desde 2005. Pelo contrário, têm dimínuido.
O que estes e os dados da evolução do indicador S80/S20 ao longo dos últimos anos mostram são duas coisas muito claras. Primeiro, que medidas como o Rendimento Mínimo Garantido/RSI e o Complemento Solidário para Idosos têm tido um efeito positivo, ajudando a retirar os mais desfavorecidos dos desfavorecidos da pobreza absoluta, embora subsistam ainda demasiados portugueses com rendimentos abaixo da linha de água da classe média que é preciso fazer subir.
Por outro, verifica-se que a desigualdade de rendimentos revela uma elevada sensibilidade ao ciclo político. Ou seja, sempre que o PS está no governo as desigualdades baixam (de 7,4 em 1995 para 6,5 em 2001 e de 7,4 em 2003 para 6,5 em 2006), e que quando a Direita esteve no governo as desigualdades aumentaram (6,5 para 7,4). Veja-se este gráfico, que ainda não contempla os dados de hoje, mas que ilustra o argumento:

What is to be done? A médio prazo, continuar o forte investimento nas qualificações profissionais é o que melhor combate a elevada dispersão salarial. Mas, de imediato, há que apostar na contratação colectiva (daí a importância da revisão do Código do Trabalho) e numa fiscalidade mais progressiva na tributação do rendimento.
Aliás, é muito importante que a mesma indignação colectiva que se manifesta - e bem - com as desigualdades de rendimento se mantenha firme quando se trata de atacar a questão da fiscalidade. Há que construir uma coligação social forte que permita sustentar um aumento da progressividade fiscal.
Mas, e o PSD, caro Nuno Lobo? Um exemplo. O salário mínimo aumentará 6% em 2009, para 450 euros. Foi este aumento de 25 euros que Manuela Ferreira Leite considerou «roçar o nível da irresponsabilidade». O que estas hábeis e piedosas palavras mostram é a importância que o PSD de Ferreira Leite verdadeiramente atribui ao combate à pobreza e à desigualdade de rendimentos.
Como se sabe, e os dados de hoje continuam infelizmente a comprovar, em Portugal, e ao contrário de outros países, ter emprego não garante que se esteja a salvo do risco de pobreza.
Será que Ferreira Leite não percebe que a elevação do salário mínimo é determinante para a progressiva eliminação da pobreza entre aqueles com rendimentos do trabalho muito baixos? Ou será que percebe e não quer saber?
Existe uma palavra que descreve bem aqueles que afectam escândalo com os dados sobre a pobreza e a desigualdade de rendimentos, mas que depois são incapazes de apoiar as principais medidas de combate à pobreza e às desigualdades – o reforço da contratação colectiva, a fiscalidade mais progressiva na tributação do rendimento e o aumento do salário mínimo –: hipocrisia. E ainda outra: demagogia da pior.
Novas oportunidades m/f (ii)
20 Novembro 2008, 12:46 · Rui Branco
Está aberto concurso para o preenchimento da vaga de ponto da dra. Manuela Ferreira Leite. Respostas à São Caetano à Lapa ou ao cuidado do jornal Público.
Novas oportunidades m/f (i)
20 Novembro 2008, 12:45 · Rui Branco
Está aberto concurso para o preenchimento de vagas para explicador/a do que a dra. Manela quer dizer e não consegue (em virtude de uma patologia congénita na relação entre as funções conotativas e denotativas do discurso). Respostas à São Caetano à Lapa ou ao cuidado do jornal Público.
Poder simbólico
20 Novembro 2008, 10:39 · Rui Branco

Grande malha, esta versão do «Be my baby» pelos Glasvegas. («grande malha» salvo seja porque, se bem percebi a linha da reunião de ontem da Comissão Central de Controlo e Quadros, este vosso aparelho ideológico de Estado não se arroga a imposição dogmática aos eleitores, perdão, leitores, de um princípio de visão e de divisão, «isto é, o poder de tornar visíveis, explícitas, as divisões sociais implícitas, é o poder político por excelência: é o poder fazer grupos, de manipular a estrutura objectiva da sociedade» [Bourdieu, 1990: 167], nem do campo de produção cultural, nem, et pour cause, do campo político. Embora confesse, mas que fique bem claro que não quero criar chatices a ninguém, dividir a unidade da luta do movimento ou pactuar com qualquer exercício de fraccionamento, que o que eu desejava para a esquerda em Portugal era que tivesse grande simpatia pelo regime democrático parlamentar.)
Porque é que Hillary perdeu
19 Novembro 2008, 15:42 · Rui Branco
Quem viu o «War Room» se calhar lembra-se dele. Howard Wolfson era o tipo alto de barba meio ruiva que aparecia de vez em quando a olhar para Carville e Stephanopoulos, de braços cruzados, às vezes com ósculos escuros, pensativo.
Nas primárias da nomeação democrata, Wolfson era o «director de comunicações» da campanha de Hillary (o Toby Ziegler, portanto). A campanha parece que correu mal, como se sabe. Abundaram as teses e as exumações, depois menos, e se calhar agora outra vez mais.
No final das primárias, Wolfson tornou-se comentador da Fox News (fair and balanced, topam?), abriu um blog no site da New Republic, e regressou a uma paixão antiga (peço desculpa pelo tom taxonómico involuntário), a música indie. E tem um blog porreiríssimo a mostrar isso mesmo, o Gotham Acme.
Há muitas teorias sobre as razões pelas quais Hillary perdeu a nomeação democrata. Uma, ele pode haver outras: Hillary teve muitos, muitos votos, mas Obama teve mais. E parce que mais delegados também. Mas, se quisermos ser mais analíticos e rigorosos, sugiro aqui esta outra, que me parece ser das melhorzinhas até agora.
Uma campanha que entre «Suddenly I See» de K T Tunstall e «You and I» de Celine Dion escolhe a Celine Dion para a música da campanha - está tudo dito (e mais duas palavrinhas: Mark Penn e mais quem o contratou e não o despediu ou não despediu a tempo).
Como Wolfson entretanto contou com piada, ele na altura previu meio a brincar que essa seria uma escolha fatídica, que seria o fim da campanha. E foi mesmo. Tudo isto é recordado no Gotham Acme, no post «Election turning points», e no New York Times:
«Brainstorming sessions ensued. The Iowa caucuses could wait — this was serious business.
Ideas were put forward: Motown, disco, ballads. I pushed K T Tunstall’s “Suddenly I See” because it seemed empowering and upbeat. It was immediately criticized. What about the singer’s use of the word “hell”?
Everyone had favorites, and every favorite had its detractors. We studied lyrics and performer biographies. We downloaded possibilities and listened. Some of us danced, while others sat and frowned.
Get Ready” by the Temptations? Too sexual. “Rhythm Nation” by Janet Jackson? What about that unfortunate wardrobe malfunction?
To break the stalemate, we sponsored an online contest for supporters and gave them options to choose from. The votes and commentaries rolled in. Celine Dion’s “You and I” was selected, a decision I jokingly predicted would signal the end of the campaign.»
Nada como abrir o melão para ver: K T Tunstall vs. Celine Dion
Manuela Ferreira Leite: famous last words
18 Novembro 2008, 17:22 · Rui Branco
[som aqui]
Alguém que ajude Manuela Ferreira Leite a terminar o seu mandato com dignidade.
Sim, e o Bloco?
13 Novembro 2008, 18:10 · Rui Branco
«E o Bloco?
- É uma força de mudança que reflecte bem sobre uma série de questões mas que está ainda atada ao seu passado. O problema do BE, para ser uma força com potencial de Governo, tem que ver com o percurso dos seus dirigentes. Mais do que com o seu percurso como força política ou com o seu eleitorado. E para mim há duas questões essenciais. O euro e a NATO. O que seria de Portugal no contexto desta crise se não estivesse no euro? Só que nós não podemos dizer que gostamos do euro à segunda, quarta e sexta e dizer que podemos não cumprir o PEC à terça, quinta e sábado. »
Paulo Pedroso hoje no Diário Económico
Sobre a Madeira
11 Novembro 2008, 18:42 · Rui Branco
«Quanto ao Presidente da República - que as últimas revisões constitucionais erigiram também em principal responsável pelo regular funcionamento das instituições autonómicas, embora por interposto representante especial nas ilhas -, também não deixa de ser intrigante a sua discrição.
Não podem certamente sobrar nenhumas dúvidas de que directa ou indirectamente Cavaco Silva trabalhou decididamente para pôr ordem na situação e levar ao recuo do PSD madeirense. Mas teria sido tranquilizador que o Presidente tivesse podido comunicar explicitamente ao país a sua condenação da postergação dos direitos da oposição parlamentar na Madeira.
O silêncio presidencial é, de resto, tão inesperado quanto assimétrico, dada a prontidão e frequência com que se tem pronunciado sobre as mais controversas questões políticas a nível nacional, mesmo que por vezes sem a importância necessária para justificar o desvelo de Belém. Poderá haver algo mais grave do que fazer calar a voz das oposições no próprio quadro parlamentar?»
Vital Moreira hoje no Público (indisponível online)
Barack Obama é “jovem, bonito e está bronzeado”
7 Novembro 2008, 11:25 · Rui Branco

De facto, Deus nos salve de Berlusconi.
West Wing, season 8 começa
6 Novembro 2008, 19:35 · Rui Branco
Josh Lyman, perdão, Rahm Emanuel, acaba de aceitar a posição de chefe de gabinete na West Wing de Matt Santos, perdão, Barack Obama. Esta nomeação coloca-nos vários problemas de narratologia e epistemologia. Ficção e realidade tornam-se uma só (facto também notado por Pedro Marques Lopes). Primeiro, foi a série que se inspirou na realidade (quem viu o War Room e se lembrar da cena da galinha para chamar mariquinhas a quem não quer debater percebe do que estou a falar). Joshua «Josh» Lyman, o deputy chief of staff na West Wing de Bartlett, foi inspirado em Rahm Emanuel, politial adviser na Casa Branca de Clinton. Na 6.ª época, e aproximando-se o final do segundo mandato de Bartlett, Josh tem a ideia de ir desafiar um congressista hispânico, Matt Santos (Jimmy Smits), para concorrer às primárias democráticas. O discurso de Obama em 2004 terá inspirado Aaron Sorkin, o criador e argumentista de West Wing, para esta possibilidade (que o próprio já confirmou), a de um presidente não branco, meio desconhecido, que levanta um país com o poder de uma ideia simples: mudança. Depois de umas duras primárias, Matt Santos ganha a nomeação democrata; na época seguinte, Santos ganha a eleição presidencial contra um nomeado republicano desalinhado, decente, respeitável e respeitado pelos democratas (o magnífico Alan Alda), em quem muitos julgaram ver McCain, e bem. Santos, o primeiro presidente hispânico. O que é curioso é que a personagem de Santos sempre se recusou a correr como hispânico-americano; correu apenas como americano. Também ele enfrentou questões raciais fortes, que superou, percebendo bem, como Obama, que se corresse como o típico e previsível candidato chicano, com uma agenda política nascida e limitada por esse facto adscritivo, nunca poderia ganhar ou nunca poderia ganhar da única maneira que valia a pena ganhar, isto é, transcender as linhas de clivagem étnica. A 7.ª época de West Wing termina com a formação do primeiro governo de Santos, do qual Josh é, naturalmente, o chefe de gabinete. O último episódio da última época do West Wing foi para o ar em 14 de Maio de 2006. A ficção copiou a realidade e depois a realidade copiou a ficção. A 8.ª época começa.

Catatónico (eu vejo a Fox porque a Clix só tem a Fox)
5 Novembro 2008, 21:13 · Rui Branco
Entre as várias leituras argutas dos resultados da eleição de ontem sem esquecer o turnout, o Juan Williams a chorar na Fox, a exegese sobre a natureza do mandato recebido, os acertos de contas e as cobras de apostas, as especulações sobre a formação do governo, a reconstrução do Partido Republicano, a última estupidez do Mark Penn no Financial Times, saber quais as sondagens que mais acertaram, o Shepard Smith a grelhar o Ralph Nader na Fox - e parece que ao Rahm Emanuel foi mesmo oferecido o chief of staff (de Josh para Leo, portanto) -, sugiro uma coizita bastante aconchegante, isto.
Era uma vez a boa moeda
4 Novembro 2008, 18:44 · Rui Branco
«O caso do BPN vem, uma vez mais, revelar o papel decisivo do Estado em garantir a segurança e a confiança nas relações económicas. Mas, esperemos que, do mesmo modo que os novos tempos vieram tornar claras as debilidades estruturais do sistema financeiro capitalista à escala global, obrigando a encontrar novos modelos de regulação, também a solução do BPN não se fique apenas pela nacionalização. É preciso responsabilizar quem cometeu irregularidades, com custos evidentes para os accionistas, e também criar condições efectivas para que histórias como a do BPN não se desenrolem à sombra da passividade e da conivência colectiva»
Pedro Adão e Silva, «Uma história portuguesa», no Diário Económico de hoje.
É hoje
4 Novembro 2008, 12:44 · Rui Branco

É hoje. Acaba hoje; começa hoje. Já está a tocar no video aqui ao lado a musiquinha de intervenção que o momento impõe. Não, não se trata da nacionalização do BPN, embora qualquer oportunidade para colocar aqui posters do João Abel Manta seja boa (já lá vamos). Temos esperança que venha a ser a primeira musiquinha de uma série de musiquinhas alusivas. Para já, temos aqui o Bruce Springsteen a tocar o The Rising, no Storytellers, a mesma música que tocou anteontem à noite, em mais um get out the vote, em Cleveland, Ohio pois claro.
O caddy
3 Novembro 2008, 16:13 · Rui Branco

Este fim-de-semana, o Expresso titula na primeira página «Prodi e Santer criticam Durão Barroso», e explicava que «Os dois ex-Presidentes da Comissão Europeia dizem que Bruxelas deixou Sarkosy liderar o combate à crise. Prodi lamenta a “falta de iniciativa” e Santer gostaria de uma atitude “mais activa”.»
Fazer história
3 Novembro 2008, 12:43 · Rui Branco
Começa o video. Não é só o estarem a gritar «Bomb Obama» com o mesmo aparente pouco caso que McCain trauteva Bomb, bomb bomb, bomb-bomb Iran. Aos 37 segundo aparece um senhor com um cartaz «Democrat for McCain». Eis o diálogo:
- Why are you supporting Senator McCain if you’re a democrat?
- You don’t want my true answer.
- Yes I do.
- I’d never vote for a black man.
Este vídeo mostra bem como há quem faça questão de «fazer história» amanhã votando contra Obama.
Real Clear Politics
30 Outubro 2008, 16:45 · Rui Branco
+
= 
(* + * = *)
Salário mínimo
30 Outubro 2008, 11:53 · Rui Branco
Ainda em relação às hábeis e piedosas declarações de Manuela Ferreira Leite sobre o salário mínimo (repetidas ontem à noite) e aos terrorismos do senhor das PME’s a roçar a obscenidade, convém ler o estudo de Ricardo Paes Mamede «Impacto do Aumento do Salário Mínimo em 2008: uma Estimativa Baseada na Estrutura Salarial das Empresas Portuguesas» (aqui), que a Susana Corvelo deixou linkado em comentário ao post da Mariana, do qual destaco o seguinte, das conclusões:
Primeiro, que «o impacto em 2008 do acordo sobre a evolução da RMMG, em termos de aumento dos custos salariais das empresas portuguesas, assume um valor modesto, correspondendo a cerca de 0,13% do volume total de ganhos dos TCOs [trabalhadores por conta de outrem] a tempo integral».
Depois, que: «Em geral, os resultados sugerem que os efeitos do acordo sobre os custos da generalidade das empresas portuguesas são moderados. O impacto relativamente modesto do acordo sobre a evolução da RMMG em termos de custos salariais reforça a ideia de que o acordo alcançado poderá estar a contribuir para diminuir a incidência do fenómeno dos «trabalhadores pobres» em Portugal, sem com isso pôr em risco o desempenho da economia portuguesa na sua globalidade. Tendo em conta que os salários são apenas uma parcela dos custos totais das empresas, os efeitos globais do acordo para a competitividade do conjunto das empresas portuguesas em 2008 serão provavelmente diminutos.»
O suposto impacto devastador da elevação do salário mínimo sobre as piquenas e médias empresas, que alimenta a deprimente chantagem social do Senhor Presidente da Associação Nacional das Piquenas e Médias Empresas é uma história da carochinha. Uma treta.
Mas este é apenas um dos lados da questão. O outro é o combate à pobreza e à desigualdade de rendimentos. O aumento do salário mínimo é tanto mais significativo quanto, como se sabe, em Portugal, e ao contrário de outros países, ter emprego não garante que se esteja a salvo do risco de pobreza. A elevação do salário mínimo é decisiva na progressiva eliminação da pobreza entre aqueles com rendimentos do trabalho muito baixos.
É aliás curioso que a coligação de todos aqueles que se afirmam escandalizados com os níveis de pobreza e desigualdade de rendimentos se esboroe quando se trata de apoiar as principais medidas capazes de atenuar essas mesmas desigualdades: reforço da contratação colectiva, fiscalidade mais progressiva na tributação do rendimento e aumento do salário mínimo.





