Boas leituras

19 Novembro 2008, 20:49 · Hugo Mendes

Aqui e aqui.

Para evitar mais equívocos, Ferreira Leite vai adoptar um registo de comunicação mais adequado ao seu estilo

19 Novembro 2008, 19:17 · André Salgado

O palco e os artistas

19 Novembro 2008, 16:01 · André Salgado

É sempre trágico, quando se ensaia uma ironia ou conta uma piada, não se fazer compreender que era uma piada e ainda culpar o público. Ao menos o eng. Carlos Borrego quando saiu, saiu em ombros.

Porque é que Hillary perdeu

19 Novembro 2008, 15:42 · Rui Branco

Quem viu o «War Room» se calhar lembra-se dele. Howard Wolfson era o tipo alto de barba meio ruiva que aparecia de vez em quando a olhar para Carville e Stephanopoulos, de braços cruzados, às vezes com ósculos escuros, pensativo.

Nas primárias da nomeação democrata, Wolfson era o «director de comunicações» da campanha de Hillary (o Toby Ziegler, portanto). A campanha parece que correu mal, como se sabe. Abundaram as teses e as exumações, depois menos, e se calhar agora outra vez mais.

No final das primárias, Wolfson tornou-se comentador da Fox News (fair and balanced, topam?), abriu um blog no site da New Republic, e regressou a uma paixão antiga (peço desculpa pelo tom taxonómico involuntário), a música indie. E tem um blog porreiríssimo a mostrar isso mesmo, o Gotham Acme.

Há muitas teorias sobre as razões pelas quais Hillary perdeu a nomeação democrata. Uma, ele pode haver outras: Hillary teve muitos, muitos votos, mas Obama teve mais. E parce que mais delegados também. Mas, se quisermos ser mais analíticos e rigorosos, sugiro aqui esta outra, que me parece ser das melhorzinhas até agora.

Uma campanha que entre «Suddenly I See» de K T Tunstall e «You and I» de Celine Dion escolhe a Celine Dion para a música da campanha - está tudo dito (e mais duas palavrinhas: Mark Penn e mais quem o contratou e não o despediu ou não despediu a tempo).

Como Wolfson entretanto contou com piada, ele na altura previu meio a brincar que essa seria uma escolha fatídica, que seria o fim da campanha. E foi mesmo. Tudo isto é recordado no Gotham Acme, no post «Election turning points», e no New York Times:

«Brainstorming sessions ensued. The Iowa caucuses could wait — this was serious business.

Ideas were put forward: Motown, disco, ballads. I pushed K T Tunstall’s “Suddenly I See” because it seemed empowering and upbeat. It was immediately criticized. What about the singer’s use of the word “hell”?

Everyone had favorites, and every favorite had its detractors. We studied lyrics and performer biographies. We downloaded possibilities and listened. Some of us danced, while others sat and frowned.

Get Ready” by the Temptations? Too sexual. “Rhythm Nation” by Janet Jackson? What about that unfortunate wardrobe malfunction?

To break the stalemate, we sponsored an online contest for supporters and gave them options to choose from. The votes and commentaries rolled in. Celine Dion’s “You and I” was selected, a decision I jokingly predicted would signal the end of the campaign

Nada como abrir o melão para ver: K T Tunstall vs. Celine Dion

Foi notícia mas podia não ter sido (4)

19 Novembro 2008, 13:50 · Miguel Cabrita

Golfinho já está à frente do choco. Entrevista de Fernando Pedrosa mudou tendência da votação online da mascote. A agitadora votação que decorre no site do Vitória para eleição da mascote, entre uma bola, um golfinho e um polémico choco, sofreu inversão de tendência. O golfinho acelerou, chegou aos 49 por cento das preferências e ultrapassou o choco que está agora apenas com 47. A bola nem entra na luta. Esta mudança, no universo de votantes já próximo dos onze mil, parece estar relacionada com o pedido público do presidente do Conselho Vitoriano, Fernando Pedrosa, que classificou a simples sugestão do choco como um atentado à dignidade do Vitória de Setúbal.”

A Bola, 18 de Novembro de 2008, p28 (infelizmente, não disponível online).

Actualização: com 29000 votos contados, o choco toma claramente a dianteira com 52% das preferências contra apenas 46% do golfinho. Votar aqui.

Façamos-lhe essa justiça

19 Novembro 2008, 13:50 · André Salgado

Ontem, ouvimos as primeiras palavras da dra. Ferreira Leite sobre a Madeira.

Autoritarismo

19 Novembro 2008, 13:42 · Tiago Barbosa Ribeiro

Parece que a FENPROF não abandonou uma reunião ao final de 30 minutos. Saiu «mais cedo do que o normal por não haver mais nada a discutir», o que é radicalmente diferente e revela uma grande disposição para superar divergências pela via negocial. Em suma, os sindicatos assinaram um memorando de entendimento que agora não cumprem. Quando o governo se dispõe a discutir essa quebra contratual, os sindicatos afirmam que não há nada a discutir. A FENPROF prefere chegar a um acordo com as câmaras de televisão do que com o governo e o governo é que revela «autoritarismo».

do anedotário do dr. Luís Marques Got it?

19 Novembro 2008, 13:35 · André Salgado

O telefone toca em casa do dr. Rangel.

- Estou?

- Paulo? Estás bom? Olha lá, já começaste a escrever o discurso do 25 de Abril?

- Já, já, umas folhas… mas ando pr’aqui às voltas a tentar arranjar uns trocadilhos ou uns sinónimos p’rá claustrofobia democrática.

- Eh pá, esquece lá isso. Este ano vamos falar d’outra coisa.

A dignidade profissional não é uma base para uma política pública

19 Novembro 2008, 12:40 · Hugo Mendes

Em 1980, quando boa parte da esquerda francesa vivia a ressaca do fim do encantamento marxista, Marcel Gauchet escreveu um artigo na revista “Le Débat” intitulado “Les droits de l’homme ne sont pas une politique”*. O filósofo, que havia rompido com o marxismo depois de 1968, quis chamar a atenção para o discurso anti-totalitário que se instalara no fim do anos 70 na vida intelectual francesa, recordando que uma coisa era crítica ao totalitarismo soviético que apelava e fazia o elogio (do respeito) dos direitos humanos, outra bem diferente era pensar que esta invocação, central na defesa dos direitos do indivíduo contra o Estado, seria suficiente para ajudar a construir uma política no sentido mais amplo, enquanto orientação para a vida colectiva, traduzível em política públicas de médio alcance (o autor voltou a esse artigo neste post mais recente).

Lembrei-me deste artigo (e da sua linha argumentativa) depois de ter passado os últimos meses a ler que o Ministério da Educação pecou por ter atacado a dignidade profissional dos docentes – acusação aplicável, sabemos, ao Governo na relação com grupos profissionais ou com os funcionários públicos, numa crítica que parece unir o PCP, o BE e o PSD.

Ora, a minha opinião é esta e digo-a muito claramente: parafraseando Marcel Gauchet, a dignidade de um grupo profissional não é uma base para uma política pública. Isto não significa que os grupos ou os indivíduos devem ser maltratados, naturalmente. Mas:

1) ser “maltratado” é um bocadinho difícil de definir (ou melhor: é um bocadinho difícil definir até onde pode ir esse alegado “mau-trato”), e por isso dado ao exagero, à instrumentalização e à chantagem;

2) as políticas públicas, quando “maltratam” uns, é muitas vezes em nome de uma melhoria do tratamento de outros (por exemplo, alunos e as suas famílias), sendo importante aqui não perder de vista os que são os ‘meios’ e ‘fins’ de uma política pública. Por exemplo, leiam-se duas coisas ditas por João Lobo Antunes na entrevista que deu à Rádio Renascença e ao “Público” (publicada na edição no passado domingo do jornal): «Conheço muitos professores e nos últimos meses não vi um feliz»; «(…) uma das nossas tragédias é que não há forma de demitir, de afastar, um professor incompetente» (qual das duas afirmações fez o título do ‘Público’? A primeira, pois claro…). Afastar um professor incompetente não pode deixar de lhe causar “infelicidade”. Mas esta é ou não é uma medida importante para garantir a qualidade do sistema e a confiança daqueles que serve?

3) o que dignifica um grupo profissional é também algo escorregadio. Enquanto a FENPROF acha que instituir uma avaliação dos professores que diferencie os melhores dos piores professores é indigno e um ataque à profissão (a avaliação só deve ser formativa, argumenta…) porque implica uma diferenciação entre a massa dos profissionais (raciocínio semelhante aplica-se à questão da prova de ingresso na profissão, da qual a FENPROF discorda), eu acho – e parece-me que muitos concordarão comigo - que o que realmente contribui para o desprestígio de uma profissão é não ter mecanismos de controlo de qualidade dos seus profissionais e das suas práticas; o que é realmente danoso é que possa circular - citando as palavras com que termina o editorial do “Público” do passado sábado, assinado por Manuel Carvalho - «a ideia de que as salas de aulas são o armazém onde cabem os licenciados que não sabem ou não querem fazer mais nada». Os médicos, os advogados ou os engenheiros têm mecanismos de apertada selecção dos seus profissionais. Severos ou não, eles garantem a quem recorre aos seus serviços que estes terão uma qualidade mínima. Mas no caso dos professores, os sindicatos acham que a profissão é defendida maximizando o número de profissionais em vez de maximizar os critérios de garantia de qualidade no acesso e no seu desempenho. Não é preciso ser particularmente cínico para achar que o que está aqui em acção é uma racionalidade “político-sindical” mais do que efectivamente “profissional”: quanto mais professores existirem, maior será a pressão política sobre o Ministério da Educação para os integrar no sistema educativo; e como não há lugar para todos, muitos profissionais ficam a perder, mas os líderes sindicais ganham um maior número de descontentes para engrossar as manifestações.

É em termos de vários critérios de justiça - intra e inter-profissional - e de eficiência que devemos pensar e avaliar as políticas públicas (o que será tema para outro post). A dignidade profissional existe, sem dúvida, mas eu não acho que possa funcionar como um critério claro orientador de políticas. Porque senão acabamos num beco sem saída: qualquer medida impopular é tida como um ataque à dignidade profissional, e, por isso, impossível de implementar. Em democracia, claro. E (tirando a infelicidade e a ironia falhada das suas palavras) este foi o beco em que Manuela Ferreira Leite provou, com as palavras de ontem, estar metida.

* ”Les droits de l’homme ne sont pas une politique’, Le Débat, juillet-août, 1980   

Aos papéis

18 Novembro 2008, 21:06 · Hugo Mendes

O PSD relativiza as declarações de Manuela Ferreira Leite, dizendo que a líder do partido criticou o “autoritarismo” do Governo no mesmo dia em que Paulo Rangel acusa a Ministra da Educaçao de fazer “uma política de plasticina”.

A próxima declaração do PSD vai ser para nos explicar como é possível, sem qualquer incoerência e no mesmo dia, acusar alguém de autoritarismo e excessiva vulnerabilidade às circunstâncias.

6 meses é pouco

18 Novembro 2008, 20:17 · Hugo Mendes

“Estas declarações são naturalmente infelizes e despropositadas”, comentou o líder parlamentar do PCP, Bernardino Soares, reagindo a um discurso proferido esta tarde por Manuela Ferreira Leite na Câmara de Comércio Luso-Americana.

Naturalmente. Falta dizer apenas que, para o PCP, a democracia não deve tirar 6 meses de licença sabática. A única solução é mesmo a reforma compulsiva.

Alguém pediu uma “negociação”?

18 Novembro 2008, 19:55 · Hugo Mendes

Frases tiradas de dois ‘takes’ da Lusa:

Não há negociação possível sem a suspensão do actual modelo de avaliação”, disse [Mário Nogueira], lembrando que já na quarta-feira a FENPROF vai reunir com responsáveis do Ministério da Educação, que voltou a marcar novos encontros com as estruturas sindicais.

“Se os sindicatos desenvolverem formas de luta coerentes, consistentes e em consonância com os professores estamos dispostos a fazer dos sindicatos nossos companheiros nesta jornada”, afirmou Mário Machaqueiro [da Associação de Professores e Educadores em Defesa do Ensino], adiantando que “é muito importante que os sindicatos não entrem em processo de negociação“.

Estamos todos à espera que alguém acuse estes senhores de “arrogância”, “prepotência” e por aí fora.

“Não pode ser a comunicação social a seleccionar aquilo que transmite”

18 Novembro 2008, 19:10 · André Salgado

“Penso que não há qualquer atraso (na atribuição de verbas comunitárias a Portugal)”, afirmou em Bruxelas o porta-voz para a Política Regional, Dennis Abbott, explicando que o processo de avaliação de conformidade da CE ainda não está finalizado no caso português, o que não é diferente da maioria dos Estados-membros. Bruxelas veio, assim, desmentir a dra. Ferreira Leite, que acusara o governo português de “oportunismo e ineficácia”, protelando a entrada de fundos comunitários “provavelmente por interesses partidários e provavelmente para concentrá-los mais perto das eleições”.

Quando se poderia pensar tratar-se apenas de mais uma gaffe da dra. Ferreira Leite, em maré de azar no encontro das suas declarações públicas com a realidade, deparamo-nos com a perplexidade total, a propósito da (im)possibilidade de introdução de reformas no país:

“E até não sei se a certa altura não é bom haver seis meses sem democracia, mete-se tudo na ordem e depois então venha a democracia”

Depois de caixas de Lexotans, o dr. Paulo Rangel já deve estar nos cuidados intensivos.

Licença sabática

18 Novembro 2008, 19:05 · Tiago Barbosa Ribeiro

Manuela Ferreira Leite quer que a democracia tire 6 meses de licença sabática. Quase meio século não lhe bastou.

Quem quer dialogar ou como simplificar a luta pelo poder

18 Novembro 2008, 18:22 · André Salgado

O problema do modelo de avaliação dos professores era a sua excessiva carga burocrática, diziam, e que era preciso simplificar. Hoje, Mário Nogueira explicou na Assembleia da República o que está realmente em jogo. Não chega a disponibilidade da Ministra da Educação para dialogar: “abertura para dialogar não é a senhora ministra dizer eu estou disponível para simplificar“, acrescentando que “corremos o risco de daqui a 10 anos ainda andarmos a aprovar simplificações”. O que o líder da FENPROF se esqueceu de dizer é que corremos o risco de acrescentar mais um ano às mais de três décadas de ensino público em democracia sem um modelo de avaliação dos professores. E concluiu, lapidar: “suspende-se e ponto final”.

Tomem nota, este é o trunfo de uma vida para o mestrado de Mário Nogueira rumo ao topo da hierarquia da CGTP.

A Educação virá a seguir.

Manuela Ferreira Leite: famous last words

18 Novembro 2008, 17:22 · Rui Branco

«Quando não se está em democracia é outra conversa, eu digo como é que é e faz-se”, observou em seguida a presidente do PSD, acrescentando: “E até não sei se a certa altura não é bom haver seis meses sem democracia, mete-se tudo na ordem e depois então venha a democracia”.»

[som aqui]

Alguém que ajude Manuela Ferreira Leite a terminar o seu mandato com dignidade.

Soviete, meu amor

18 Novembro 2008, 16:58 · André Salgado

Façamos uma adivinha. Tem, desde a sua formatação, os mesmos inimigos de sempre - a sociedade em geral - e as mesmas posições de sempre - na economia em particular. Para que a esquerda portuguesa pudesse ter futuro, e sendo o maior inimigo desse futuro, era necessário sujeitar-se a uma reconfiguração.

A quem lhe ocorrer Partido Comunista Português, acertou um tiro na água. O camarada Carlos Vidal, que nos vai avisando não ter particular simpatia pelo regime democrático parlamentar, explica-nos que se trata do Partido Socialista, a quem, desde Soares, a esquerda deve o horror de não ter tido passado significativo nem qualquer hipótese de futuro.

O camarada Carlos Vidal chega tarde ao combate. Pensa com trinta e três anos de atraso. Pensa no 1º de Maio e pensa na Fonte Luminosa. Pensa - e como o compreendemos - que precisa de pedir licença à democracia para pensar. Pensa, camarada Vidal.

O Tomás Vasques explica-o, aqui, em linguagem acessível a criancinhas. As que foram e as que não foram comidas ao pequeno-almoço da história.

Nota sobre o zeitgeist

18 Novembro 2008, 16:20 · Hugo Mendes

De que é feita a coligação negativa que temos hoje na política em Portugal, que atinge na questão da educação a sua expressão máxima? É a aliança entre os que sentem, inebriados, o cheiro a PREC e os que salivam, extasiados, com a antecipação da incapacidade de um Governo (mais um!) para reformar.

Os primeiros sonham com a ebulição democrática dos “movimentos” (que encurralaram os sindicatos, acusando-os de ‘traição’, e os empurraram para um radicalismo frentista), os segundos idealizam o poder do “mercado” (o único instrumento, pensam, com força para “meter esta malta na ordem”).

O denominador comum? São todos contra o “Estado” e o “Governo”, entidades que, para os dois lados, são constituídos por incompetentes e bandidos.

Errata depois destas declarações: «São contra todos o “Estado”, o “Governo” e a “democracia liberal”, entidades que (…)»

Uma certa concepção de ‘escola pública’

18 Novembro 2008, 15:45 · Hugo Mendes

«Temos aqui uma ironia da história lancinante. A escola pública, a escola republicana sobreviveu ao Estado Novo. Pôs-se lá o professor de moral, uma certa conotação mais conservadora, mais à direita, demasiado elitista, pouco aberta, mas sobreviveu. E está a ser destruída pelo 25 de Abril».

Palavras de Saldanha Sanches, ontem na SICNotícias.  

Para ver se nos entendemos: se ‘isto’ é a ’escola pública’ - e este discurso faz parte do elogio do passado e da crítica do presente -, então enterrem-na, por favor. O enterro desta escola e deste discurso é uma absoluta prioridade. Depois podemos perder algum tempo a inventar um nome diferente para a escola que temos hoje e queremos ter no futuro.

Com todas as patetices que já ouvi sobre a ‘escola pública’ nos últimos tempos, se eu fosse de direita, estaria a rebolar a rir.

A avaliação, sim, mas pelo mercado

18 Novembro 2008, 11:25 · Hugo Mendes

No “Público” de hoje, Helena Matos tem a frontalidade de esclarecer o motivo pelo qual boa parte da direita (ou centro-direita) portuguesa é contra a avaliação dos professores em curso: é porque a única avaliação admissível é que resulta dos critério do mercado, isto é, da escolha das famílias.

«Não duvido que os professores devem ser avaliados mas o critério mais fiável de avaliação dos professores é a procura que a escola onde lecciona por parte das famílias. Mas disso, ou seja, da possibilidade de as famílias escolherem entre público e privado, graças ao cheque-ensino, ou mesmo dentro do público escolherem a escola que pretendem simplesmente porque esta pode contratar os professores que quer, funciona bem e não porque é aquela que a sua morada determina, nem a ministra nem os sindicatos querem ouvir falar.»

Pode ser que os professores que acham que Helena Matos e outros do mesmo cluster ideológico (José Manuel Fernandes, António Barreto, Vasco Pulido Valente), ao atacar o Ministério da Educação, se estão a colocar ao lado da classe docente, venham a descobrir que estão redondamente enganados.

Depois venham queixar-se do “neoliberalismo” e da “destruição da escola pública”.

Instrumentalização

17 Novembro 2008, 16:45 · Tiago Barbosa Ribeiro

Parece que alguns alunos de Viseu fizeram hoje uma manifestação por causa do «cansaço» dos professores. E até apresentaram camisolas com as inscrições «Ministra para a rua, a luta continua», revelando uma espantosa capacidade de organização sindical. Depois do poder da FENPROF ter sido diminuído no interior do Ministério da Educação, reduzindo-se o seu papel instrumental na definição de políticas de educação e não de professores, parece que os alunos estão transformados nos novos delegados sindicais. Mário Nogueira está cada vez mais surpreendente.

Solidariedade com a Islândia (3): sigur rós

14 Novembro 2008, 15:58 · Miguel Cabrita

Pretexto ideal para mais um episódio da série: depois de terem estado no Coliseu há não muito tempo, os Sigur Rós regressaram esta semana a Lisboa, ao Campo Pequeno, para apresentarem álbum novo.

Diz quem viu que foi “mais festivo” e menos hermético que no passado. A julgar pelo caminho percorrido entre os primeiros álbuns (aqui, por exemplo) e gravações mais recentes, talvez o “pós-rock” esteja à procura de outro pós- qualquer. Ou, pelo contrário, em regressão.

Uma crítica civilizacional ao modelo de avaliação de professores

14 Novembro 2008, 13:01 · Hugo Mendes

«A mim o que me preocupa é que há toda uma geração que está a ser criada de desresponsabilização, de falta de exigência e de consumismo. Nós criámos um mundo europeu, se quiser, ou um mundo ocidental, desfazado de valores virado absolutamente para o consumismo. O que interessa é ter, exibir, demonstrar. É isto. Eu se calhar fui mal criada e, portanto, habituaram-se sempre exactamente ao contrário (…) e esta política alimenta exactamente o facilitismo. »

Esta palavras não são de um qualquer alter-mundialista nem de alguém, seguramente, que “odeia os nossos valores” (como gostam alguns de dizer). Foram proferidas ontem por Paula Teixeira da Cruz na SICNotícias.

Eu já tinha ouvido muito análises e críticas ao modelo de avaliação de desempenho de professores em implementação. Inclusive de pessoas que demonstram - e alguns afirmam - não ter manifestamente passado os olhos sobre a lei, julgando que basta apanhar umas ideias soltas para fazer julgamentos políticos e pedagógicos sérios.

Mas esta crítica civilizacional relacionando o consumismo ocidental com um modelo que avalia e obriga profissionais pagos com dinheiros públicos a prestar contas à sociedade parece-me bastante original.

Não tarda e, cheira-me, teremos uma proposta alternativa do PSD assente…hmmm, na filosofia budista?

Coisinhas a lembrar

14 Novembro 2008, 12:12 · Hugo Mendes

«The task of the teacher is to serve the students with his knowledge and scientific exposure and not to imprint upon them his personal political views».

Max Weber

in “Science as a Vocation” in H.H. Gerth and C. Wright Mills (Translated and edited), From Max Weber: Essays in Sociology, pp. 129-156, New York: Oxford University Press, 1946.

O oportunismo de Humpty Dumpty

14 Novembro 2008, 10:29 · Hugo Mendes

O oportunismo de José Manuel Fernandes (JMF) é extraordinário. Hoje, em editorial do “Público”, usa, para defender um conjunto de medidas de política educativa, um artigo do economista Edward Gleaser que, tendo algumas boas ideias (e foi talvez por isso que mereceu uma chamada de atenção aqui), seriam impossíveis de aplicar em Portugal, tal como o autor o defende. Ora, o modelo da preferência de JMF, que crê ver legitimado pela prosa do autor americano, seria completamente inaplicável a Portugal neste momento - independentemente dos seus (de)méritos e (des)vantagens (que podemos discutir depois).

Isto permite a JMF fazer aquilo que tanto gosta:

(1) “JMF-o-teórico” critica políticas que vão na direcção que até julga correcta (maior autonomia relativa das escolas, maior capacidade relativa para a sua direcção gerir os seus recursos humanos, etc.) mas que é incapaz de admitir que estão a ser postas em prática (a sua obsessão com o “centralismo da 5 de Outubro” é algo intemporal, de modo que estarmos em 1908 ou 2008 é-lhe completamente indiferente para avaliar o que está politicamente em curso; o seu passado revolucionário impede-o provavelmente de perceber que a política reformista é feita de pequenas rupturas ao longo do tempo, e não de uma mudança completa do sistema).

(2) Depois, como essas medidas são impopulares junto dos professores, “JMF-o-editor” explora ao máximo o alarido produzido pela contestação que essas medidas - tímidas, segundo as políticas que JMF prefere - não podem deixar de provocar, procurando fragilizar politicamente o Ministério da Educação. Ou seja, em vez de apoiar políticas que vão - mesmo que modestamente - na direcção que julga correcta, mas que devia reconhecer a dificuldade de colocar em prática num país como o nosso, não: “JMF-o-editor” prefere apoiar implicitamente quem se coloca contra elas.

(3) Por fim, “JMF-o-teórico” regressa para defender políticas ainda mais radicais do que aquelas que, estando em implementação, causam o alarido que tanto explora no seu jornal - sabendo perfeitamente que qualquer Governo que as tentasse por em prática seria ainda mais contestado e provocaria ainda mais protestos do que aqueles em curso.

Resumindo, “JMF-o-político” propõe medidas muito mais radicais do que aquelas que “JMF-o-editor” aproveita no seu jornal, dando visibilidades aos mesmos movimentos que defendem medidas que “JMF-o-político”, se fosse coerente, consideraria ainda mais arcaicas, centralistas e reaccionárias do que aquelas propostas pela inefável “5 de Outubro”. Dado que não se compromete (abertamente) com nenhuma das partes (o que lhe dá a vantagem de poder manter-se no céu das ideias que sabe que não serão aplicadas num horizonte razoável), o oportunismo de Humpty Dumpty - que ora defende aqui uma coisa como “teórico”, ora defende ali outra coisa como “editor” - permite-lhe ter sempre razão. JMF tem a extraordinária capacidade de ultrapassar o Ministério da Educação simultaneamente pela esquerda e pela direita como não houvesse nenhuma incoerência nisso.

“E os arrogantes são os outros?”

Ferreira Leite ainda pode governar o país

13 Novembro 2008, 21:21 · André Salgado

“Se eu já as tivesse (as propostas para o país), garanto que não as anunciava. Sabe porquê? Porque até às eleições elas eram todas adoptadas por este governo socialista” - disse ontem, em Fátima.

É uma ideia brilhante. Não será fácil pôr a coisa em prática, com apenas oito ou nove meses até às eleições, e, é certo, exigiria um esforço suplementar ao governo. Mas ainda se vai a tempo. Comece desde já a dra. Ferreira Leite a debitar, a todo o vapor, o seu programa para o país.

A título de exemplo, a educação. Questionava a dra. Ferreira Leite - também ontem, em Fátima: “Não há outro modelo qualquer de avaliação? Existem outros modelos. Podem ser piores, mas existem outros modelos. Então vamos experimentar outro, se este não serve”.

Com um pouco de boa vontade, em oito ou nove meses ainda se podem experimentar uma meia dúzia de modelos. Mesmo que possam ser piores.

Tudo isto aconteceu ontem em Fátima. Que se prepare o país.

Mais claustrofobia democrática?

13 Novembro 2008, 19:38 · André Salgado

“Não pode ser a comunicação social a seleccionar aquilo que transmite”

                Manuela Ferreira Leite, ontem, em Fátima

O dr. Paulo Rangel deve estar a Lexotans.

Sim, e o Bloco?

13 Novembro 2008, 18:10 · Rui Branco

«E o Bloco?

- É uma força de mudança que reflecte bem sobre uma série de questões mas que está ainda atada ao seu passado. O problema do BE, para ser uma força com potencial de Governo, tem que ver com o percurso dos seus dirigentes. Mais do que com o seu percurso como força política ou com o seu eleitorado. E para mim há duas questões essenciais. O euro e a NATO. O que seria de Portugal no contexto desta crise se não estivesse no euro? Só que nós não podemos dizer que gostamos do euro à segunda, quarta e sexta e dizer que podemos não cumprir o PEC à terça, quinta e sábado. »

Paulo Pedroso hoje no Diário Económico

«Um ensino para pobrezinhos»

13 Novembro 2008, 11:53 · Filipe Nunes

Neste post, o Hugo começa por notar que Manuel Alegre se deixa cair «no colo de improváveis aliados, como Nuno Crato e José Manuel Fernandes». De facto, a questão da educação está revelar mais uma vez que a distinção esquerda/direita não é suficiente para se perceber muitos dos debates dos últimos quatro anos. Na administração pública, na saúde, na segurança social e, agora na educação, o debate fez-se, sim, entre uma posição conservadora (e estou a ser simpático) e uma posição reformista. Claro que na posição conservadora convergiram motivações muito diferentes: houve quem, à direita, apostasse deliberadamente no desgaste dos serviços públicos e houve quem, à esquerda, se mantivesse apenas fiel às mesmas receitas dos últimos 30 anos (independentemente dos seus resultados). Mas basta ver os diários da Assembleia da República e as respectivas votações para verificar que no essencial foi isto que se passou.

A audição de ontem à ministra da Educação foi particularmente elucidativa. Às tantas, a deputada Cecília Honório, do Bloco de Esquerda, criticou a existência de cursos profissionais e cursos de educação-formação: «é um ensino para os pobrezinhos». Pouco importa ao Bloco de Esquerda que a introdução destes cursos vá ao encontro do que se pratica noutros países europeus ou das recomendações internacionais. Pouco importa que a diversificação da oferta tenha reduzido o insucesso e o abandono escolares. Pouco importa que tenha aumentado o número de alunos em todas as vias de formação. Pouco importa que a alternativa a estes cursos seja ter os «pobrezinhos» desqualificados, no mercado trabalho ou na rua. Aquilo «é um ensino para pobrezinhos. Não foi para isto que fizemos o 25 de Abril».  

Caro André Freire,

13 Novembro 2008, 10:51 · Filipe Nunes

Ainda não consegui ler o estudo sobre a reforma do sistema eleitoral da Assembleia da República que o Grupo Parlamentar do Partido Socialista te encomendou e que aqui anuncias. A única coisa que sei (DN, 6/11) é que, a pedido do PS, abandonas os círculos uninominais (que constam de todos os programas do governo do PS desde 1995) e defendes a adopção de um sistema de voto preferencial em que um círculo nacional seria acompanhado por círculos distritais plurinominais. O PS regressaria assim à sua posição de inícios da década de 90. Este sistema, como tu próprio admites (DN, 6/11), «incentiva a competição entre candidatos do mesmo partido (porque o eleitor tanto poderá escolher o primeiro da lista como o último). Os partidos terão de ceder algum poder». Nada contra. Aliás, esse era justamente um dos méritos da introdução dos círculos uninominais de candidatura. Subsistem, no entanto, duas dúvidas que gostava que esclarecesses:

Em que medida é o voto preferencial compatível com o que estabelece a Constituição?

Nos países em que vigora este sistema, qual é percentagem de votantes que efectivamente exerce o direito de preferência?   

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