A tragédia de Gaza
28 Dezembro 2008, 0:46 · Tiago Barbosa Ribeiro
Os números brutais da escala militar em Gaza suscitam espanto, terror, tristeza. O território de onde Israel saiu voluntariamente e que entretanto se transformou na linha avançada da estratégia iraniana para o Médio Oriente, um «Hamastão» crescentemente militarizado e islamizado, é hoje uma região asfixiada. As primeiras vítimas do Hamas são os palestinianos, cuja tragédia é um salvo-conduto ideológico. Israel atacou a infra-estrutura militar do Hamas - quartéis, esquadras, rampas de lançamento de mísseis, campos de treino - e matou 300 palestinianos, na sua maioria «civis fardados», o que em si mesmo deve suscitar as maiores interrogações sobre a utilização de escudos humanos em Gaza.
Mas o resultado do ataque coloca Israel perante uma tragédia cujas proporções impedem quaisquer resultados políticos no seio da Autoridade Palestinana e da comunidade internacional, que é incomparavelmente mais crítica das intervenções israelitas do que do milicianismo integrista do Hamas e de outros movimentos-satélite do Irão. E essa vigilância crítica impõe-se, de facto, já que o escrutínio de um Estado democrático e com forças armadas convencionais não está no mesmo patamar de um movimento paramilitar. Sucede que esse movimento fustiga diariamente as populações civis israelitas com ataques militares, feitos por militares sem farda que suspenderam uma trégua contra um país cuja existência não aceitam reconhecer. A paz e o fim de um conflito com décadas implica cedência e negociação, num processo doloroso para ambas as partes. Mas desde logo são necessárias duas partes para ceder e negociar. Israel, até ver, é só uma.
:: A ler :: «Consoada em Israel, Natal em Gaza», do Rui Bebiano.
Nunca gostei de pescadinhas de rabo na boca
19 Dezembro 2008, 1:24 · Miguel Cabrita
Andamos há meses nisto.
Os sindicatos de professores não queriam a avaliação “entre pares”, por supostamente causar danos irreparáveis ao ambiente de trabalho nas escolas, entre “colegas”. Mas, ao mesmo tempo, exigem a “revisão” do Estatuto da Carreira Docente e o fim da figura do “professor titular” - essencial para que a avaliação pudesse não ser “entre pares” mas sim entre categorias hierarquicamente distintas de docentes.
Por outro lado, não estariam dispostos a aceitar uma avaliação externa, porque seria feita por entidades e profissionais estranhos às escolas - como se isto fosse algo que não é feito, e bem, em tantas organizações, mas adiante. No entanto, também não querem avaliar-se uns aos outros, chegando a ser usado o argumento de que “não foram treinados para isso” (!).
Mais recentemente, novo truque.
A primeira versão do modelo de avaliação era inaceitável porque este era excessivamente burocratizado, complexo, incomportável, inexequível. No entanto, as sucessivas propostas de simplificação e melhoria são liminarmente rejeitadas por serem “remendos”, irrelevantes, inúteis. Ou, na nova versão, tentativas de “comprar os professores”, como ouvi Mário Nogueira dizer por estes dias perante as câmaras de televisão.
A recorrente circularidade dos argumentos é um péssimo sinal da falta de lisura e de seriedade com que este debate tem sido conduzido. Há milhares e milhares de Professores que merecem, e não é de agora, o ”p” maiúsculo que se tornou moda invocar; mas, por isso mesmo, não merecem as Pescadinhas (com maiúscula também) que têm sido trazidas para a mesa em seu nome.
Pobreza, Estado e sociedade
19 Dezembro 2008, 0:54 · Miguel Cabrita
Comentando no Diário Económico o facto de as transferências sociais do Estado permitirem reduzir de 40% para 18% (mais de metade, portanto) o risco de pobreza em Portugal (já para não falar da sua severidade e persistência , o que também poderíamos discutir), João César das Neves teve esta curiosa afirmação:
“não se pode dizer que o Estado está a resolver o problema, porque está a fazê-lo com o dinheiro da sociedade. Está a substituir-se a algo que a sociedade faria normalmente” (DE, 16 Dezembro 2008, p14).
Para poder discutir tal enunciado, gostava de saber em que país do mundo é que sucede na realidade o que, no dizer de César das Neves, “a sociedade faria normalmente”.
Por exemplo: em que país com níveis de pobreza minimamente próximos dos que se verificam nos países mais desenvolvidos não é a acção do Estado responsável por uma muito significativa redução da pobreza? Ou mais rigorosamente, para levar à letra esta tese: em que país(es) do mundo é que, não tendo os poderes públicos, por incapacidade ou opção, uma acção relevante neste domínio existem níveis de pobreza comparáveis aos que resultam da acção das políticas levadas a cabo por parte do Estado (sinal de que seria, então sim, a “sociedade” a agir “normalmente” e sem ver os seus recursos absorvidos por este)?
Curioso conceito de normalidade este, puramente “normativo” e fundado no preconceito ideológico, e que parece dispensar a correspondência a casos empiricamente conhecidos.
Pode custar, mas a acção do Estado é o mais poderoso instrumento para combater a pobreza e as desigualdades, e é nos países em que as políticas públicas, e em particular as políticas sociais, são mais poderosas e eficazes nestes campos que se atingem os melhores resultados. O que faz com que esta seja uma responsabilidade indeclinável do Estado, corrigindo os desequilíbrios “normais” que resultam das dinâmicas de distribuição social de recursos e oportunidades no contexto do(s) mercado(s).
(publicado também no Outubro)
«Os portugueses têm boas razões para pensar que as desigualdades não se curam com políticas de esquerda»?
15 Dezembro 2008, 18:49 · Rui Branco
Perguntava o Nuno Lobo no outro dia.
Pois bem, os dados de hoje do INE referentes aos rendimentos de 2006 aí estão para responder.
E a resposta é não, pelo contrário, os portugueses têm boas razões para pensar que as desigualdades se curam com políticas de esquerda.
Aqui fica o sumário e o link para o documento.
«De acordo com o mesmo inquérito, o rendimento dos 20% da população com maior rendimento era 6,5 vezes o rendimento dos 20% da população com menor rendimento, observando-se uma ligeira redução face ao valor de 6,8 estimado no ano anterior. Verifica-se igualmente uma redução no Coeficiente de Gini de 38% para 37%».
Os dados disponíveis sobre a evolução das desigualdades mostram que a evolução tem sido favorável (para além dos dados S80/S20 e do índice de Gini, relembro a evolução do S90/S10, de 12,3 para os rendimentos de 2003 para 10,8 para os de 2006), embora, está claro, ainda longe do necessário (e da média europeia, que se situará em torno dos 4,5 para o indicador S80/S20). Mas a dinâmica, o sentido da evolução, é inegável e se calhar convém dizer com toda a clareza que as desigualdades de rendimento não tem aumentado em Portugal desde 2005. Pelo contrário, têm dimínuido.
O que estes e os dados da evolução do indicador S80/S20 ao longo dos últimos anos mostram são duas coisas muito claras. Primeiro, que medidas como o Rendimento Mínimo Garantido/RSI e o Complemento Solidário para Idosos têm tido um efeito positivo, ajudando a retirar os mais desfavorecidos dos desfavorecidos da pobreza absoluta, embora subsistam ainda demasiados portugueses com rendimentos abaixo da linha de água da classe média que é preciso fazer subir.
Por outro, verifica-se que a desigualdade de rendimentos revela uma elevada sensibilidade ao ciclo político. Ou seja, sempre que o PS está no governo as desigualdades baixam (de 7,4 em 1995 para 6,5 em 2001 e de 7,4 em 2003 para 6,5 em 2006), e que quando a Direita esteve no governo as desigualdades aumentaram (6,5 para 7,4). Veja-se este gráfico, que ainda não contempla os dados de hoje, mas que ilustra o argumento:

What is to be done? A médio prazo, continuar o forte investimento nas qualificações profissionais é o que melhor combate a elevada dispersão salarial. Mas, de imediato, há que apostar na contratação colectiva (daí a importância da revisão do Código do Trabalho) e numa fiscalidade mais progressiva na tributação do rendimento.
Aliás, é muito importante que a mesma indignação colectiva que se manifesta - e bem - com as desigualdades de rendimento se mantenha firme quando se trata de atacar a questão da fiscalidade. Há que construir uma coligação social forte que permita sustentar um aumento da progressividade fiscal.
Mas, e o PSD, caro Nuno Lobo? Um exemplo. O salário mínimo aumentará 6% em 2009, para 450 euros. Foi este aumento de 25 euros que Manuela Ferreira Leite considerou «roçar o nível da irresponsabilidade». O que estas hábeis e piedosas palavras mostram é a importância que o PSD de Ferreira Leite verdadeiramente atribui ao combate à pobreza e à desigualdade de rendimentos.
Como se sabe, e os dados de hoje continuam infelizmente a comprovar, em Portugal, e ao contrário de outros países, ter emprego não garante que se esteja a salvo do risco de pobreza.
Será que Ferreira Leite não percebe que a elevação do salário mínimo é determinante para a progressiva eliminação da pobreza entre aqueles com rendimentos do trabalho muito baixos? Ou será que percebe e não quer saber?
Existe uma palavra que descreve bem aqueles que afectam escândalo com os dados sobre a pobreza e a desigualdade de rendimentos, mas que depois são incapazes de apoiar as principais medidas de combate à pobreza e às desigualdades – o reforço da contratação colectiva, a fiscalidade mais progressiva na tributação do rendimento e o aumento do salário mínimo –: hipocrisia. E ainda outra: demagogia da pior.
O que fazer com os jornais que abdicam dos interesses dos leitores
10 Dezembro 2008, 17:23 · Miguel Cabrita
Lembro-me que há uns anos largos (uns quinze? talvez mais) causou escândalo e indignação que a primeira página de um tablóide (à época, salvo erro, o Correio da Manhã) fosse integralmente ocupada pelo anúncio a um detergente.
Quinze anos depois, parece passar razoavelmente despercebido, e incólume, que os dois diários “de referência” do mercado (o DN e o Público) ocupem na íntegra a capa com um anúncio a uma cadeia de supermercados. Num dos casos, o do Público, é mais do que isso: todo o jornal vem embrulhado num lençol que cobre a primeira e a última página, deixando completamente incógnito o que se esconde lá dentro. Não é, aliás, facto inédito.
Gostando mais ou menos de publicidade, aceitando que os anunciantes ousem sonhar e tirem partido das possibilidades que lhes são oferecidas, e sabendo da precária situação financeira da imprensa diária, percebe-se a conjugação de factores que leva a que este tipo de coisas seja possível. No fundo, sacrifica-se integralmente, em nome da venda de publicidade, a possibilidade de os leitores terem acesso aos conteúdos do jornal que vão comprar…antes de o fazer. Procuramos num escaparate um jornal e encontramos, antes de mais, um anúncio gigante.
No meio disto tudo, e ao fim e ao cabo, quase todos os interesses são acautelados. Menos aquele que devia ser supremo, o dos leitores; e de forma correlata o da dignidade e qualidade dos media. A única resposta possível é não comprar, pelo menos nestes dias, as publicações que não sabem e/ou não conseguem preservar, pelo menos nestas questões básicas, interesses tão fundamentais.
Todo um programa político em algumas palavras
5 Dezembro 2008, 12:12 · Hugo Mendes
Ana Benavente deu uma entrevista ao “Semanário Económico” de hoje. A dado momento, surge a pergunta:
«P: ‘Maior ataque à escola pública’ em que sentido?
R: (…) O próprio estatuto dos professores, com a questão das quotas, é completamente absurdo. Todos gostaríamos que todos os professores fossem muito bons. Dizer que numa escola só pode haver dois professores excelentes e três muito bons não é uma questão de avaliação mas sim de classificação.
P: Não é assim em toda a Função Pública?
R: Sim, mas eu acho mal (…).»
A transparência é sempre boa nestas coisas. Para Ana Benavente, todos os profissionais deviam poder ascender ao topo da carreira, sem excepção. Ana Benavente não aceita a competição, nem a hierarquia, nem o reconhecimento do mérito relativo. E parece avessa à compreensão do que são lógicas organizacionais ou constrangimentos financeiros. A partir do momento em que estes são tomados em consideração, entramos, para ela, no terreno terrível do “neo-liberalismo”.
Para Ana Benavente, a governação seria necessariamente um festim orçamental. Para usar as palavras que António Correia de Campos escreveu sobre Manuel Alegre há umas semanas, Ana Benavente «necessitaria do triplo do orçamento para governar. Assim todos seriam felizes, embora o país se projectasse na falência». Fácil, não é?
P.S. - Ana Benavente fala em “ataque à escola pública” discutindo apenas medidas relativas às questões laborais dos professores. Fiel ao seu paradigma de políticas educativas, segundo o qual quando falamos de escola pública, falamos exclusivamente de professores, Ana Benavente é incapaz de citar uma única medida tomada nesta legislatura e contribuído para melhorar (ou, for that matter, para piorar) a qualidade do ensino - exceptuando a introdução do Inglês no 1.º ciclo do ensino básico, com a qual concorda, mas na qual vê os primeiros sinais de «mercantilização» do sistema…; sobre várias medidas implementadas que apontam para o lado oposto, a que já aludi en passant aqui, nem uma palavra, naturalmente).
Stranger than (science) fiction
2 Dezembro 2008, 17:10 · Miguel Cabrita

A ciência entreabre muitas vezes horizontes estranhos, baralhando categorias supostamente bem arrumadas. No Expresso do fim-de-semana, era citado um desses exemplos: a elysia chlorotica, uma espécie animal (mais concretamente uma lesma-do-mar) é capaz de fazer a fotossíntese e sobreviver nessa base durante um ano (a sua longevidade). Como? Se bem percebo, incorporou (”apropriou-se de”) material genético de uma das espécies de que se alimenta e, quando nova, cada uma das lesmas armazena os cloroplastos das algas que come (e que permitem a fotossíntese), conseguindo depois usá-los ao longo da vida para processar energia solar suficiente.
Um outro Outubro
27 Novembro 2008, 11:40 · O País Relativo
A Fundação Res Publica apresentou ontem o seu website, um espaço de informação das suas actividades, mas também de promoção da discussão pública sobre temas que se consideram da maior relevância. Aqui, há espaço para um Fórum de debate temático e um blogue.
De momento, os temas em debate no Fórum são “Até onde deve ir o Estado na provisão de serviços públicos?” e “Qual é o papel dos partidos europeus?“. O primeiro conta com os contributos iniciais de Vital Moreira e Correia de Campos, e o segundo com contributos de José Reis Santos e Jamila Madeira. Contribuições de pessoas interessadas no debate poderão ser submetidas através da página do Fórum. O debate sobre estas temáticas estará aberto por um período de dois ou três meses, no fim do qual as contribuições iniciais serão revistas pelos autores para incorporarem as ideias que foram expostas pelos participantes.
O blogue, com o nome Outubro (não esse, mas este), conta com a participação de vários bloggers, entre os quais o Filipe Nunes, o Hugo Mendes, o João Jesus Caetano, o Miguel Cabrita e o Tiago Barbosa Ribeiro, do País Relativo.
Os blocos em Lisboa
25 Novembro 2008, 18:10 · Miguel Cabrita

O afastamento do Bloco de Esquerda face a José Sá Fernandes começou há largos meses. Começou, aliás, praticamente desde que António Costa tomou posse. Ao longo do tempo, foram dados sucessivos sinais e aproveitadas todas as ocasiões para vincar distância face ao papel que Sá Fernandes tem assumido - e bem - na coligação que garante condições mínimas de governabilidade a um projecto sólido e progressista para a cidade. Que é, ou devia ser, a questão decisiva.
O Bloco tem manifestado vontade de rejeitar à partida coligações de qualquer espécie com o PS e parece submeter Lisboa a essa regra; está no seu direito. Aceita mal que Sá Fernandes desempenhe as funções para as quais foi eleito com autonomia e espírito construtivo (e lealdade, e competência); está também no seu direito. Foi, por isso, criticando Sá Fernandes em múltiplos momentos, com razões quase sempre pouco compreensíveis (excepto talvez no caso das casas da CML) e que em regra pareceram pouco mais que pretextos para criar problemas que não deviam existir. Estando uma vez mais no seu direito, esses episódios foram revelando um desprendimento inesperado face à situação da câmara e de Lisboa.
O que se retira da escalada da guerrilha que as estruturas do BE têm movido a Sá Fernandes (e foi o Bloco que o decidiu apoiar, mais do que o contrário) é que o cálculo dos interesses estritamente partidários, com muito tacticismo e alguma falta de cultura de exercício responsável do poder à mistura, se têm sobreposto em última instância aos interesses dos lisboetas.
É, num certo sentido, positivo que haja uma clarificação de um processo que não é acidental, está a ser construído há meses. Se o Zé já não faz falta ao BE, como nota o Hugo, então o Bloco que assuma essa ruptura sem tibiezas, e de preferência sem tentar culpar outros por tal opção. Era preferível que fosse outro o caminho. Mas veremos como é que esta estratégia tão clara, a manter-se, se vai traduzir daqui para a frente e com que resultados para os equilíbrios políticos da cidade.
P.S. vale a pena ler o texto de José Sá Fernandes no Público de hoje
Lutas de ocasião II
21 Novembro 2008, 12:23 · Tiago Barbosa Ribeiro
O João Miranda considera que o modelo que eu defendo para a gestão de recursos humanos do Ministério da Educação é o modelo seguido pelas empresas privadas. Curiosamente, é o próprio que compara o modelo das escolas privadas com o modelo das escolas públicas. Sucede que o paradigma de descentralização e autonomia das escolas públicas que eu defendo articula-se com princípios de gestão e de avaliação garantidos pelo ME no âmbito de um sistema público de educação.
A avaliação dos professores deve ser feita localmente e isso nunca esteve causa. Nem a subjectividade, obviamente, associada a qualquer sistema desta natureza. Simultaneamente, em nada um registo centralizado tem implicações nos resultados da avaliação, sendo aliás bem mais neutral do que registos escola a escola. Ou então todos os outros registos, do acesso ao ensino superior às declarações de impostos, deveriam também ser fragmentados e no limite extintos. Misturar a descentralização administrativa ou até a regionalização com uma desconfiança espúria contra o Estado não passa de uma cortina ideológica em que a educação é um tema tão bom como qualquer outro desde que sirva para anular quaisquer mecanismos estatais. Compreende-se.
Porque é que Hillary perdeu
19 Novembro 2008, 15:42 · Rui Branco
Quem viu o «War Room» se calhar lembra-se dele. Howard Wolfson era o tipo alto de barba meio ruiva que aparecia de vez em quando a olhar para Carville e Stephanopoulos, de braços cruzados, às vezes com ósculos escuros, pensativo.
Nas primárias da nomeação democrata, Wolfson era o «director de comunicações» da campanha de Hillary (o Toby Ziegler, portanto). A campanha parece que correu mal, como se sabe. Abundaram as teses e as exumações, depois menos, e se calhar agora outra vez mais.
No final das primárias, Wolfson tornou-se comentador da Fox News (fair and balanced, topam?), abriu um blog no site da New Republic, e regressou a uma paixão antiga (peço desculpa pelo tom taxonómico involuntário), a música indie. E tem um blog porreiríssimo a mostrar isso mesmo, o Gotham Acme.
Há muitas teorias sobre as razões pelas quais Hillary perdeu a nomeação democrata. Uma, ele pode haver outras: Hillary teve muitos, muitos votos, mas Obama teve mais. E parce que mais delegados também. Mas, se quisermos ser mais analíticos e rigorosos, sugiro aqui esta outra, que me parece ser das melhorzinhas até agora.
Uma campanha que entre «Suddenly I See» de K T Tunstall e «You and I» de Celine Dion escolhe a Celine Dion para a música da campanha - está tudo dito (e mais duas palavrinhas: Mark Penn e mais quem o contratou e não o despediu ou não despediu a tempo).
Como Wolfson entretanto contou com piada, ele na altura previu meio a brincar que essa seria uma escolha fatídica, que seria o fim da campanha. E foi mesmo. Tudo isto é recordado no Gotham Acme, no post «Election turning points», e no New York Times:
«Brainstorming sessions ensued. The Iowa caucuses could wait — this was serious business.
Ideas were put forward: Motown, disco, ballads. I pushed K T Tunstall’s “Suddenly I See” because it seemed empowering and upbeat. It was immediately criticized. What about the singer’s use of the word “hell”?
Everyone had favorites, and every favorite had its detractors. We studied lyrics and performer biographies. We downloaded possibilities and listened. Some of us danced, while others sat and frowned.
Get Ready” by the Temptations? Too sexual. “Rhythm Nation” by Janet Jackson? What about that unfortunate wardrobe malfunction?
To break the stalemate, we sponsored an online contest for supporters and gave them options to choose from. The votes and commentaries rolled in. Celine Dion’s “You and I” was selected, a decision I jokingly predicted would signal the end of the campaign.»
Nada como abrir o melão para ver: K T Tunstall vs. Celine Dion
Manuela Ferreira Leite: famous last words
18 Novembro 2008, 17:22 · Rui Branco
[som aqui]
Alguém que ajude Manuela Ferreira Leite a terminar o seu mandato com dignidade.
O oportunismo de Humpty Dumpty
14 Novembro 2008, 10:29 · Hugo Mendes
O oportunismo de José Manuel Fernandes (JMF) é extraordinário. Hoje, em editorial do “Público”, usa, para defender um conjunto de medidas de política educativa, um artigo do economista Edward Gleaser que, tendo algumas boas ideias (e foi talvez por isso que mereceu uma chamada de atenção aqui), seriam impossíveis de aplicar em Portugal, tal como o autor o defende. Ora, o modelo da preferência de JMF, que crê ver legitimado pela prosa do autor americano, seria completamente inaplicável a Portugal neste momento - independentemente dos seus (de)méritos e (des)vantagens (que podemos discutir depois).
Isto permite a JMF fazer aquilo que tanto gosta:
(1) “JMF-o-teórico” critica políticas que vão na direcção que até julga correcta (maior autonomia relativa das escolas, maior capacidade relativa para a sua direcção gerir os seus recursos humanos, etc.) mas que é incapaz de admitir que estão a ser postas em prática (a sua obsessão com o “centralismo da 5 de Outubro” é algo intemporal, de modo que estarmos em 1908 ou 2008 é-lhe completamente indiferente para avaliar o que está politicamente em curso; o seu passado revolucionário impede-o provavelmente de perceber que a política reformista é feita de pequenas rupturas ao longo do tempo, e não de uma mudança completa do sistema).
(2) Depois, como essas medidas são impopulares junto dos professores, “JMF-o-editor” explora ao máximo o alarido produzido pela contestação que essas medidas - tímidas, segundo as políticas que JMF prefere - não podem deixar de provocar, procurando fragilizar politicamente o Ministério da Educação. Ou seja, em vez de apoiar políticas que vão - mesmo que modestamente - na direcção que julga correcta, mas que devia reconhecer a dificuldade de colocar em prática num país como o nosso, não: “JMF-o-editor” prefere apoiar implicitamente quem se coloca contra elas.
(3) Por fim, “JMF-o-teórico” regressa para defender políticas ainda mais radicais do que aquelas que, estando em implementação, causam o alarido que tanto explora no seu jornal - sabendo perfeitamente que qualquer Governo que as tentasse por em prática seria ainda mais contestado e provocaria ainda mais protestos do que aqueles em curso.
Resumindo, “JMF-o-político” propõe medidas muito mais radicais do que aquelas que “JMF-o-editor” aproveita no seu jornal, dando visibilidades aos mesmos movimentos que defendem medidas que “JMF-o-político”, se fosse coerente, consideraria ainda mais arcaicas, centralistas e reaccionárias do que aquelas propostas pela inefável “5 de Outubro”. Dado que não se compromete (abertamente) com nenhuma das partes (o que lhe dá a vantagem de poder manter-se no céu das ideias que sabe que não serão aplicadas num horizonte razoável), o oportunismo de Humpty Dumpty - que ora defende aqui uma coisa como “teórico”, ora defende ali outra coisa como “editor” - permite-lhe ter sempre razão. JMF tem a extraordinária capacidade de ultrapassar o Ministério da Educação simultaneamente pela esquerda e pela direita como não houvesse nenhuma incoerência nisso.
“E os arrogantes são os outros?”
Lições de Manuela Ferreira Leite a Manuela Ferreira Leite
10 Novembro 2008, 2:19 · Hugo Mendes
«P: As reformas que na altura entendeu por bem promover depararam com que tipo de dificuldades?
R: As dificuldades concentraram-se na falta de consciência de muitos dos intervenientes para a urgência e dimensão das mudanças que era necessário empreender, bem como no escasso tempo político em que foi possível iniciá-las. Em matéria de educação, o tempo que se perde é irrecuperável e esse sentimento transmite uma grande ansiedade aos seus responsáveis».
Estas são palavras de Manuela Ferreira Leite em entrevista publicada no livro 1962-2005. Quatro Décadas de Educação, editado este ano pela Secretaria-Geral do Ministério da Educação (ver páginas 247-9).
O leitor pode comparar a sensatez, a reflexividade e a capacidade de análise da ex-Ministra da Educação com o populismo, a irresponsabilidade e o oportunismo da líder partidária.
O falso poder do voto
7 Novembro 2008, 10:50 · Mariana Trigo Pereira
A eleição de Obama conduz-nos a um outro tema de reflexão.
Como é que os candidatos a candidatos se tornam candidatos em Portugal? Que mecanismos democráticos suportam as várias escolhas partidárias? Poderia um ‘Obama’ chegar a um boletim de voto em Portugal?
Obama foi eleito porque nos EUA o sistema democrático está montado de modo a atribuir um poder decisório superior aos cidadãos do que às elites políticas, contrariamente ao que acontece em Portugal. Um candidato a candidato consegue partir de uma situação de desvantagem no partido, com fracos apoios internos e construir-se como candidato através do voto dos cidadãos que exprime confiança e lhe atribui legitimidade, convencendo as próprias elites políticas. É o voto dos cidadãos que oferece ao candidato espaço de acção, tempo mediático ou, por outra, oportunidade de se construir, de mostrar quem é e de apresentar o seu projecto para o país. Os cidadãos participam na avaliação e no julgamento, desempenhando um papel determinante na escolha do candidato do partido.
Em Portugal, salta-se este passo. Poupa-se dinheiro, tempo e energia mas acho que se perde muita coisa. Quando os cidadãos são chamados a participar através do voto não lhes é oferecido um ‘menu completo’, apenas alguns, escassos, ‘pratos do dia’. Às vezes confia-se na escolha do ‘chefe’, outras vezes, em situações mais excepcionais, o eleitor alegra-se com a perfeita coincidência entre as escolhas dos outros e a suas vontades - Ahh, Rosbife! Era mesmo o que me apetecia.

Os cínicos têm sempre razão
6 Novembro 2008, 13:44 · Hugo Mendes
António Barreto escreve hoje no “Público” sobre Barack Obama:
Gostava de saber como é que António Barreto (e todos os que pensam como ele) acha(m) que o “mundo inteiro” deposita em Obama «esperanças ilimitadas». Isto é um completo non-sense que, repetido até à exaustão, mostra a incapacidade para perceber o que está em causa.
E o que está em causa talvez seja apenas isto: dado que ninguém acreditava que George W.Bush tivesse vontade e competência para resolver praticamente nenhum destes problemas, o facto de aparecer alguém que inspire alguma confiança e que indique que alguns deles possam começar a ser tackled é, só por si, visto como extraordinário. Isto advém menos do suposto messianismo de Obama (para os cínicos, quem aparece com uma mensagem de esperança é sempre um “messias”, já sabemos) do que do completo descrédito em que caiu a administração Bush que, no que toca a uma série de problemas acima listados, não resolveu uns, agravou outros, e negou a existência de outros tantos.
Resumindo: para Barreto e outros, o problema não o legado desastroso da administração Republicana; o problema mesmo é o facto de Obama se propor identificar e a procurar ajudar/começar a resolver uns quantos problemas domésticos e internacionais. Isso sim, é que é digno de chacota. É preciso ter lata.
Aditamento: no editorial do mesmo jornal, José Manuel Fernandes afirma que «Agora falta provar que essa vontade que move montanhas é suficiente para remover todos os obstáculos que a América tem pela frente». Desculpem, mas: «todos os obstáculos»? Isto não é apenas completamente irrazoável (Obama, como pessoa de bom senso, nunca propôs tal coisa), como é uma estratégia desonesta para avaliar um político, colocando sob os seus ombros o fardo de um perfeccionismo “de palha” que torna a tarefa do crítico demasiado fácil. Se as pessoas votassem apenas em políticos que promotessem resolver todos os problemas, a política - enquanto acção imperfeita num mundo complexo - deixava de fazer sentido. Coisa que, imagino, deixasse muitos satisfeitos.
Onda azul
5 Novembro 2008, 13:43 · João Jesus Caetano
A vitória de Barack Obama nas presidenciais foi acompanhada por uma nova configuração do Senado e da Câmara dos Representantes. Durante os próximos dois anos, espera-se dos 56 senadores (em 100) e 250 representantes (em 435) democratas um apoio claro às políticas estruturantes de Barack Obama - na energia, na saúde, na educação, na regulação do sistema financeiro, na dinamização do tecido micro-empresarial e no campo fiscal - para além das escolhas para o topo do sistema judicial.
Este novo mapa político começou a ser construído há pouco mais dois anos, quando durante a campanha para as eleições intercalares do Congresso, Howard Dean decidiu que o partido Democrata deveria apoiar inequivocamente (leia-se injectando dólares) candidatos em círculos outrora considerados bastiões republicanos. Esta maior amplitude e incidência geográfica do campo de campanha democrata, associada ao prolongamento das primárias, permitiu construir e motivar uma base de apoio a Barack Obama e a muitos dos democratas ontem a sufrágio.
Não é por acaso que Colorado, Virgínia e Carolina do Norte, os dois últimos tradicionalmente mais republicanos do que o primeiro, votaram com Obama e com os candidatos democratas ao Senado. Noutros estados de um sul mais profundo ou circundantes das Rockies, onde o determinismo demográfico é mais claro, Obama não venceu, mas o partido Democrata conquistou importantes distritos congressionais.
Daqui a dois anos, voltam a ser escolhidos os 435 representantes e um terço dos senadores. Neste momento, a coesão parece evidente, mas há riscos associados; cabe a Obama gerir e coordenar as expectativas desta alargada base legislativa de apoio.
Live blogging
3 Novembro 2008, 18:32 · O País Relativo
Amanhã, o Hugo Mendes e o João Jesus Caetano vão juntar-se a outros bloggers na redação do Portugal Diário para uma maratona de posts e comentários sobre as eleições norte-americanas. Acompanhe no blogue d’O País Relativo e no site especialmente dedicado do Portugal Diário.
Bloggers convidados:
Paulo Querido: Site de Paulo Querido
Nuno Gouveia: Política 2008
Miguel Morgado e Fernando C. Gabriel: Blog do Atlântico
Bruno Garschagen e André Abrantes Amaral: O Insurgente
Luís Rainha e Nuno Ramos de Almeida: 5 Dias
João Jesus Caetano e Hugo Mendes: O País Relativo
Via Nova e Terceira Via
29 Outubro 2008, 12:57 · Filipe Nunes
Citando de Gaulle, Manuel Alegre reconhece que comete por vezes o erro de ter razão antes de tempo. Voltou, aliás, a cometer esse erro na moção “Falar é preciso”, apresentada ao Congresso do PS em 1999.
Dizia então Alegre: «A crise financeira (…) pode minar, de um momento para o outro, pela incerteza e pela volatilidade, o próprio funcionamento dos maiores centros financeiros do mundo. A ‘mão invisível’ falhou. (…) Temos de continuar a exigir uma reforma das instituições internacionais, do FMI ao Banco Mundial, para que deixem de ser arautos e agentes do pensamento único. Outra lógica terá de presidir à Organização Mundial do Comércio, para que a livre circulação de mercadorias não se torne em mais um instrumento de enfraquecimento das economias mais frágeis. É preciso regular os mercados financeiros mundiais (…).»
É, de facto, extraordinário. Assim de repente, só encontro tamanha presciência no capítulo de um livro escrito um ano antes dessa referência que é a moção “Falar é preciso”: «Crises, erratic fluctuations, the sudden rush of capital into and out of particular countries and regions – these are not marginal but core features of untamed markets. The regulation of financial markets is the single most pressing issue in the world economy (…) The needs are (…) to create greater accountability within the transnational organizations involved in world economic management, as well as restructure them. The idea that controlling the free mobility of capital produces losses of efficiency takes no account of the social and economic costs of crises. »
O livro intitula-se «The Third Way», o capítulo «Market fundamentalism on a world scale» (pp. 147-153) e o autor chama-se Anthony Giddens, esse mesmo: «o ideólogo da terceira via neoliberal».
Ainda o Alves dos Reis das Finanças e Economia
24 Outubro 2008, 21:00 · André Salgado
Entendeu o PSD por bem habilitar o dr. Miguel Frasquilho como porta-voz para explicar ao partido e ao país, através de uma análise devastadora, a situação trágica a que a governação de Sócrates conduziu a economia nacional. Perante a galvanização proporcionada por análise tão devastadora, até disponibilizou gentilmente imagens que demonstram o horror:
Não obstante a clareza e a frontalidade que caracterizam o dr. Frasquilho, convém honrar alguma memória. Já nem se leva a mal a inexistência de qualquer referência à crisezinha internacional no enquadramento das previsões para 2009. Como sabemos, não existe qualquer crise a pôr as economias europeias a crescer pouco, zero ou em recessão. É apenas uma invenção do governo, não se compreendendo como não pode estar o país a crescer milhões. Milhares de milhões. Mas, e é importante que isto se diga, não belisca a honestidade e a clareza do dr. Frasquilho. Apenas não havia mais espaço na tabela. Adiante.
O que mais intriga na tabela do dr. Frasquilho é que terrível desgraça terá acontecido a Portugal no 1º trimestre de 2005. Porque agora assim de repente, puxando um pouco pela memória, o actual governo não tomou posse no final de 2004, não é verdade? É que quando o actual governo tomou posse, o défice não era 3.4, pois não? Assim como a taxa de desemprego não estava em 6.7, mas um pouco mais upa, upa, em 7.5. Deve ter sido um trimestre tramado.
Também é pena não haver mais espaço na tabela do dr. Frasquilho, ou poderiam ser colocadas umas colunas com os títulos 2002 e 2003. Só pela mania da comparação. O dr. Frasquilho poderia, então, prestar o serviço público de explicar como o PIB cresceu 0.4 em 2002 e como o PIB cresceu regrediu 1.1 em 2003. Curiosamente um período, conhecido por uma avassaladora crise internacional, em que o dr. Frasquilho foi Secretário de Estado do Tesouro e Finanças. Não que se esteja a imputar responsabilidades pelos maus resultados ao dr. Frasquilho. Seria uma injustiça culpar o dr. Frasquilho de todos os males do mundo. Afinal, era apenas um modesto funcionário que trabalhava para uma chefia, que dava pelo nome de dra. Ferreira Leite.
Poderia também o dr. Frasquilho prestar o adicional serviço público, com a clareza e a frontalidade que o caracterizam, de explicar as razões da população desempregada ter evoluído de 238.4 milhares no primeiro trimestre de 2002, para 412.6 milhares no primeiro trimestre de 2005, quando o governo a que o dr. Frasquilho pertenceu entregou a encomenda. Enquanto no mesmo período, a população empregada evoluiu regrediu de 5106.6 para 5094.4 milhares. Mas seria injusto voltar a chamar o dr. Frasquilho à pedra por qualquer responsabilidade partilhada. Até porque não é o governo que cria empregados, não é verdade? Alguma coisa deve ter corrido mal, mas não foi o governo do dr. Frasquilho, há que dizer isto com clareza e frontalidade.
Eu ainda me lembro do jogo de computador que Powell apresentou na ONU
24 Outubro 2008, 11:24 · Rui Branco
Hoje os jornais dizem que o apoio de Powell a Obama parece estar a ser decisivo para ajudar alguma parte dos indecisos (2 em 10, segundo sondagem citada pelo Público) a votar em Obama. Pois.
Em 6 de Fevereiro de 2003, Colin Powell falou na ONU, apresentando o caso a favor da invasão do Iraque. Eu ainda me lembro dos powerpoints e dos videos sobre os supostos comboios que transportavam e escondiam armas de destruição massiva. Entre outras coisas, Powell afirmou:
Argumentam: dá-nos jeito o apoio dele. E eu disputo a premissa desta resposta (que o seu apoio seja susceptivel de «nos» dar jeito). O facto de poder ser agora muito útil para ajudar Obama a ganhar não nos deve fazer de conta que não nos lembramos disto: a bad Pixar movie (com a devida vénia). Porque um dos princípios cruciais da autoridade política da campanha de Obama, para dentro e fora do Partido Democrata, foi a posição correcta e presciente, no conteúdo e no momento, sobre a Guerra do Iraque, apesar das manipulações e mentiras de pessoas como Colin Powell. Diga-se a banalidade evidente: Colin Powell foi protagonista, responsável e um dos instrumentos de uma mal amanhada mentira. E portanto, os termos encomiásticos com que o próprio Obama aceitou o apoio, parecem minar, corroer, a sua própria autoridade (quanto mais Powell vir a aceitar um lugar no Governo, que antes dele aceitar tem que lhe ser oferecido). Ou, para pedir emprestada a frase de hoje de Vasco Pulido Valente sobre Ferreira Leite e Santana, a Obama não ocorreu que o beneplácito a Powell é um acto simbólico que o desautoriza a ele e compromete os próprios princípios da sua candidatura à presidência.
Os números da segurança social (ou as notícias e os seus títulos)
22 Outubro 2008, 1:45 · Miguel Cabrita
É compreensível que o desempenho dos fundos da segurança social, dada a dimensão que têm mas sobretudo dada a sua natureza (provenientes de contribuições e geridos publicamente) e a função a que se destinam (garantia de pensões no longo prazo), seja objecto de um escrutínio atento por parte dos media e da opinião pública em geral. Compreensível, legítimo e, aliás, desejável.
Não espanta por isso que, em tempos de forte turbulência financeira, a evolução do Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social (FEFSS) ao longo deste ano ganhe atenção redobrada. E que, como sucede no Público de ontem, vá até ao destaque de primeira página. Até aqui tudo bem. Pena é que esse destaque seja feito em termos no mínimo equívocos. E que transforme a verdadeira notícia numa parangona de alarme completamente injustificado.
Analisando com exactidão os números, o que se verifica é que as perdas de perto de 200 milhões de euros que o jornal calcula e usa como título principal sucedem num total de…8250 milhões de euros. Sim, 8250 milhões. Se um gigante fizer um arranhão num dedo, sangra mais que um insecto esmagado: é uma questão de escala que não é muito difícil de perceber. Afinal, é para estas coisas que serve a análise em números relativos e não em absolutos.
Ora, como João Ramos de Almeida mostra na sua peça, recorrendo aos dados do Instituto de Gestão Financeira da Segurança Social, os garrafais 200 milhões de euros de perdas correspondem, na verdade, a uma das performances de topo no mercado de “produtos” comparáveis. E especialmente face à esmagadora maioria das dezenas de fundos privados de reforma, como aliás tem sucedido, ano após ano, desde que foi criado.
Acresce que o FEFSS tem uma perspectiva de longo prazo, e a sua rentabilidade é pensada numa lógica que nem deveria ser medida por um intervalo de meses. Quem se der ao trabalho de analisar a performance global do fundo desde que foi criado percebe que esta continua, claramente, no positivo e, claramente também, com rentabilidades acima da média.
Acresce que o FEFSS português, que tem - e bem - apenas cerca de 20% da carteira investida em acções, tem tido uma performance bem mais favorável que fundos dos sistemas públicos de outros países (alguns, com os sistemas de segurança social mais avançados, chegam a ter mais de 50% da carteira em acções). O longo prazo aconselha, pois, à prudência e a não depender dos segmentos dos mercados de capitais com níveis mais significativos de risco, como agora se prova.
Acresce ainda que, para não ir mais longe, o PSI20 perdeu várias dezenas de pontos percentuais ao longo deste ano, qualquer que seja o ãngulo de análise: 33,2% entre o fim de Setembro de 2007 e de 2008; 38,3% se considerarmos apenas a evolução entre 1 de Janeiro 2008 e o fim de Setembro. E as notícias de Outubro estão longe de ser boas: entre 31 de Dezembro (13019) e 21 de Outubro (6706.84) as perdas vão em cerca de 50,5%.
Em igual período, até final de Setembro, o FEFSS perdeu…3,14%. E vários outros fundos comparáveis perderam perto dos 10%.
Como salienta Ramos de Almeida - no título separador de dois segmentos do seu texto - este resultado é uma “agradável surpresa” para o escrutínio público. Não será esta a notícia?
Análise descritiva das desigualdades sociais
21 Outubro 2008, 12:45 · Mariana Trigo Pereira
Talvez em vez de nos contarem aquilo que já sabemos, seria mais útil e produtivo que os estudos se centrassem em dois aspectos fundamentais: análise do que foi feito ao nível de políticas e apresentação de medidas concretas e ferramentas (fiscais e outras) ao dispor dos Estados para inverter estas tendências, incluindo apresentação de casos e factores de sucesso e boas práticas.
Por vezes há estudos que focam alguns destes aspectos (o recém-divulgado estudo da OCDE faz referência a ‘lições adquiridas’ e ‘factores que impulsionaram a mudança’) mas a comunicação social opta sempre por destacar os números sonantes, usando os habituais superlativos relativos.

A tempestade e o 1.º dia
20 Outubro 2008, 15:09 · Mariana Vieira da Silva
Pode parecer muito cedo para pensar no pós-crise, tendo em conta que ninguém ainda garante que os bail-out plans aprovados pelo mundo fora resultem e que ainda ninguém antecipa com precisão os efeitos desta crise financeira na economia real. No entanto, uma coisa parece certa: a crise passará e muitos dos que hoje se convertem em críticos do capitalismo, apressar-se-ão, quando a tempestade passar, a dizer que o defenderam desde pequeninos.
Aquilo que o Economist faz no número desta semana é, como escreve o João Galamba, exemplar do que está errado com os argumentos mais liberais sobre a actual crise. Que não, que os princípios do capitalismo não estão em causa; que não, que não foi falta de intervenção do Estado, como se prova - argumentam - com a intervenção sobre as agêcias Fannie Mae e Freddie Mac; que não, que não podemos limitar o que pagamos aos gestores de topo. Esta crise é, no fundo, um acidente de percurso com que temos de aprender, mesmo que nos recusemos a pôr em causa qualquer uma das premissas.
Este tema de capa do Economist é, assim, a prova de que não é cedo demais para pensar no dia seguinte. É agora, e não depois, que devemos pensar no que falhou e em que medida é que uma parte deste falhanço é da responsabilidade do (s) Estado (s) (na sua presença, mas principalmente na sua ausência). E é agora, e não depois, que devemos pensar que instrumentos reais tem o Estado para regular: que poderes, mas também que informação, que pessoas e quão qualificadas, que instituições e que aspectos regular até que ponto. Para que o Estado relativamente pequeno que se foi construíndo possa ter a capacidade de resolver (de preferência, preventivamente e na lógica normal do sistema) grandes problemas.
Azul escuro
20 Outubro 2008, 8:06 · João Jesus Caetano
[esquerda: 2004; direita: 2008]
Por esta altura, em 2004, John Kerry tinha uma ligeira vantagem sobre George W. Bush na previsão de grande-eleitores do colégio eleitoral (284-247). Duas semanas depois, Bush acabaria por vencer 286-252.
Actualmente, as projecções do sítio electoral-vote dão uma vantagem de 193 grande-eleitores a Barack Obama (364-171-3). Mas mais impressionante, é que ela assenta numa plataforma alargada de estados praticamente garantidos na coluna de Obama: compare-se o mapa da projecção de 2004 (esquerda), com o de agora (direita).
Outro elemento interessante é que Obama acabará por perder nos estados do sul, excepto talvez na Carolina do Norte que de sul tem cada vez menos (o maior parque tecnológico dos EUA está lá, mesmo no seu centro geográfico). Quem durante as primárias andou a justificar a maior elegibilidade de Obama pelas vitórias sobre Clinton no sul republicano, esqueceu-se da marca demográfica destes estados. A vitória democrata acabará por ser garantida, isso sim, pelos mesmos battleground states dos últimos anos: Colorado, Florida, Iowa, Ohio, Minnesota, Missouri, Nevada, Novo México, Pennsylvania, Wisconsin. It’s the economy again, stupid!
Agora mais a sério
16 Outubro 2008, 15:11 · Hugo Mendes
O André Abrantes Amaral respondeu ao(s) meu(s) comentário(s). Eu não discuto que a crise é parcialmente explicada por alguns dos mecanismos que o André cita. Não o fiz no post de ontem nem o faço agora. Limito-me a dizer que isso não explica tudo, e que há o problema da demissão regulatória e da anarquia (fabricada, produzida, incentivada) dos mercados e dos operadores financeiros que ele omite completamente. Mas adiante.
O André, porém, não toca no que está nos bastidores da discussão – que são também as suas fundações.
Não há, da sua parte, sinal do reconhecimento que o “modelo americano” tantas vezes elogiado pelos Atlânticos contra os “velhos e esclerosados europeus”, aparentemente, não existe – era, parece, uma espécie de bolha, de mentira, ou de artifício.
Não há reconhecimento que, afinal de contas, o processo iniciado por Reagan de destruição da “América industrial” – ou seja, destruição dos sindicatos e consequente aumento das desigualdades - deixou o país sem capacidade exportadora, a consumir aquilo que não produz, e refém de um sector financeiro onde, até McCain admite, reina o mais puro greed e onde vale quase tudo.
Não há o reconhecimento que taxas de juro baixas e crédito fácil constituem a “galinha de ovos de ouro” do sector financeiro a quem tudo passou a ser permitido. Acabe-se com as primeiras e eu queria ver o que aconteceria ao segundo (daí o tal oportunismo “neo-liberal” deste tipo de críticas).
Não há o reconhecimento do facto de que a classe média e a classe trabalhadora americana, apesar do brutal aumento de produtividade que a economia americana registou nas ultimas décadas, têm ficado com uma ínfima parte desses ganhos, e que, por isso, para continuar a consumir o que a sociedade de consumo impõe, gastam o que não têm.
Sobre isto, nem uma palavra. Mas isto, afinal de contas, é o fundamental.
Em directo da economia real
15 Outubro 2008, 9:57 · João Pinto e Castro
Nos EUA, a taxa de desemprego pulou dos 4,5% para os 6,1%. Depois do imobiliário, afunda-se a indústria automóvel. As ramificações destes dois sectores asseguram o alastramento da recessão a toda a economia.
No entanto, todos os sábios absentistas proclamam a firme intenção de impedir que a crise passe da esfera financeira para a esfera real.
Em directo da economia real que habito posso assegurar-lhes que, também por cá, está tudo a parar em virtude do adiamento generalizado dos projectos de investimento. As estatísticas haverão de comprová-lo mais tarde, mas não vale a pena aguardar pelo óbvio.
Reduzir marginalmente o IRC sobre lucros inexistentes ou distribuir esmolas avulsas pelos mais pobres não resolve o problema.
Do que se necessita é de investimento público de emergência em projectos de indiscutível interesse social e que possam ser executados a curto e médio prazo, de preferência com um grande envolvimento das autarquias.
Tanto quanto consigo entender, o governo português não se propõe aproveitar da melhor maneira a folga orçamental que resolveu conceder a si próprio. Talvez a União Europeia venha em nosso socorro, desta vez não com dinheiro, mas com a recomendação de políticas económicas mais perspicazes, provavelmente na linha das sugestões adiantadas há dias pelo Presidente do FMI.
It’s the emotions, stupid!
13 Outubro 2008, 18:57 · Filipe Nunes

Há quem seja a favor e há quem seja contra, mas numa coisa a generalidade das opiniões publicadas convergem: neste momento, o tema do casamento entre pessoas do mesmo sexo não interessa a ninguém. Marques Mendes, por exemplo, apesar de ter perdido o partido para Luís Filipe Menezes, não teve dúvidas em aproveitar o lançamento do seu livro para dar lições de estratégia política e garantir que o assunto «não corresponde às expectativas nem às preocupações dos portugueses».
Perante estas certezas todas, lembrei-me do livro de Drew Westen, cuja capa ilustra o post. É evidente que num inquérito de opinião ninguém vai, conscientemente, dar mais relevância aos direitos das minorias sexuais do que ao Serviço Nacional de Saúde. Mas depois, em casa e no emprego, é a primeira questão, e não a segunda, que motiva a discussão. As emoções, as avaliações de carácter e as clivagens culturais muitas vezes não aparecem nas listas de prioridades das sondagens, mas contam bastante na vida das pessoas e são determinantes no momento do voto. Desprezar esta dimensão da política pode ser um erro. Um erro que, aliás, os democratas americanos cometeram sucessivas vezes nos últimos anos, como mostra Westen nesse livro: entre 1980 e 2004, talvez com a excepção de Clinton (que ganhou muito à custa da divisão do campo conservador), as campanhas do partido democrata assentaram em mensagens positivas, discursos fragmentados para agradar a todos e listas intermináveis de medidas concretas, que iam ao encontro do que diziam as sondagens e os «focus groups». Durante esse período, o campo republicano, pelo contrário, fez ataques que ficaram sem resposta, concentrou-se numa história de cada vez e mostrou posições claras em matéria de valores. Apesar de toda a racionalidade das campanhas democratas, a emotividade das campanhas republicanas prevaleceu no momento do voto. Só mesmo o papel da emoção pode explicar o persistente fenómeno dos «Reagan Democrats» ou, mais recentemente, a vitória de Obama (o homem que tinha uma história para contar) sobre Hillary (a mulher competente que sabia quanto custava cada medida). E só isso pode explicar que, apesar de tudo e mais alguma coisa (Katrina, guerras perdidas, economia de rastos), ainda persistam algumas incertezas quanto ao desfecho das presidenciais do próximo dia 4 de Novembro.
Isto é lindo! - Krugman é Nobel da Economia
13 Outubro 2008, 12:20 · João Jesus Caetano
Paul Krugman é o Nobel da Economia 2008: «for his analysis of trade patterns and location of economic activity»

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Etnógrafos de todo o mundo, não desesperem
11 Outubro 2008, 18:32 · Hugo Mendes
No micro-cosmos dos cientistas sociais, a guerra entre os ‘quantitavistas’, maníacos das bases de dados, e os ‘qualitativistas’, doentes da observação etnográfica, é um daqueles conflitos insanáveis. Quando a polémica roça o insulto, os primeiros acusam os segundos de se perderem a estudar objectos que não interessam a ninguém com um detalhe capaz de aborrecer qualquer criança hiperactiva, enquanto os segundos acusam os primeiros de se terem vendido à big science, às encomendas estatais, e às agendas - e cheques - do sector privado.
Agora, o “grande capital” mostra que afinal os etnógrafos têm afinal um valor de mercado. Assim, as mais-valias da etnografia - a atenção à observação e ao detalhe, ou à “cognição situada” e “distribuída”, para usar linguagem mais técnica - esão a ser usadas pela Intel para ajudar a melhorar as características do ’Magalhães’: “Temos uma equipa de etnógrafos que estuda a forma como os estudantes usam a tecnologia (ser antichoque, teclado resistente a líquidos)”.






