O delírio de Louçã

5 Setembro 2009, 20:29 · João Jesus Caetano

Francisco Louçã, professor catedrático de economia e dirigente do Bloco de Esquerda, afirmou recentemente que há “630 mil desempregados em Portugal”.

Ora, Francisco Louçã, o catedrático de economia, sabe que só há duas formas de “medir” o desemprego em Portugal: uma é a estimativa trimestral do INE, um organismo independente, que resulta de metodologias validadas internacionalmente; a outra é o número de desempregados registados no final de cada mês nos centros de emprego do IEFP, um organismo tutelado pelo ministério do trabalho e da segurança social, que resulta de metodologias validadas pelo seu conselho de administração do qual faz parte, por exemplo, a CGTP.

Os últimos números disponíveis, de um e outro organismo, apontam para quase 508 mil desempregados ao longo do segundo trimestre deste ano (INE) e para 497 mil desempregados registados no final de Julho de 2009 (IEFP).

Teria então Francisco Louçã, o catedrático de economia, desenvolvido um modelo econométrico sofisticado, e Francisco Louçã, o dirigente do Bloco de Esquerda, lido-o? Não. O que aconteceu foi que Francisco Louçã, o dirigente do Bloco de Esquerda, referiu o valor de uma estimativa feita por um deputado do PCP que o Correio da Manhã destacou esta semana. Estimativa essa, estou certo, que Francisco Louçã, o catedrático de economia, não validaria.

Os Miseráveis

2 Setembro 2009, 19:37 · André Salgado

É certinho como o destino. Sempre que o número de desempregados não atinge o nível de satisfação adequado ao combate político, desabrocham os estudos do economista* Eugénio Rosa, com a cumplicidade de quem morde o isco, a anunciar a marosca: há muito mais desempregados, que são escondidos pelos números oficiais. Malandros. O argumento não é novo, como não é nova a ligeireza política e técnica de onde vem. E é descascável com a mesma facilidade com que o dr. Eugénio Rosa produz estudos. Antes de mais, convém referir, os números oficiais - que são apurados pelo Instituto Nacional de Estatística, organismo independente, e não pelo governo, como é sempre útil relembrar - não escondem falsos empregados ou desempregados subtraídos aos números. As categorias que classificam a população que não é considerada desempregada constam dos inquéritos ao mercado de emprego e são numericamente publicadas e verificáveis. Segundo, como o sabe qualquer economista amador atento aos estudos do mercado de trabalho, os critérios pelos quais se regem os inquéritos do INE para apurar o desemprego oficial obedecem a um Regulamento Comunitário, ou seja, são idênticos em todos os países da União Europeia. Não existe um desemprego malandrinho e manipulado em Portugal. Existe um desemprego oficial apurado, com os mesmos critérios e a mesma seriedade técnica, em Portugal e na União Europeia. Finalmente, estes critérios, que obedecem a uma harmonização comunitária, são os mesmos em 2009, como em 2008, em 2007, em 2006, em 2005, em 2004, em 2003… bem, até o dr. Eugénio Rosa deve estar a ver a ideia. Nada de novo, portanto.

Nada de novo, também, na estratégia e na grelha mental, não estivessemos em ciclo eleitoral e na urgência de arremessar o que for possível. Afinal, ensina-nos a boa herança comunista, todos somos poucos e somos nada para cumprir a revolução. E se para esta se cumprir forem necessários sacrifícios e satisfação por mais um desempregado a servir de adubo para a sementeira da revolução, vão ver, camaradas, mais houvesse para o porvir colectivo. Por cada mártir que caia com fome, um estudo do dr. Eugénio Rosa se levantará. A miséria alimenta-se e há muitas formas de miséria humana. Até a miséria intelectual.

*Economista do gabinete de estudos da CGTP e deputado ocasional do PCP

Isto vai (e já está a) ser assim (III)

27 Agosto 2009, 19:11 · André Salgado

Crescimento económico

13 Agosto 2009, 16:36 · Miguel Cabrita

Os dados hoje revelados pelo INE mostram que, se em termos homólogos há ainda (como seria inevitável) uma variação negativa da economia, em relação ao 1º trimestre de 2009 há  uma evolução positiva da actividade económica de 0,3%. É pouco, mas estamos de novo em terreno positivo; e acima de tudo é um dado inesperado, muito melhor do que o previsto, como aliás o próprio Público reconhece. Não sendo prudente desvalorizar a situação complexa que ainda se vive a vários níveis na economia (por exemplo, na evolução dos preços) e no emprego, esta informação contraria todas as previsões e acaba com a situação de recessão técnica muito mais cedo do que o esperado.

Resta saber o tipo de tratamento que será dado a esta verdadeira notícia. Por exemplo, há uns dias o Público fazia na primeira página grande destaque dos indícios de melhoria dos indicadores económicos internacionais, salientando que Portugal estava “atrasado” em relação a outros países. O rigor informativo era tal que no interior do jornal tínhamos até direito a gráficos para demonstrar tal tese - esquecendo o “analista”, apenas, o pequeno pormenor (aliás, bem visível nos gráficos) de Portugal ter sentido também mais tarde que outros os efeitos da crise. Será interessante ver qual será, agora, não apenas o destaque dado à notícia mas também qual o ângulo escolhido para a tratar.

A contradição por detrás do «abalozinho»

2 Julho 2009, 12:57 · Tiago Antunes

Falar de «abalozinho» a propósito da crise mundial que estamos a viver é, por si só, uma contradição. Uma contradição com a realidade. Com a política de verdade que a dra. Manuela Ferreira Leite afirma prosseguir.

 

Mas, ao reler aqui esse trecho da entrevista, recordei-me de algo que já na altura me tinha chamado a atenção: a contradição por detrás do «abalozinho». É que, confrontada pela Ana Lourenço com a infeliz expressão que tinha acabado de usar, Manuela Ferreira Leite mete os pés pelas mãos e acaba por contradizer o argumento que tinha acabado de sustentar. Senão, vejamos.

 

Manuela Ferreira Leite estava a defender a ideia de que a consolidação orçamental operada pelo actual Governo era meramente aparente e não sustentada. Tanto que, segundo a própria, «veio um abalozinho de terra e desmoronou-se». Mas, quando questionada se era mesmo de um «abalozinho» que se tratava, Manuela Ferreira Leite - visivelmente atrapalhada - responde: «é um abalozinho relativamente àquilo que poderia ter sido caso não estivessem as contas feitas… construídas doutra forma…». Isto é, se as contas públicas não tivessem sido postas na ordem e não estivessem consolidadas, teria sido um abanão. Mas, como as contas públicas entretanto estavam controladas, foi apenas um «abalozinho».

 

Em suma, fugiu-lhe a boca para a verdade (esta sim, a verdade). Pretendendo criticar o Governo por uma meramente cosmética consolidação orçamental, Manuela Ferreira Leite acaba por confessar que se não fosse a consolidação orçamental operada por este Governo (consolidação que ela própria reconheceu, nesta mesma entrevista, não ter conseguido fazer enquanto Ministra das Finanças) é que teriam sido elas…

 

Portanto, se de um mero «abalozinho» se tratou, temos de o agradecer ao bom trabalho deste Governo. Não é, dra. Manela?

Eu tenho dois amores

24 Junho 2009, 23:11 · Tiago Antunes

Manuela Ferreira Leite trocou a obsessão do défice pela obsessão do endividamento.

Os 28

23 Junho 2009, 17:57 · André Salgado

Climate Change fantasies

22 Junho 2009, 15:59 · Tiago Antunes

(…) The point is that we need to be clear about who are the realists and who are the fantasists here. The realists are actually the climate activists, who understand that if you give people in a market economy the right incentives they will make big changes in their energy use and environmental impact. The fantasists are the burn-baby-burn crowd who hate the idea of using government for good, and therefore insist that doing the right thing is economically impossible.

 

Paul Krugman, aqui.

Energias Renováveis, um “disparate”…

18 Junho 2009, 20:14 · Tiago Antunes

Mira Amaral acusou hoje o Governo de criar falsas ilusões ao apresentar as renováveis como a resposta para todos os problemas, considerando “um disparate” projectos como a central solar da Amareleja.

 

Está-se mesmo a ver que tem toda a razão.

Afinal de contas, as energias renováveis não ajudam a reduzir a nossa dependência energética do exterior e a pesada factura que suportamos com a importação de combustíveis fósseis.

As energias renováveis não tiram partido de recursos naturais endógenos, de que dispomos com fartura (por oposição ao petróleo e ao gás natural, de que não dispomos – pelo menos por enquanto!) e que, de outra forma, seriam desperdiçados.

As energias renováveis não permitem reduzir as emissões de CO2 e, com isso, evitar os efeitos nefastos das alterações climáticas, bem como evitar que, para cumprir Quioto, tenhamos de gastar balúrdios na aquisição de créditos de emissão de gases com efeito de estufa.

A aposta nas energias renováveis não cria empregos qualificados e know-how tecnológico em áreas de vanguarda, rápido crescimento e grande valor acrescentado.

Enfim, um óbvio erro estratégico. Coisa de gente sem visão!

Negócios da Semana

17 Junho 2009, 23:21 · Tiago Antunes

Está a dar, na SIC-N, o programa “Negócios da Semana”, moderado por José Gomes Ferreira.

O tema de negócios escolhido para esta semana é… a análise da entrevista dada hoje pelo Primeiro-Ministro à SIC.

E os convidados, quem são? Nogueira Leite, economista (para além de ser do PSD, mas isso não interessa nada, claro), Vítor Santos, economista, e… Paulo Rangel, esse reputado economista e conhecido homem de negócios!

E a ERC, onde é que está nestas ocasiões?

A armadilha conservadora da Europa

8 Junho 2009, 14:32 · Hugo Mendes

 1. O centro-esquerda foi o grande derrotado desta eleições, mas não foi o centro-direita que ganhou com este recuo, nem sequer os liberais. Como nos mostra o quadro abaixo, o PPE e os Liberais tiveram mesmo uma perda muito pequena – tal como o GUE/NGL, onde o BE e o PCP se incluem -, e quem ganhou foram os Verdes e sobretudo os “Outros”. O grupo do PCP e do BE, o, teve uma % inferior a 2004. Nos “Outros” temos sobretudo os votos da extrema-direita, embora alguns partidos com representação pela primeira vez - como o Partido Pirata sueco - se possam juntar ao GUE/NGL. Resumindo, os avanços da extrema-direita foram mais significativos e mais preocupantes que os da extrema-esquerda, que vai continuar a ter um grupo parlamentar muitíssimo pequeno.   

 

2. Escreve-se por aí na blogosfera que, pelo que se vê, “se o neoliberalismo criou a crise, as pessoas não votaram à esquerda, mas deram de novo maioria aos partidos conservadores”. É verdade, mas esta é também uma leitura muito torcida dos resultados. Em quase todos os países as eleições europeias são actos eleitorais usados para discutir questões nacionais, e para premiar ou protestar contra o partido no poder; a não ser que esteja a passar por um qualquer “estado de graça” – improvável com a crise que se vive -, este costuma passar um mau bocado: foi isso que agora aconteceu, por exemplo, em Portugal, na Espanha, na Grécia, na Suécia, na Inglaterra, na Irlanda, na Suécia ou na Áustria. E mesmo quando não está no poder, o centro-esquerda é sancionado quando é visto como não tendo credibilidade para oferecer soluções alternativas – é provável que isto explique a vitória dos partidos de Sarkozy e de Berlusconi.

            Independentemente do que levou as pessoas a votar, é, infelizmente, bem provável que a maioria do EPP que sai reforçada deste acto eleitoral intensifique as tendências que alimentam a insegurança que leva as pessoas a votar em partidos radicais. Uma vez que o EPP tenderá a fazer muito pouco para mudar a orientação do BCE, para regular o sistema financeiro, para reduzir o desemprego e a precariedade laboral, o que leva as pessoas a votar nas minorias radicais (numa palavra, a insegurança, geradora da desilusão e do medo) vai continuar; a fraca solidariedade entre países e regiões vai continuar a penalizar os países que mais precisam de ajuda; e a saída para o desemprego vai tender a fazer-se “por baixo”, na pressão sobre a protecção social e não “por cima”, mobilizando os sindicatos e procurando políticas inteligentes de regulação do mercado de trabalho.

3. O caminho já vinha a ser trilhado, mas estas eleições reforçam os receios: uma Europa social não é um luxo a que os Estados membros se possam dar; é provavelmente a única forma de conferir oportunidade, segurança e compensação aos losers da concorrência e, desta forma, tornar a Europa legítima e justificável aos olhos dos milhões de pessoas que votaram em protesto nos extremistas (ou não votaram de todo, ou fizeram-no em branco). Sem essa Europa social, teremos no futuro próximo muito provavelmente o aprofundar das dinâmicas recentes, com as pessoas a traduzirem o sentimento de insegurança e estagnação/recuo no nível de vida em votos em grupos radicais cujo mandato no Parlamento Europeu se pode resumir nas palavras do líder do British National Party, Nick Griffith (um dos dois deputados do BNP eleitos para o PE): «we’re here to look after our people because no one else is».   

4. A incapacidade da Europa para reagir mais energicamente ao problema actual do desemprego cria, naturalmente, o ambiente perfeito para que a extrema-esquerda e extrema-direita – ainda que, onde existe oferta partidária com expressão eleitoral (o que não é de todo o caso português) a segunda tenha em vários países ganho à primeira – possam crescer, à custa da exploração do medo das pessoas e de uma atitude de vale tudo que produz propostas irresponsáveis como a que marcaram a campanha do BE entre nós (suspender as regras de mercado; proibir os despedimentos; nacionalizar a banca – nada disto verá alguma vez a luz do dia, mas isso não interessa: se as pessoas estão desesperadas e dispostas acreditar em tudo, e se isso traz votos, qual é exactamente o problema de mentir descaradamente, como fez Miguel Portas nesta campanha, quando disse que o que o PS fez foi agravar as desigualdades, quando nenhum indicador mostra isso? É mentira? Não importa. Vale tudo).

Perante esta situação, se por essa Europa fora a direita tem medo que a esquerda no governo perca a cabeça e gaste o que não tem para responder ao populismo de extrema-esquerda, a verdade é que é bem mais provável que a direita acabe por não ser menos irresponsável quando tem de concorrer com o populismo de extrema-direita. Talvez os partidos conservadores de centro-direita não sejam, na sua maioria, particularmente nacionalistas nem xenófobos. Simplesmente, a existência nos contextos políticos nacionais de partidos de extrema-direita que concorrem com parte do seu eleitorado (curiosamente ou talvez não, foi com Sarkozy que a Frente Nacional de Le Pen perdeu força) obriga a que os conservadores tenham que adaptar o seu discurso às reivindicações da extrema-direita.

5. É fácil ver o problema: a Europa social será mais necessária à medida que se tornará também mais difícil de construir, porque a imigração, que torna a Europa social mais necessária - e, inversamente, a possibilita, porque sem o reequilíbrio demográfico que a imigração permite não há sustentabilidade futura dos sistemas de protecção social -, é também aquilo que torna as pessoas mais reticentes a apoiar um Estado social e as suas medidas redistributivas para os indivíduos e grupos mais vulneráveis. Quando a crise é generalizada, as classes médias e trabalhadoras têm menos vontade de financiar as transferências para aqueles que muitos políticos continuam a tratar, directa ou indirectamente, como uns “malandros”. Isto é tanto mais importante quanto muitos estudos têm dado forte solidez empírica à conclusão de que a heterogeneidade étnica e linguística é má para a aceitação pública de políticas redistributivas. As pessoas de um dado país aceitam tanto mais um Estado social generoso quanto mais os que são o seu público-alvo preferencial se assemelham a elas: “solidariedade, sim, mas com os que são como nós”. A conclusão não é particularmente animadora para a esquerda, mas ajuda a explicar porque é que os países nórdicos - dos mais etnicamente homogéneos do mundo - tiveram uma expansão impressionante do Estado social ao longo do século XX, enquanto que os EUA se mantiveram como welfare laggard: o eleitor médio americano sempre soube perfeitamente quem era/é o mais provável beneficiário das políticas sociais federais e/ou estatais – a população negra.

6. O desafio da Europa social é dar resposta a este fenómeno, evitando que ele assuma proporções assustadoras. O desafio da direita e da extrema-direita, infelizmente, parece ser – implícita ou explicitamente - explorá-lo. Desta forma, corre-se o risco de aprofundarem a armadilha conservadora em que a Europa em crise está metida - desemprego –> insegurança e medo -> procura de bodes expiatórios fáceis (como os imigrantes) -> votos na direita moderada e extrema -> continuação de políticas económicas que em nada concorrem para a resolução do problema do desemprego e da fraca procura -> desemprego -> insegurança e medo -> (…) - e que a constituição do novo Parlamento Europeu parece vir reforçar.

 

Por favor, parem de distribuir papa Mayzena nas redacções II

1 Junho 2009, 11:00 · Hugo Mendes

A propósito do post anterior, vale a pena recuperar um gráfico que já tinha usado aqui.

Nota 1: a barra da esquerda refere-se às despesas com protecção social; a barra de direita mede o risco de pobreza.
Nota 2: atenção, aqui nunca se tem em conta a “incidência” da pobreza, apenas a sua “prevalência”.

Por favor, parem de distribuir papa Mayzena nas redacções

1 Junho 2009, 10:44 · Hugo Mendes

O Diário Económico traz hoje um artigo - com chamada de capa - sobre a eficácia da Segurança Social na redução do risco de pobreza em Portugal. Não tendo tempo para me debruçar sobre ele agora com a atenção que merece (talvez mais logo), e antes que o país Mayzena entre em ebulição, não sei se o que mais me chocou foi a sua falta de qualidade ou a sua ma-fé. Para começar, discutir o impacto das políticas públicas de luta contra a pobreza sem distinguir “prevalência” e “incidência” do fenómeno é como discutir futebol sem saber a importância da lei do fora-de-jogo: parece um pormenor, mas é fundamental. O seu desconhecimento enviesa qualquer resultado.

O Diário Económico e o Pedro Romano podiam, para começar, ler estes dois posts do Carlos Farinha Rodrigues, aqui e aqui (em particular o do dia 12 de Fevereiro). Para a próxima cometiam-se menos erros.

Este é o exemplo de que, se muitas pessoas discutem a pobreza e as desigualdades sem conhecerem um número ou uma tendência recente de evolução do fenómeno, não basta ter os números: é preciso saber interpretá-los. A minha frase preferida do artigo deve ser esta:

«Assim, em 1998, um português tinha 27% de probabilidades de cair numa situação de pobreza, um valor que as transferências sociais permitiam atenuar para 21%. Nove anos depois (2007 é o último ano para o qual há dados nesta rubrica), o risco de pobreza antes de transferências diminuiu para 24% e, depois de transferências, para 18%. Ou seja, embora o risco de pobreza tenha caído, esta descida parece não estar ligada aos gastos adicionais com prestações sociais, o que sugere que não houve ganhos de eficiência na diminuição da pobreza.»  

Atente-se na competência hermenêutica do autor: não é que não tenha havido melhorias, como os dados não podem deixar de mostrar. O problema é que, embora o risco de pobreza tenha caído, esta «descida parece não estar ligada aos ganhos adicionais, o que sugere que não houve ganhos de eficiência na diminuição da pobreza».

Eu não sei que escola de interpretação o autor segue, mas confesso que isto roça o surreal. Não é oferecida explicação nenhuma para que a «descida não pareça estar ligada aos ganhos adicionais» - vem de onde, então? como a explicar? - nem para não tenha havido ganhos de “eficiência” (ou “eficácia”?), ao contrário do que dados tão claros podem indiciar.

O autor devia saber que a “despesa social” - já que coloca a definição na peça - inclui, por exemplo, os gastos com equipamento social, que não permitem aferir a pobreza monetária, que é aquilo que a peça discute, sem nunca referir. Assim, vale a pena recuperar o que afirma o Carlos Farinha Rodrigues, que lembra haver uma limitação em avaliar-se «a eficácia da política social a partir dos dados publicados pelos institutos oficiais [:] a sua incapacidade de ter em conta políticas sociais que não são canalizadas através de transferências directas de rendimento para as famílias. Uma parte significativa da política social actualmente implementada, com repercussões directas no nível e na qualidade de vida das famílias, é feita através de mecanismos como o apoio social escolar, a construção de creches e de lares para idosos, pelo apoio à manutenção da rede de serviços e equipamentos sociais, etc. De facto, indicadores de eficácia como os atrás descritos são completamente incapazes de captar os efeitos dessas políticas».

O resto pode ficar para depois. Mas fazer comparações do género “nós-gastámos-mais-enquanto-outros-não-aumentaram-os-gastos” sem dizer (ou saber) que no passado sempre gastámos menos que a maioria - e que, por isso, o efeito é de catching up dos níveis de despesa dos países mais ricos - é demasiado tendencioso. Como não consigo perceber se o artigo é sobre “eficiência” ou “eficácia” das políticas (dado que as palavras aparecem quase de forma intermutável). Se calhar também isto não interessa nada.

Cuidado, olhem que a papa já pode ter passado do prazo. 
 
 

 

 

Não há think tanks e editoriais destes que nos ajudem a resolver os problemas

27 Maio 2009, 18:42 · Hugo Mendes

Alguém avise, por favor, o Franciso Camacho e o Instituto Sá Carneiro que, se querem combater a pobreza, a estratégia de ”a dar aos que mais necessitam” - de tempos a tempos alguém tenta sempre reiventar a roda com esta conversa - tem uma longa história e, se esta nos ensina alguma coisa, é que é menos eficaz do que a estratégia universalista para atingir o objectivo a que se propõe.

Uma olhada no quadro seguinte, retirado daqui (p.165), permite observar isso mesmo: que os países cujos sistemas de protecção social e estratégias de redistribuição assentam numa lógica de basic security (em particular, os anglo-saxónicos) são mais desiguais e têm taxas de pobreza mais elevadas do que os países que historicamente apostaram em sistemas de protecção social e estratégias de redistribuição de cariz mais universalista (encompassing).

 

Já agora, convinha que o Francisco Camacho e outros tivessem um bocadinho de perspectiva histórica na sua “análise” de problemas tão sérios e na sua procura de “culpados”. Dizer que os portugueses estão «pelo menos desde o século 16, conformados com a própria miséria» dá um belo slogan eleitorial, mas é histórica e factualmente incompetente e irresponsável. E a Mariana Trigo Pereira já explicou porquê.

É uma questão de ler o gráfico

12 Maio 2009, 12:44 · Mariana Trigo Pereira

«O Governo incompetente não aplica, não aproveita, desperdiça. Em dois anos, 2007 e 2008, devia ter executado 20 a 25 por cento dos fundos comunitários e executou dois por cento» , acusa Paulo Rangel.

(retirado do Boletim informativo do QREN que pode ser lido aqui)

Nobel, neo-keynesiano e de centro esquerda >>>

9 Maio 2009, 13:33 · Mariana Trigo Pereira

«Sócrates define Stiglitz como economista de centro esquerda »


Não sei porque é que isto é notícia quando o próprio Stiglitz ontem partilhou com os estudantes que se considera um neo-keynesiano de centro esquerda. Complementando o que disse nas conferências no Estoril e em Lisboa falou na necessidade de um novo sistema de reserva global para resolver os actuais desequilíbrios financeiros no comércio mundial, não depositando grandes esperanças no FMI (que comparou àqueles canalizadores que fizeram asneira da primeira vez, mas que temos que chamar novamente a casa porque só eles é que sabem onde ficam os canos).

Não teve pudor em apontar o dedo a todos os que contribuíram, conscientemente, para esta crise financeira, como se pode ler aqui e aqui, para os defeitos do plano de Obama, para a errada arquitectura de incentivos do sistema financeiro, para a ‘corrupção à americana’ e a promiscuidade entre o sector financeiro e o sector político - o gigantensco financiamento das campanhas partidárias por parte de grupos financeiros que têm impedido que se passe legislação que reforce a regulação do sistema financeiro.

Eu não sou economista, mas…

15 Abril 2009, 19:59 · Tiago Antunes

- Já no mês passado Vítor Constâncio tinha explicado que, na actual conjuntura, reduzir os impostos de nada serviria, visto que - em contexto de incerteza - essa folga nunca seria dirigida para o consumo ou para o investimento, mas para a poupança. Logo, um alívio fiscal não permitiria estimular a economia.

 

- Ontem, Vítor Constâncio reafirmou o que já havia dito, mas desta feita com números para o comprovar: a revisão em baixa do PIB ontem efectuada deveu-se a uma contracção do consumo privado e do investimento (bem como uma diminuição das exportações).

 

- Por que motivo continua, então, o CDS-PP a insistir numa redução de impostos que não faz sentido absolutamente nenhum???

Política Económica/Economia Política

14 Abril 2009, 20:32 · Mariana Trigo Pereira

«Consider an asset that has a 50-50 chance of being worth either zero or $200 in a year’s time. The average “value” of the asset is $100. Ignoring interest, this is what the asset would sell for in a competitive market. It is what the asset is “worth.” Under the plan by Treasury Secretary Timothy Geithner, the government would provide about 92 percent of the money to buy the asset but would stand to receive only 50 percent of any gains, and would absorb almost all of the losses. Some partnership!
(…)
But Americans are likely to lose even more than these calculations suggest, because of an effect called adverse selection. The banks get to choose the loans and securities that they want to sell. They will want to sell the worst assets, and especially the assets that they think the market overestimates (and thus is willing to pay too much for).
(…)
What the Obama administration is doing is far worse than nationalization: it is ersatz capitalism, the privatizing of gains and the socializing of losses. It is a “partnership” in which one partner robs the other. And such partnerships — with the private sector in control — have perverse incentives, worse even than the ones that got us into the mess.
»

O artigo de Joseph Stiglitz, por inteiro, aqui.

De menor declínio em menor declínio

14 Abril 2009, 16:52 · Mariana Trigo Pereira

e com a ajuda de umas palmadinhas nas costas por parte do presidente do Fed, pode ser que a coisa se endireite.

É a Economia…

10 Abril 2009, 13:02 · Mariana Trigo Pereira

Quem tem estado de fora, tem que entrar no círculo, tem que conhecer gíria e compreender os processos. A Economia está em toda a parte.

Que risco corremos se aumentarmos muito os salários? Porque é que os nossos padrões de consumo têm efeito sobre a balança comercial? Porque é que é importante exportarmos mais do que importamos e o que nos impede de o fazer? Porque é que as nossas opções escolares, académicas e profissionais afectam aquilo que o país produz e a riqueza que gera? Porque é que não nos podemos endividar indefinidamente? Porque é que o BCE não pode manter as taxas de juro baixas durante muito tempo? O que é que se passa nos mercados financeiros, que utilidade têm e que riscos acarretam? Que mecanismos de regulação económica existem e como estão a ser utilizados?

Os tempos não são para demagogias, discursos simplistas e baratos. O debate esclarecido e honesto é necessário no campo político (dos partidos aos sindicatos), mas também o escrutínio esclarecido por parte dos cidadãos. Não nos podemos dar ao luxo de não perceber os mecanismos económicos, de assistir ao aumento do desemprego, à deslocalização e falência de empresas e manter o mesmo discurso, os mesmos argumentos (por vezes irrealistas e demagógicos). Precisamos de resolver o problema económico para termos recursos para escolher e construir a sociedade que desejamos, colectivamente, e para nós próprios.

Jurista para a NAER precisa-se. Com urgência!

7 Abril 2009, 16:36 · Tiago Antunes

O presidente-executivo da Naer - Novo Aeroporto afirmou hoje que a conclusão do estudo de impacto ambiental não é uma condição necessária para que o concurso para a privatização da ANA e construção da infra-estrutura seja lançado.

 

Artigo 6.º, n.º 4 do Regime Jurídico das Parcerias Público-Privadas (DL 86/2003, de 26/04, na versão resultante do DL 141/2006, de 27/07):

«No que respeita, em especial, à declaração de impacte ambiental, quando exigível segundo a lei aplicável, deve a mesma ser obtida previamente ao lançamento da parceria»

Workers vs. Workers

31 Março 2009, 9:40 · Hugo Mendes

Para quem gostou do anúncio (alterado do original da Antena 1) do Bloco de Esquerda sobre as manifestações e a deslocalizações para a Eslováquia, vale a pena ler este artigo do Paul Krugman escrito em 2000. 

«European Leader Assails American Stimulus Plan»

26 Março 2009, 12:14 · Mariana Trigo Pereira

«The European Union’s crisis of leadership during the economic downturn was thrown into sharp relief on Wednesday, as the current president of the 27-nation bloc labeled President Obama’s emergency stimulus package “a way to hell” that will “undermine the stability of the global financial market.”»

No artigo do NYTimes lê-se ainda que “analysts in Prague said that Mr. Topolanek was eager to show that he was still politically relevant.”

Assim não vamos lá. Como dizia Krugman, vale-nos o Estado Providência.

«Falências de empresas aumentaram 51 por cento no primeiro semestre de 2008»

25 Março 2009, 10:06 · Hugo Mendes

Lê-se no ‘Público‘. Agora é só esperar para ouvir Manuel Alegre (entre outros) pugnar de novo pelo aumento dos salários.

O regozijo

23 Março 2009, 21:21 · André Salgado

Mais portugueses inscritos como desempregados, expectativas mais risonhas para o ano eleitoral. Como bem observa o atento Afonso Azevedo Neves, é a maior subida homóloga desde Dezembro de 2003, altura, como todos recordamos, em que a então governação social-democrata e centrista se batia como um leão perante uma das mais graves crises internacionais das últimas décadas. É também impressionante a quantidade de governações falhadas, hoje, um pouco por todo o mundo. Já da seriedade e do oportunismo falhados…

O Bloco no país dos Pin y Pons

19 Março 2009, 17:49 · André Salgado

A moratória nas prestações de crédito à habitação, para famílias com desempregados, de nada serve, diz o Daniel Oliveira. Vendo bem, qual o sentido de um instrumento bonificado de excepção para ajudar a enfrentar uma conjuntura de dificuldade excepcional? Nenhum, naturalmente. Ainda por cima, com a ideia peregrina de diluir uma parcela do encargo que é hoje difícil de suportar num horizonte futuro em que as circunstâncias não sejam tão penalizadoras, como estar desempregado. Bom, bom, é ficar já sem a casa. Aproveita agora que estás aflito e desgraça-te já. Sempre se poupa na angústia e se há pouco dinheiro, não há vícios.

Naturalmente, adivinhamos qual seria a solução do BE. Taxar mais as “grandes fortunas” (uma receita mágica, que para o BE dá para tudo e resolverá todas as equações do país), comprar todos os créditos à habitação e oferecer as casas aos portugueses, por esta ordem de prioridade:

1. desempregados

2. remediados

3. classe média (hummm…)

4. ricos

Se não chegar, pode-se sempre alienar as regiões autónomas.

Agora no ‘osso’ da questão

19 Março 2009, 17:46 · Hugo Mendes

Este (ver o post mais os comentários, em particular os do Luís Aguiar-Conraria) é um debate que vale a pena ter.

Gostava que os economistas tivessem algo mais concreto para nos dizer sobre como elevar a produtividade dos portugueses - em particular, algo que ainda não tenha sido feito ou tentado ao nível das políticas públicas, ou no caso de o ter sido, porque é que estas não têm funcionado -, de modo a que a saída da crise seja por cima, e não por baixo (descida de salários, por ex.).

Desigualdades, esquerda, história e estratégia

19 Março 2009, 5:01 · Hugo Mendes

Ainda sobre o artigo do Rui Tavares sobre as desigualdades no “Público”, para além das chamadas de atenção certeiras do Pedro Adão e Silva e do Miguel Abrantes - temos que nos entender de vez com o uso das estatísticas, com a evolução recente do fenómeno, e com o impacto das políticas públicas -, há um comentário mais amplo que vale a pena fazer.

Se olharmos para o gráfico que o Rui Tavares foi buscar ao The Guardian (mas qualquer gráfico sobre estas questões mostra isto), há uma lição que vale a pena tirar e levar a sério – sobre o passado e para o futuro. As sociedades que mais longe foram na redução das desigualdades e na concretização de políticas de bem-estar foram aquelas onde a esquerda social-democrata se manteve mais unida, ou se quiserem, menos fragmentada do ponto de vista partidário, eleitoral e sindical - ou, se quiserem ainda, onde os partidos de filiação estalinista e trotskista eram mais pequenos, ou mesmo irrelevantes para o jogo partidário e sindical (ou mesmo proibidos, como na Alemanha pós-1945, o que ajudou desde logo à hegemonia do SPD à esquerda). A experiência dos países nórdicos, onde a social-democracia igualitarista mais avançou na construção de um capitalismo de bem-estar, é bastante reveladora: (…)

(continue a ler no Outubro)

Alguém se importa de me explicar?

18 Março 2009, 21:44 · Hugo Mendes

Aparentemente, Manuel Alegre disse na apresentação do último número da Revista “OPS!” que é «preciso aumentar os salários para que não haja um colapso do comércio». Ao mesmo tempo, também «elegeu o desemprego como o problema central, alertando, de seguida, para o risco de “explosão social” na Europa»

Alguém se importa de me explicar quem aumenta e como se aumentam que salários (tirando os da função pública, mas isso já o Governo o fez, para fazer o possível para aumentar ou, pelo menos, aguentar a procura interna, mas sobre isso não consta que Alegre tenha dito uma palavra), quando parte do nosso (e não só, naturalmente) tecido empresarial está com a ‘corda na garganta’, e quando as empresas procuram (ou deviam procurar) usar todas as estratégias à mão para, reduzindo a produção se necessário, evitar despedimentos?

São estas as famosas propostas de Manuel Alegre? Haverá outras interessantes, porventura. Mas quando se fazem propostas, há uma coisa importante que convém não fazer logo voar pela janela: a credibilidade. Não basta dizer o contrário do que defende a SEDES para ficar, para bem da nossa consciência ideológica, do “lado certo” e mais à “esquerda”.  

*post editado.

O FMI e o Banco Mundial ao serviço da propaganda

17 Março 2009, 16:30 · Miguel Cabrita

O polvo da propaganda alastra: como se lê hoje na notícia de um jornal situacionista linkada no post anterior,  o FMI diz que, em “previsões que podem não ser ainda as finais” (meaning “ainda podem ser piores”) a economia da zona Euro vai em 2009 contrair-se 3,2%, a economia americana 2,3% e o Japão à volta de 5%. 

Mas o FMI avança mesmo com uma contração de 0,6% da economia mundial (incluindo, portanto, as zonas de crescimento África e Ásia), situação que o Banco Mundial também já admite como muito provável. Ou ainda pior, segundo o seu presidente, que já fala numa contração entre 1 a 2 pontos percentuais da economia global, dando como certo que as dificuldades se vão estender até 2010.

Ganha assim contornos mais precisos, e severos, o cenário traçado há dias pelo FMI:

“a economia mundial poderá contrair-se pela primeira vez em mais de 60 anos”.

Desde a 2ª Guerra Mundial, será? 

A propaganda não tem limites.

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