Notícias da crise
5 Janeiro 2009, 15:30 · Filipe Nunes
«Pelos vistos, a receita portuguesa [para responder à crise], tão criticada entre nós, não diverge da de outros países. Porventura o que diverge é a oposição…» Assim comentava Vital Moreira o pacote de medidas do Governo da Senhora Merkel. Apenas uma adenda: segundo o Economist, o governo britânico também começa a equacionar seriamente a construção de uma rede ferroviária de alta velocidade, para ligar as principais cidades inglesas (Londres-Birmingham-Manchester-Leeds). A oposição conservadora, pela voz da responsável pela política de transportes, Theresa Villiers, subscreve.
Prémio piquena empresa 2008
30 Dezembro 2008, 18:13 · André Salgado
Augusto Morais, presidente da Associação Nacional das Pequenas e Média Empresas.
Depois de recomendar aos seus associados que despedissem mais de 40 mil empregados, caso o governo actualizasse o salário mínimo de 426 para uns estratosféricos 450 euros, vem agora dizer que se as empresas forem chamadas a cumprir as suas obrigações fiscais pode haver um milhão de desempregados.
Assim, o senhor doutor coloca-se numa fasquia tal que não facilita nada a próxima maravilhosa pérola.
Uma sugestão: se as empresas forem obrigadas a pagar um ordenado aos empregados todos os meses, o Augusto imola-se na Praça do Comércio.
Investimento público
30 Dezembro 2008, 10:38 · Tiago Barbosa Ribeiro
O Barclays Wealth considera que as consequências negativas de um prolongado ciclo recessivo podem ser mitigadas com o investimento público em infra-estruturas. Não está correcto alienar desta forma todo o capital de conhecimento acumulado pela direcção do PSD.
As condições subjectivas da revolução
19 Dezembro 2008, 11:28 · Tiago Barbosa Ribeiro
O sindicato da TAP confirma que a adesão à greve é superior a 100%. Enfim, não sabia que a matemática também já é contra-revolucionária.
«Os portugueses têm boas razões para pensar que as desigualdades não se curam com políticas de esquerda»?
15 Dezembro 2008, 18:49 · Rui Branco
Perguntava o Nuno Lobo no outro dia.
Pois bem, os dados de hoje do INE referentes aos rendimentos de 2006 aí estão para responder.
E a resposta é não, pelo contrário, os portugueses têm boas razões para pensar que as desigualdades se curam com políticas de esquerda.
Aqui fica o sumário e o link para o documento.
«De acordo com o mesmo inquérito, o rendimento dos 20% da população com maior rendimento era 6,5 vezes o rendimento dos 20% da população com menor rendimento, observando-se uma ligeira redução face ao valor de 6,8 estimado no ano anterior. Verifica-se igualmente uma redução no Coeficiente de Gini de 38% para 37%».
Os dados disponíveis sobre a evolução das desigualdades mostram que a evolução tem sido favorável (para além dos dados S80/S20 e do índice de Gini, relembro a evolução do S90/S10, de 12,3 para os rendimentos de 2003 para 10,8 para os de 2006), embora, está claro, ainda longe do necessário (e da média europeia, que se situará em torno dos 4,5 para o indicador S80/S20). Mas a dinâmica, o sentido da evolução, é inegável e se calhar convém dizer com toda a clareza que as desigualdades de rendimento não tem aumentado em Portugal desde 2005. Pelo contrário, têm dimínuido.
O que estes e os dados da evolução do indicador S80/S20 ao longo dos últimos anos mostram são duas coisas muito claras. Primeiro, que medidas como o Rendimento Mínimo Garantido/RSI e o Complemento Solidário para Idosos têm tido um efeito positivo, ajudando a retirar os mais desfavorecidos dos desfavorecidos da pobreza absoluta, embora subsistam ainda demasiados portugueses com rendimentos abaixo da linha de água da classe média que é preciso fazer subir.
Por outro, verifica-se que a desigualdade de rendimentos revela uma elevada sensibilidade ao ciclo político. Ou seja, sempre que o PS está no governo as desigualdades baixam (de 7,4 em 1995 para 6,5 em 2001 e de 7,4 em 2003 para 6,5 em 2006), e que quando a Direita esteve no governo as desigualdades aumentaram (6,5 para 7,4). Veja-se este gráfico, que ainda não contempla os dados de hoje, mas que ilustra o argumento:

What is to be done? A médio prazo, continuar o forte investimento nas qualificações profissionais é o que melhor combate a elevada dispersão salarial. Mas, de imediato, há que apostar na contratação colectiva (daí a importância da revisão do Código do Trabalho) e numa fiscalidade mais progressiva na tributação do rendimento.
Aliás, é muito importante que a mesma indignação colectiva que se manifesta - e bem - com as desigualdades de rendimento se mantenha firme quando se trata de atacar a questão da fiscalidade. Há que construir uma coligação social forte que permita sustentar um aumento da progressividade fiscal.
Mas, e o PSD, caro Nuno Lobo? Um exemplo. O salário mínimo aumentará 6% em 2009, para 450 euros. Foi este aumento de 25 euros que Manuela Ferreira Leite considerou «roçar o nível da irresponsabilidade». O que estas hábeis e piedosas palavras mostram é a importância que o PSD de Ferreira Leite verdadeiramente atribui ao combate à pobreza e à desigualdade de rendimentos.
Como se sabe, e os dados de hoje continuam infelizmente a comprovar, em Portugal, e ao contrário de outros países, ter emprego não garante que se esteja a salvo do risco de pobreza.
Será que Ferreira Leite não percebe que a elevação do salário mínimo é determinante para a progressiva eliminação da pobreza entre aqueles com rendimentos do trabalho muito baixos? Ou será que percebe e não quer saber?
Existe uma palavra que descreve bem aqueles que afectam escândalo com os dados sobre a pobreza e a desigualdade de rendimentos, mas que depois são incapazes de apoiar as principais medidas de combate à pobreza e às desigualdades – o reforço da contratação colectiva, a fiscalidade mais progressiva na tributação do rendimento e o aumento do salário mínimo –: hipocrisia. E ainda outra: demagogia da pior.
Da felicidade
26 Novembro 2008, 13:09 · Tiago Barbosa Ribeiro
Os cidadãos dos países nórdicos, paradigmas de um modelo democrático de intervenção socialista na economia, são aqueles que manifestam maior grau de realização individual. Socialismo e realização individual. É esta a chave que a direita e parte da esquerda nunca compreenderão.
«Louvado sejas…»
22 Novembro 2008, 23:46 · Hugo Mendes
O “Público” acha que é notícia o facto de o antecessor do Magalhães (de nome ‘XO’) já poder ser comprado em Portugal (se fosse o sucessor…).
Mas a notícia não é totalmente irrelevante: ficamos a saber «que só a encomenda de um milhão destes portáteis feita pela Venezuela representa mais unidades do que o XO conseguiu vender até agora em todo o mundo».
Uma péssima ideia, esta do Magalhães.
Lutas de ocasião II
21 Novembro 2008, 12:23 · Tiago Barbosa Ribeiro
O João Miranda considera que o modelo que eu defendo para a gestão de recursos humanos do Ministério da Educação é o modelo seguido pelas empresas privadas. Curiosamente, é o próprio que compara o modelo das escolas privadas com o modelo das escolas públicas. Sucede que o paradigma de descentralização e autonomia das escolas públicas que eu defendo articula-se com princípios de gestão e de avaliação garantidos pelo ME no âmbito de um sistema público de educação.
A avaliação dos professores deve ser feita localmente e isso nunca esteve causa. Nem a subjectividade, obviamente, associada a qualquer sistema desta natureza. Simultaneamente, em nada um registo centralizado tem implicações nos resultados da avaliação, sendo aliás bem mais neutral do que registos escola a escola. Ou então todos os outros registos, do acesso ao ensino superior às declarações de impostos, deveriam também ser fragmentados e no limite extintos. Misturar a descentralização administrativa ou até a regionalização com uma desconfiança espúria contra o Estado não passa de uma cortina ideológica em que a educação é um tema tão bom como qualquer outro desde que sirva para anular quaisquer mecanismos estatais. Compreende-se.
Lutas de ocasião
20 Novembro 2008, 16:11 · Tiago Barbosa Ribeiro
O João Miranda discorda que os computadores do Ministério da Educação mantenham registos das avaliações de desempenho dos professores que trabalham para o Ministério da Educação. Chama a isso, espantosamente, «centralismo avaliativo». Em concordância, sugiro que as direcções de Recursos Humanos das empresas privadas deixem também de ter registos sobre a avaliação de desempenho dos seus colaboradores. A luta é o caminho e tal.
A audição
13 Novembro 2008, 3:29 · André Salgado
Um dado curioso do ajuste de contas da audição sobre o défice a situaçao do BPN transmitida ao Banco de Portugal e ao governo pelo relatório de 2003 da Deloitte: é desagradável que o dr. Constâncio seja o único administrador do BPN de quem se pede a cabeça.
E agora algo completamente diferente: a crise financeira (5)
7 Novembro 2008, 17:18 · Pedro Machado
Roubini voltou esta semana aos presságios negros, desta vez centrando a sua atenção na China. Trata-se de uma análise que parte de uma equação bastante simples, mas evidente, sobre o modelo de globalização vigente (e que já aqui havíamos mencionado): a China actua como produtor global e a América como consumidor de última instância; falhando este, o modelo é afectado nos seus pilares e na sua essência. E pelo caminho fica a famosa teoria do decoupling.
Por coincidência ou não, aparece agora esta notícia na Bloomberg:
China’s Finance Minister Xie Xuren was called back from an international economic conference in Peru before the meeting began, following orders from Beijing to help resolve problems at home…
“They told him he has to resolve an economic problem and that he’s the only one who could do so,” de Swinnen said. “He was complaining because he had to fly 32 hours to get here and then he had to fly another 32 hours to get back.”
China’s largest banks, with 4 trillion yuan ($586 billion) of cash, are resisting government efforts to boost lending to 42 million small and medium-size companies that drove the economic boom of the past decade. On Nov. 2, the central bank scrapped curbs on loans after three interest rate cuts in seven weeks failed to revive economic growth that has sagged to its slowest in five years.
Half the nation’s toy exporters have closed this year, and 67,000 smaller enterprises filed for bankruptcy in the first half, according to government statistics. Companies with assets of less than 40 million yuan provide three-quarters of urban jobs and 60 percent of China’s gross domestic product…
Xie arrived in Beijing to take care of some “urgent business,” two finance ministry officials, who declined to be named, said today. They didn’t elaborate….
Xie will not attend the Group of Twenty meetings in Sao Paulo, Brazil, this weekend, one finance ministry official said. Xie’s attendance for next week’s Washington summit on financial crisis is yet to be confirmed, the official added.
A economia mundial está definitivamente perigosa …
Publicidade institucional em dia de OE
6 Novembro 2008, 19:33 · André Salgado
O centralismo democrático é lindo
6 Novembro 2008, 14:39 · Tiago Barbosa Ribeiro
Ainda a propósito do aumento do salário mínimo:
O dr. António Borges chamar-lhe-ia 600 milhões de razões para menor presença do Estado na economia
4 Novembro 2008, 19:11 · André Salgado
A ver se entendemos bem:
Para darem cabo do banco, colocando-o à beira da falência, os administradores do BPN foram irresponsáveis em roda livre - para sermos gentis - e ainda pediam 600 milhões aos contribuintes portugueses para tapar o buraco que fizeram.
Para contestar a nacionalização que vai salvar o banco da falência e os depositantes da bonita irresponsabilidade, os administradores que ainda pediam 600 milhões aos contribuintes portugueses para tapar o buraco que fizeram, já são sociais-democratas vítimas de uma decisão com propósitos políticos.
É isto, não é?
Era uma vez a boa moeda
4 Novembro 2008, 18:44 · Rui Branco
«O caso do BPN vem, uma vez mais, revelar o papel decisivo do Estado em garantir a segurança e a confiança nas relações económicas. Mas, esperemos que, do mesmo modo que os novos tempos vieram tornar claras as debilidades estruturais do sistema financeiro capitalista à escala global, obrigando a encontrar novos modelos de regulação, também a solução do BPN não se fique apenas pela nacionalização. É preciso responsabilizar quem cometeu irregularidades, com custos evidentes para os accionistas, e também criar condições efectivas para que histórias como a do BPN não se desenrolem à sombra da passividade e da conivência colectiva»
Pedro Adão e Silva, «Uma história portuguesa», no Diário Económico de hoje.
Para ajudar o desemprego de Portugal
3 Novembro 2008, 21:39 · André Salgado
Consta que Manuela Ferreira Leite irá apresentar um pacote estratégico de grandes obras públicas nacionais, propondo a localização do novo aeroporto internacional de Lisboa na Suiça, uma ligação TGV Galiza-Luxemburgo e novas concessões rodoviárias Toronto-Newark.
O que ainda nos vai salvar são os economistas bissexuais
3 Novembro 2008, 19:26 · André Salgado
Aqui, nos delírios do costume, via Câmara Corporativa
A tese é que as teorias económicas mais restritivas ao consumo e investimento seriam desenhadas pelo mais aproximado que pode haver de um bom macho chefe de família. Dar uma facadinha no matrimónio seria como cometer um deslize de consumo de um produto subprime. Quem não perceber nada disto, está à beirinha de ser sodomizado. Mentalmente, pelo menos.
Palavras de ontem ou de hoje
30 Outubro 2008, 18:39 · André Salgado
“Apenas congelar os vencimentos dos funcionários e cortar no investimento não é sustentável numa legislatura de quatro anos. Havia toda uma fase de gestão microeconómica da administração pública e aí precisava-se de um general de economia e finanças e não de uma senhora que só sabe de contabilidade pública”
- Luís Mira Amaral de Manuela Ferreira Leite, Março de 2005 -
Quelle surprise! Afinal, o consumo na América também desce
30 Outubro 2008, 18:35 · Pedro Machado
Os dados do trimestre da economia norte-americana, hoje divulgados, anunciam uma contracção de 0,3% do PIB. Supostamente, a dimensão da contracção foi menor do que a generalidade das previsões feitas, como aqui se observa - seja lá o que isso queira dizer. Mas mais importante do que o recuo trimestral do PIB norte-americana, é a sua causa que aparece relacionada com a quebra pronunciada do consumo (-3,1%). Ora, esta componente do PIB não registava qualquer declínio desde 1991(!).
Esta evidência parece, desde já, suficiente para se perceber que a actual crise será bem mais severa e profunda do que seria expectável, sobretudo porque ela vai atacar um dos pilares do modelo de globalização que se começou a desenhar desde o início do anos 90. É bom não esquecer que este modelo assentou, primordialmente, no consumidor norte-americano. Sendo certo que o seu afã consumista foi alimentado pelo aumento exponencial do crédito que, por sua vez, foi sustentado pela inovação financeira e pela compra de títulos da dívida pública americana pelos países asiáticos, em particular Japão e China, e do Médio Oriente, o actual modelo de globalização assentou na premissa de que o consumo norte-americano não registasse quebras. Só que, tal como as casas na América se desvalorizam, também aí o consumo se retrai. E a desconstrução desse mito arrastará consigo, muito provavelmente, a globalização tal como a conhecemos.
Via Nova e Terceira Via
29 Outubro 2008, 12:57 · Filipe Nunes
Citando de Gaulle, Manuel Alegre reconhece que comete por vezes o erro de ter razão antes de tempo. Voltou, aliás, a cometer esse erro na moção “Falar é preciso”, apresentada ao Congresso do PS em 1999.
Dizia então Alegre: «A crise financeira (…) pode minar, de um momento para o outro, pela incerteza e pela volatilidade, o próprio funcionamento dos maiores centros financeiros do mundo. A ‘mão invisível’ falhou. (…) Temos de continuar a exigir uma reforma das instituições internacionais, do FMI ao Banco Mundial, para que deixem de ser arautos e agentes do pensamento único. Outra lógica terá de presidir à Organização Mundial do Comércio, para que a livre circulação de mercadorias não se torne em mais um instrumento de enfraquecimento das economias mais frágeis. É preciso regular os mercados financeiros mundiais (…).»
É, de facto, extraordinário. Assim de repente, só encontro tamanha presciência no capítulo de um livro escrito um ano antes dessa referência que é a moção “Falar é preciso”: «Crises, erratic fluctuations, the sudden rush of capital into and out of particular countries and regions – these are not marginal but core features of untamed markets. The regulation of financial markets is the single most pressing issue in the world economy (…) The needs are (…) to create greater accountability within the transnational organizations involved in world economic management, as well as restructure them. The idea that controlling the free mobility of capital produces losses of efficiency takes no account of the social and economic costs of crises. »
O livro intitula-se «The Third Way», o capítulo «Market fundamentalism on a world scale» (pp. 147-153) e o autor chama-se Anthony Giddens, esse mesmo: «o ideólogo da terceira via neoliberal».
Prematuro
29 Outubro 2008, 11:02 · Tiago Barbosa Ribeiro
Manuela Ferreira Leite considera que é prematuro anunciar o valor do salário mínimo nacional por estes dias, justamente no momento em que tem de ser definido para 2009. Sensato seria esperar por 2010 para fixar o salário mínimo de 2009.
Deviam ter vergonha
25 Outubro 2008, 15:33 · Tiago Barbosa Ribeiro
Questionada ontem na SIC Notícias sobre países sem economia de mercado que tenham registado um grau satisfatório de desenvolvimento e bem-estar social, Odete Santos lembrou-se de «vários» e indicou um: Cuba. Um país que vive há décadas sob o jugo de uma ditadura caribenho-comunista, com pobreza generalizada, inexistência de liberdades cívicas e políticas, repressão de Estado e pensamento único. É este o grande exemplo de Odete Santos e do PCP para o desenvolvimento de um país. Num período de crise como o que o vivemos a cegueira do PCP permanece a mesma. O pudor, como se vê, é que é um pouco menor. Deviam ter vergonha.
Ainda o Alves dos Reis das Finanças e Economia
24 Outubro 2008, 21:00 · André Salgado
Entendeu o PSD por bem habilitar o dr. Miguel Frasquilho como porta-voz para explicar ao partido e ao país, através de uma análise devastadora, a situação trágica a que a governação de Sócrates conduziu a economia nacional. Perante a galvanização proporcionada por análise tão devastadora, até disponibilizou gentilmente imagens que demonstram o horror:
Não obstante a clareza e a frontalidade que caracterizam o dr. Frasquilho, convém honrar alguma memória. Já nem se leva a mal a inexistência de qualquer referência à crisezinha internacional no enquadramento das previsões para 2009. Como sabemos, não existe qualquer crise a pôr as economias europeias a crescer pouco, zero ou em recessão. É apenas uma invenção do governo, não se compreendendo como não pode estar o país a crescer milhões. Milhares de milhões. Mas, e é importante que isto se diga, não belisca a honestidade e a clareza do dr. Frasquilho. Apenas não havia mais espaço na tabela. Adiante.
O que mais intriga na tabela do dr. Frasquilho é que terrível desgraça terá acontecido a Portugal no 1º trimestre de 2005. Porque agora assim de repente, puxando um pouco pela memória, o actual governo não tomou posse no final de 2004, não é verdade? É que quando o actual governo tomou posse, o défice não era 3.4, pois não? Assim como a taxa de desemprego não estava em 6.7, mas um pouco mais upa, upa, em 7.5. Deve ter sido um trimestre tramado.
Também é pena não haver mais espaço na tabela do dr. Frasquilho, ou poderiam ser colocadas umas colunas com os títulos 2002 e 2003. Só pela mania da comparação. O dr. Frasquilho poderia, então, prestar o serviço público de explicar como o PIB cresceu 0.4 em 2002 e como o PIB cresceu regrediu 1.1 em 2003. Curiosamente um período, conhecido por uma avassaladora crise internacional, em que o dr. Frasquilho foi Secretário de Estado do Tesouro e Finanças. Não que se esteja a imputar responsabilidades pelos maus resultados ao dr. Frasquilho. Seria uma injustiça culpar o dr. Frasquilho de todos os males do mundo. Afinal, era apenas um modesto funcionário que trabalhava para uma chefia, que dava pelo nome de dra. Ferreira Leite.
Poderia também o dr. Frasquilho prestar o adicional serviço público, com a clareza e a frontalidade que o caracterizam, de explicar as razões da população desempregada ter evoluído de 238.4 milhares no primeiro trimestre de 2002, para 412.6 milhares no primeiro trimestre de 2005, quando o governo a que o dr. Frasquilho pertenceu entregou a encomenda. Enquanto no mesmo período, a população empregada evoluiu regrediu de 5106.6 para 5094.4 milhares. Mas seria injusto voltar a chamar o dr. Frasquilho à pedra por qualquer responsabilidade partilhada. Até porque não é o governo que cria empregados, não é verdade? Alguma coisa deve ter corrido mal, mas não foi o governo do dr. Frasquilho, há que dizer isto com clareza e frontalidade.
Numa livraria perto de si
24 Outubro 2008, 18:55 · Hugo Mendes
Cenas da destruição (criativa)
24 Outubro 2008, 16:12 · Pedro Machado
As bolsas estão, mais uma vez, em queda livre. Pudera, com notícias destas!
Desculpem qualquer coisinha
24 Outubro 2008, 11:18 · Tiago Barbosa Ribeiro
Quarenta anos depois, Alan Greenspan percebeu que os mercados necessitam da acção reguladora dos Estados.
Notas de crédito
22 Outubro 2008, 18:07 · André Salgado
Lendo o dr. Frasquilho sobre truques e farsas orçamentais, só me ocorre Alves dos Reis como conferencista sobre emissão de papel-moeda. Sem beliscar a competência técnica, aliás, imprescindível.
Dos números da desigualdade à desigualdade dos números
22 Outubro 2008, 16:08 · Sílvia Sousa
Coeficiente de Gini (Portugal, meados desta década)
Relatório da OCDE: 0.385
Imprensa de hoje:
Público/Diário Económico: 0.42
Jornal de Negócios/Meia Hora/Metro: 0.32
Diário de Notícias: destaque: 0.23; corpo da notícia: 0.385
24 horas: por via das dúvidas, não menciona o coeficiente de Gini…
Os números da segurança social (ou as notícias e os seus títulos)
22 Outubro 2008, 1:45 · Miguel Cabrita
É compreensível que o desempenho dos fundos da segurança social, dada a dimensão que têm mas sobretudo dada a sua natureza (provenientes de contribuições e geridos publicamente) e a função a que se destinam (garantia de pensões no longo prazo), seja objecto de um escrutínio atento por parte dos media e da opinião pública em geral. Compreensível, legítimo e, aliás, desejável.
Não espanta por isso que, em tempos de forte turbulência financeira, a evolução do Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social (FEFSS) ao longo deste ano ganhe atenção redobrada. E que, como sucede no Público de ontem, vá até ao destaque de primeira página. Até aqui tudo bem. Pena é que esse destaque seja feito em termos no mínimo equívocos. E que transforme a verdadeira notícia numa parangona de alarme completamente injustificado.
Analisando com exactidão os números, o que se verifica é que as perdas de perto de 200 milhões de euros que o jornal calcula e usa como título principal sucedem num total de…8250 milhões de euros. Sim, 8250 milhões. Se um gigante fizer um arranhão num dedo, sangra mais que um insecto esmagado: é uma questão de escala que não é muito difícil de perceber. Afinal, é para estas coisas que serve a análise em números relativos e não em absolutos.
Ora, como João Ramos de Almeida mostra na sua peça, recorrendo aos dados do Instituto de Gestão Financeira da Segurança Social, os garrafais 200 milhões de euros de perdas correspondem, na verdade, a uma das performances de topo no mercado de “produtos” comparáveis. E especialmente face à esmagadora maioria das dezenas de fundos privados de reforma, como aliás tem sucedido, ano após ano, desde que foi criado.
Acresce que o FEFSS tem uma perspectiva de longo prazo, e a sua rentabilidade é pensada numa lógica que nem deveria ser medida por um intervalo de meses. Quem se der ao trabalho de analisar a performance global do fundo desde que foi criado percebe que esta continua, claramente, no positivo e, claramente também, com rentabilidades acima da média.
Acresce que o FEFSS português, que tem - e bem - apenas cerca de 20% da carteira investida em acções, tem tido uma performance bem mais favorável que fundos dos sistemas públicos de outros países (alguns, com os sistemas de segurança social mais avançados, chegam a ter mais de 50% da carteira em acções). O longo prazo aconselha, pois, à prudência e a não depender dos segmentos dos mercados de capitais com níveis mais significativos de risco, como agora se prova.
Acresce ainda que, para não ir mais longe, o PSI20 perdeu várias dezenas de pontos percentuais ao longo deste ano, qualquer que seja o ãngulo de análise: 33,2% entre o fim de Setembro de 2007 e de 2008; 38,3% se considerarmos apenas a evolução entre 1 de Janeiro 2008 e o fim de Setembro. E as notícias de Outubro estão longe de ser boas: entre 31 de Dezembro (13019) e 21 de Outubro (6706.84) as perdas vão em cerca de 50,5%.
Em igual período, até final de Setembro, o FEFSS perdeu…3,14%. E vários outros fundos comparáveis perderam perto dos 10%.
Como salienta Ramos de Almeida - no título separador de dois segmentos do seu texto - este resultado é uma “agradável surpresa” para o escrutínio público. Não será esta a notícia?
O debate que interessa ter
21 Outubro 2008, 18:47 · Hugo Mendes
Este texto do Miguel Morgado sobre as consequências da crise para a organização do sistema internacional é, para além de sensato, muito interessante. Mostra como é possível - chegando à conclusão que estamos onde estamos não por culpa do “Estado” ou do “mercado” em abstracto, mas antes por uma convergência de disfuncionalidades de mecanismos e incompetências de indivíduos dos dois lados da barricada - discutir o futuro com alguma serenidade e sem excessos ideológicos e/ou populistas.
A certa altura, o autor escreve:
Não sei muito bem o que fazer com estas linhas. Concordo em absoluto que não teremos uma mudança ’sistémica’ (do ‘capitalismo’ para outro ‘ismo’ qualquer, nem um regresso a sistemas socialistas); mas as mudanças de política podem ter um impacto, senão sistémico, pelo menos na infra-estrutura institucional de produção e distribuição de riqueza de forma a alterar consideravelmente o funcionamento de alguns mecanismos importantes dos arranjos actuais. A assunção - que não a defesa - de que há espaço para mudanças de política(s) é, parece-me, algo de extraodinário (e positivo), pelo menos para quem não tem o objectivo último de encontrar alternativas sistémicas.
E se o nosso objectivo não for esse, a instituição de «maior ou menos regulação» - ou, como seria prefível dizer, de mudança de algumas regras institucionais - pode alterar algumas coisas substanciais (e aqui discordo do autor) . Por exemplo, se abolíssemos, como o Ministro das Finanças italiano parece defender, os hedge funds; ou, como parece defender François Fillon, acabássemos com os “paraísos fiscais”; ou se limitássemos a liberdade de circulação de capitais onde ela existe, poderíamos seriamente dizer que «no essencial, nada mudou»? Se isto for a condição retórica para que a esquerda e a direita possam chegar a um acordo neste sentido, então valeria a pena, provavelmente, concordar.
O capitalismo continuaria vivo, sem dúvida - mas seria um capitalismo muito diferente do último terço de século. E, muito provavelmente, para melhor: é que o recente crescimento espectacular de países como a China ou a Índia, que os mais ortodoxos defensores do “capitalismo” apontam como sendo a prova da sua vitória histórica, em nada dependem do capitalismo financeiro que os países mais ricos da OCDE souberam ou quiseram impor a uma boa parte do globo.







