A tragédia de Gaza
28 Dezembro 2008, 0:46 · Tiago Barbosa Ribeiro
Os números brutais da escala militar em Gaza suscitam espanto, terror, tristeza. O território de onde Israel saiu voluntariamente e que entretanto se transformou na linha avançada da estratégia iraniana para o Médio Oriente, um «Hamastão» crescentemente militarizado e islamizado, é hoje uma região asfixiada. As primeiras vítimas do Hamas são os palestinianos, cuja tragédia é um salvo-conduto ideológico. Israel atacou a infra-estrutura militar do Hamas - quartéis, esquadras, rampas de lançamento de mísseis, campos de treino - e matou 300 palestinianos, na sua maioria «civis fardados», o que em si mesmo deve suscitar as maiores interrogações sobre a utilização de escudos humanos em Gaza.
Mas o resultado do ataque coloca Israel perante uma tragédia cujas proporções impedem quaisquer resultados políticos no seio da Autoridade Palestinana e da comunidade internacional, que é incomparavelmente mais crítica das intervenções israelitas do que do milicianismo integrista do Hamas e de outros movimentos-satélite do Irão. E essa vigilância crítica impõe-se, de facto, já que o escrutínio de um Estado democrático e com forças armadas convencionais não está no mesmo patamar de um movimento paramilitar. Sucede que esse movimento fustiga diariamente as populações civis israelitas com ataques militares, feitos por militares sem farda que suspenderam uma trégua contra um país cuja existência não aceitam reconhecer. A paz e o fim de um conflito com décadas implica cedência e negociação, num processo doloroso para ambas as partes. Mas desde logo são necessárias duas partes para ceder e negociar. Israel, até ver, é só uma.
:: A ler :: «Consoada em Israel, Natal em Gaza», do Rui Bebiano.
À semelhança dos povos de Cuba, China, Vietname, Laos e Coreia do Norte?
1 Dezembro 2008, 20:21 · Tiago Barbosa Ribeiro
Jerónimo de Sousa afirmou que o PCP será poder «quando o povo português quiser». Ao contrário de outros povos que vivem em países glorificados pelos comunistas, ficamos todos mais descansados.
Projecto de Teses do XVIII Congresso do PCP
«Importante realidade do quadro internacional, nomeadamente pelo seu papel de resistência à «nova ordem» imperialista, são os países que definem como orientação e objectivo a construção duma sociedade socialista - Cuba, China, Vietname, Laos e R.D.P. da Coreia (…)»
Justiça social segundo Mateus (1)
26 Novembro 2008, 19:43 · Mariana Trigo Pereira
“(…) Chamou os empregados e encarregou-os de lhe tomarem conta da riqueza. A um entregou 500 moedas, a outro 200 e a outro 100, a cada um segundo as suas capacidades. Depois disto, saiu. O que recebeu as 500 moedas foi logo negociar com elas e veio a ganhar outras 500. O que recebeu 200 fez o mesmo, e veio a ganhar outras 200. Mas o que recebeu as 100 moedas fez um buraco na terra e escondeu lá o dinheiro do patrão.
Passado muito tempo, o patrão voltou e fez contas com eles. Apresentou-se o que tinha recebido as 500 moedas e entregou ao patrão mais 500 e disse: «O senhor entregou-me 500 moedas. Aqui estão mais 500 que eu consegui ganhar.» Disse-lhe o patrão: «Muito bem! És um empregado bom e fiel Já foste fiel nas coisas pequenas, eu te confiarei as grandes. Vem tomar parte na felicidade do teu patrão!»
Apresentou-se também o que tinha recebido as 200 moedas e disse: «O senhor entregou-me 200 moedas. Aqui estão mais 500 que eu consegui ganhar.» - disse-lhe o patrão: «Muito bem! És um empregado bom e fiel Já foste fiel nas coisas pequenas, eu te confiarei as grandes. Vem tomar parte na felicidade do teu patrão!»
Depois apareceu o que tinha recebido as 100 moedas, e disse: «Eu sabia que o senhor é um homem duro, que ceifa onde não semeou e junta onde não espalhou. Por isso tive medo, e fui esconder as 100 moedas num buraco. Aqui está o que é seu.» E o patrão disse-lhe: «És um mau trabalhador e preguiçoso. Sabias que ceifo onde não semeei e junto onde não espalhei. Então devias ter posto o meu dinheiro no banco, para eu, ao regressar, receber o que era meu com os respectivos juros.» Depois deu estas ordens: «Tirem-nas as 100 moedas e dêem-nas ao que recebeu as 500.»
Pois, a todo aquele que tem, mais se há-de dar e terá de sobra, mas àquele que não tem, até o pouco lhe será tirado. Quanto a esse empregado inútil, ponham-no lá fora na escuridão. Ali haverá choro e ranger de dentes.”
Mateus, cap.25, vers. 14-30
(ou A Ética Cristã e o Espírito do Capitalismo)
A clarificação do impasse
25 Novembro 2008, 12:15 · Miguel Cabrita

A situação dos socialistas franceses recorda, como se fosse preciso, a complexidade e delicadeza dos processos democráticos, especialmente em situações de grande equilíbrio.
É verdade que não se tratará apenas de questões de programa, estratégia e discurso; há sempre outros factores a interferir nas contabilidades eleitorais. Mas estas eleições têm sido disputadas em larga medida como uma escolha entre orientações distintas para o PSF. Por isso, mais do que o quase empate (escassos votos separam as candidaturas num universo de 135000 votantes) entre duas pessoas, não deixa de ser irónico que tensões que têm percorrido a social-democracia europeia nos últimos anos tenham agora uma expressão tão dramática no contexto já de si difícil do PSF, com uma história recente marcada por profundas fracturas internas, pelo enquistamento de facções demasiado personalizadas e pelo espectro de uma longa permanência na oposição.
Quando era tão necessário renovar a agenda e criar condições retomar a iniciativa política, o pior que podia acontecer era uma longa e amarga disputa processual, que parece em definitivo escorregar para terrenos muito perigosos. Estes processos deixam inevitavelmente feridas, internas e na imagem externas, e acima de tudo têm o condão de desvalorizar, quando não de hipotecar ou fracturar, o prémio em disputa.
Não se sabendo ainda até onde irá a luta, estão em aberto todos os cenários. Mas uma coisa é certa: quem ascender à liderança terá uma legitimidade e uma margem de manobra muito curtas. E corre o sério risco de herdar um partido seriamente posto em causa, se não houver capacidade institucional para impor como legítima uma decisão e uma enorme dose bom senso dos actores envolvidos, duas variáveis no mínimo incertas. Neste processo eleitoral, a única clarificação que há no PSF é a do impasse real em que o partido - e o socialismo francês - se encontra.
Porque é que Hillary perdeu
19 Novembro 2008, 15:42 · Rui Branco
Quem viu o «War Room» se calhar lembra-se dele. Howard Wolfson era o tipo alto de barba meio ruiva que aparecia de vez em quando a olhar para Carville e Stephanopoulos, de braços cruzados, às vezes com ósculos escuros, pensativo.
Nas primárias da nomeação democrata, Wolfson era o «director de comunicações» da campanha de Hillary (o Toby Ziegler, portanto). A campanha parece que correu mal, como se sabe. Abundaram as teses e as exumações, depois menos, e se calhar agora outra vez mais.
No final das primárias, Wolfson tornou-se comentador da Fox News (fair and balanced, topam?), abriu um blog no site da New Republic, e regressou a uma paixão antiga (peço desculpa pelo tom taxonómico involuntário), a música indie. E tem um blog porreiríssimo a mostrar isso mesmo, o Gotham Acme.
Há muitas teorias sobre as razões pelas quais Hillary perdeu a nomeação democrata. Uma, ele pode haver outras: Hillary teve muitos, muitos votos, mas Obama teve mais. E parce que mais delegados também. Mas, se quisermos ser mais analíticos e rigorosos, sugiro aqui esta outra, que me parece ser das melhorzinhas até agora.
Uma campanha que entre «Suddenly I See» de K T Tunstall e «You and I» de Celine Dion escolhe a Celine Dion para a música da campanha - está tudo dito (e mais duas palavrinhas: Mark Penn e mais quem o contratou e não o despediu ou não despediu a tempo).
Como Wolfson entretanto contou com piada, ele na altura previu meio a brincar que essa seria uma escolha fatídica, que seria o fim da campanha. E foi mesmo. Tudo isto é recordado no Gotham Acme, no post «Election turning points», e no New York Times:
«Brainstorming sessions ensued. The Iowa caucuses could wait — this was serious business.
Ideas were put forward: Motown, disco, ballads. I pushed K T Tunstall’s “Suddenly I See” because it seemed empowering and upbeat. It was immediately criticized. What about the singer’s use of the word “hell”?
Everyone had favorites, and every favorite had its detractors. We studied lyrics and performer biographies. We downloaded possibilities and listened. Some of us danced, while others sat and frowned.
Get Ready” by the Temptations? Too sexual. “Rhythm Nation” by Janet Jackson? What about that unfortunate wardrobe malfunction?
To break the stalemate, we sponsored an online contest for supporters and gave them options to choose from. The votes and commentaries rolled in. Celine Dion’s “You and I” was selected, a decision I jokingly predicted would signal the end of the campaign.»
Nada como abrir o melão para ver: K T Tunstall vs. Celine Dion
Obama, o voto “branco” e a democracia
12 Novembro 2008, 16:47 · Miguel Cabrita
Tinha-me passado despercebido este dado, que gostava de dedicar aos cínicos da praça:
“Mr. Obama lost the white vote, it is true, by 43-55%; but he won exactly the same share of it as the last three (white) democratic candidates: Bill Clinton, Al Gore and John Kerry. And he won heavily among younger white voters.” (Economist, 8 Novembro, p.13)
Para além dos resultados globais - e da vitória - que já o indiciavam, este tipo de elementos mostra que o espectro de Bradley foi mesmo só isso, um espectro. E que a relevância do voto “étnico” não desvaloriza a eleição de Obama, porque não se fez pela negativa mas sim pela positiva: por ter agregado novos votantes e por ter mobilizado muitas pessoas que normalmente não votam.
www.change.gov
7 Novembro 2008, 13:27 · Hugo Mendes
A pedido de várias famílias confrontadas com os inícios de uma depressão pós-eleições [DPE], Barack Obama já lançou o site onde podemos acompanhar todo o processo de transição para a sua administração.
No cabeçalho, uma frase que mostra como os críticos da “Obamania” não perceberam grande coisa do significado da mensagem de Obama: «Today we begin in earnest the work of making sure that the world we leave our children is just a little bit better than the one we inhabit today».
Barack Obama é “jovem, bonito e está bronzeado”
7 Novembro 2008, 11:25 · Rui Branco

De facto, Deus nos salve de Berlusconi.
Ich bin ein Amerikaner
6 Novembro 2008, 23:48 · Pedro Machado

Obama Victory party at the Hilton Hotel, USA. Virgina. McLean. November 4, 2008. © Peter van Agtmael/Magnum Photos
West Wing, season 8 começa
6 Novembro 2008, 19:35 · Rui Branco
Josh Lyman, perdão, Rahm Emanuel, acaba de aceitar a posição de chefe de gabinete na West Wing de Matt Santos, perdão, Barack Obama. Esta nomeação coloca-nos vários problemas de narratologia e epistemologia. Ficção e realidade tornam-se uma só (facto também notado por Pedro Marques Lopes). Primeiro, foi a série que se inspirou na realidade (quem viu o War Room e se lembrar da cena da galinha para chamar mariquinhas a quem não quer debater percebe do que estou a falar). Joshua «Josh» Lyman, o deputy chief of staff na West Wing de Bartlett, foi inspirado em Rahm Emanuel, politial adviser na Casa Branca de Clinton. Na 6.ª época, e aproximando-se o final do segundo mandato de Bartlett, Josh tem a ideia de ir desafiar um congressista hispânico, Matt Santos (Jimmy Smits), para concorrer às primárias democráticas. O discurso de Obama em 2004 terá inspirado Aaron Sorkin, o criador e argumentista de West Wing, para esta possibilidade (que o próprio já confirmou), a de um presidente não branco, meio desconhecido, que levanta um país com o poder de uma ideia simples: mudança. Depois de umas duras primárias, Matt Santos ganha a nomeação democrata; na época seguinte, Santos ganha a eleição presidencial contra um nomeado republicano desalinhado, decente, respeitável e respeitado pelos democratas (o magnífico Alan Alda), em quem muitos julgaram ver McCain, e bem. Santos, o primeiro presidente hispânico. O que é curioso é que a personagem de Santos sempre se recusou a correr como hispânico-americano; correu apenas como americano. Também ele enfrentou questões raciais fortes, que superou, percebendo bem, como Obama, que se corresse como o típico e previsível candidato chicano, com uma agenda política nascida e limitada por esse facto adscritivo, nunca poderia ganhar ou nunca poderia ganhar da única maneira que valia a pena ganhar, isto é, transcender as linhas de clivagem étnica. A 7.ª época de West Wing termina com a formação do primeiro governo de Santos, do qual Josh é, naturalmente, o chefe de gabinete. O último episódio da última época do West Wing foi para o ar em 14 de Maio de 2006. A ficção copiou a realidade e depois a realidade copiou a ficção. A 8.ª época começa.

«Venha ver o preto que você gosta»
6 Novembro 2008, 16:28 · Filipe Nunes

Chorei junto com ele. Nem gosto das coisas que ele diz – seja no caso da palavra “nigger” que um rapper queria pôr como título de seu CD, seja na própria campanha de Obama: Jackson soa como um velho lutador racialista; Obama é um presidente mulato. Jackson chorava como um homem velho que vê a grandeza de um fato consumado suplantar a dos seus maiores sonhos.
Os cínicos têm sempre razão
6 Novembro 2008, 13:44 · Hugo Mendes
António Barreto escreve hoje no “Público” sobre Barack Obama:
Gostava de saber como é que António Barreto (e todos os que pensam como ele) acha(m) que o “mundo inteiro” deposita em Obama «esperanças ilimitadas». Isto é um completo non-sense que, repetido até à exaustão, mostra a incapacidade para perceber o que está em causa.
E o que está em causa talvez seja apenas isto: dado que ninguém acreditava que George W.Bush tivesse vontade e competência para resolver praticamente nenhum destes problemas, o facto de aparecer alguém que inspire alguma confiança e que indique que alguns deles possam começar a ser tackled é, só por si, visto como extraordinário. Isto advém menos do suposto messianismo de Obama (para os cínicos, quem aparece com uma mensagem de esperança é sempre um “messias”, já sabemos) do que do completo descrédito em que caiu a administração Bush que, no que toca a uma série de problemas acima listados, não resolveu uns, agravou outros, e negou a existência de outros tantos.
Resumindo: para Barreto e outros, o problema não o legado desastroso da administração Republicana; o problema mesmo é o facto de Obama se propor identificar e a procurar ajudar/começar a resolver uns quantos problemas domésticos e internacionais. Isso sim, é que é digno de chacota. É preciso ter lata.
Aditamento: no editorial do mesmo jornal, José Manuel Fernandes afirma que «Agora falta provar que essa vontade que move montanhas é suficiente para remover todos os obstáculos que a América tem pela frente». Desculpem, mas: «todos os obstáculos»? Isto não é apenas completamente irrazoável (Obama, como pessoa de bom senso, nunca propôs tal coisa), como é uma estratégia desonesta para avaliar um político, colocando sob os seus ombros o fardo de um perfeccionismo “de palha” que torna a tarefa do crítico demasiado fácil. Se as pessoas votassem apenas em políticos que promotessem resolver todos os problemas, a política - enquanto acção imperfeita num mundo complexo - deixava de fazer sentido. Coisa que, imagino, deixasse muitos satisfeitos.
We can believe in
6 Novembro 2008, 13:02 · Filipe Nunes

Continua a relativização do impacto de Obama na política externa americana. Parece que afinal estamos apenas perante uma mudança de estilo e não de substância. Como se, depois do Iraque e de Guantanamo, o estilo não fosse a substância. Se Obama for fiel a Obama, podemos mesmo acreditar na mudança:
«We are playing to Osama’s plan for winning a war from a cave. The struggle against Islamic-based terrorism will be not simply a military campaign but a battle for public opinion in the Islamic world, among our allies & in the US. Osama bin Laden understands that he cannot defeat the US in a conventional war. What h & his allies can do is inflict enough pain to provoke a reaction of the sort we’ve seen in Iraq–a botched & ill-advised US military incursion into a Muslim country, which in turn spurs on insurgencies based on religious sentiment & nationalist pride, which in turn necessitates a lengthy & difficult US occupation. All of this fans anti-American sentiment among Muslims, & increases the pool of potential terrorist recruits. That’s the plan for winning a war from a cave, & so far, we are playing to script. To change that script, we’ll need to make sure that any exercise of American military power helps rather than hinders our broader goals: to incapacitate the destructive potential of terrorist networks and win this global battle of ideas.» The Audacity of Hope, Barack Obama, p.307
«In almost every successful social movement of the last century (…) democracy was the result of a local awakening. We can inspire and invite other people to assert their freedoms (…) But when we seek to impose democracy with the barrel of a gun, funnel money to parties whose economic policies are deemed friendlier to Washington, or fall under the sway of exiles like Chalabi whose ambitions aren’t matched by any discernible local support, we aren’t just setting ourselves up for failure. We are helping oppressive regimes paint democratic activists as tools of foreign powers and retarding the possibility that genuine, homegrown democracy will ever emerge.» The Audacity of Hope, Barack Obama, p.317
PS: Este post é dedicado ao nosso camarada Humberto Bernardo, «o primeiro português a apontar Barack Obama como próximo presidente».
Danos colaterais
5 Novembro 2008, 21:58 · André Salgado
O Henrique Burnay, honra à sua pessoa, pertence ao restrito clube de portugueses que detêm o exclusivo de gostar mesmo, mesmo, mesmo da América, conferindo-lhe nobre distinção dos obamistas deste rectângulo. É também um exímio blogger, conciliando com sageza a concentração escrita com o trautear do Star-Spangled Banner, o que pôs à prova ao disparar, a intervalo de verso, duas dúzias de amarguradas notas pessoais pelo desfecho obamista.
Das duas dúzias, assume especial interesse esta, onde o Henrique consegue, das caves do seu desânimo, arrancar um sopro e lançar um aviso à esquerda europeia sobre o engano da sua afectividade obamiana; essa pobre e ingénua esquerda que não se apercebe que todo o programa político americano, mesmo democrata, está tão à direita da direita. É isto particularmente interessante por encerrar, além de um bushismo mal resolvido, um mito recorrente de alguma direita. Um mito que confunde indiferenciação programática (o que não corresponde de todo à verdade), as diferenças de qualidade dos interlocutores e um estranho pulsar que, em opinião do Henrique, deveria levar quem gosta da América – ainda que menos que o Henrique, não tenhamos ilusão, que esta é só para quem a merece - a abraçar a adopção do programa político das administrações americanas. Talvez esta confusão do Henrique explique a razão de Barroso e Portas terem abraçado de forma tão efectiva os caprichos de agenda do programa da administração Bush. O que não resolve são os labirintos do sótão de alguma direita, que não consegue conceber que não é proprietária do direito de gostar da América.
Nem nos elucida das razões de fundo para o Henrique, afinal, ter ficado com tanta azia pela vitória de um programa político que de esquerda nada tem. De qualquer forma, obrigado Henrique, a esquerda ficará penhorada. E coragem, são só quatro anos.
Catatónico (eu vejo a Fox porque a Clix só tem a Fox)
5 Novembro 2008, 21:13 · Rui Branco
Entre as várias leituras argutas dos resultados da eleição de ontem sem esquecer o turnout, o Juan Williams a chorar na Fox, a exegese sobre a natureza do mandato recebido, os acertos de contas e as cobras de apostas, as especulações sobre a formação do governo, a reconstrução do Partido Republicano, a última estupidez do Mark Penn no Financial Times, saber quais as sondagens que mais acertaram, o Shepard Smith a grelhar o Ralph Nader na Fox - e parece que ao Rahm Emanuel foi mesmo oferecido o chief of staff (de Josh para Leo, portanto) -, sugiro uma coizita bastante aconchegante, isto.
Disseram…”escassez”?
5 Novembro 2008, 20:43 · Hugo Mendes
Agora que Bush vai deixar o país em pantanas, a começar pela dívida orçamental que ameaça cercear as decisões futuras de Obama, os Republicanos temem pelo futuro do país nas mãos de um presidente Democrata. David Brooks termina o seu artigo no NYTimes sobre o problema genérico da “escassez” desta forma:
Os desafios são seguramente sérios. Mas há algo aqui que não bate certo. Afirmar que os Democratas não são capazes de reconhecer o problema nem fazer a ele face é ignorar as realidades recentes da política norte-americana. Quem é que arrastou os pés, durante todos estes anos, na procura de uma solução para o problema da independência energética? A administração Bush. Quem é que continua a duvidar dos sérios problemas climáticos e de escassez de recursos naturais que irão acompanhar, senão arruinar, as próximas gerações? A administração Bush. Quem é que foi incapaz de evitar o progressivo crescimento das despesas de saúde, ao mesmo tempo que subia o número de cidadãos sem seguro de saúde? A administração Bush. Quem é que deixou o défice orçamental atingir níveis históricos? A administração Bush.
Com este currículo, é natural que os cidadãos norte-americanos tenham concluído da incompetência de uma administração Republicana para gerir o problema da escassez de recursos de variada ordem.
Mas atenção: isto não é apenas uma questão de incompetência. É uma política despesista directamente inscrita na filosofia socioeconómica do Partido Republicano (excluindo a sua ala libertária): num país em que a delegação de responsabilidades ao Governo federal é visto como uma espécie de totalitarismo soft, entrega-se ao mercado uma boa parte do funcionamento de certas áreas sociais. O caso da saúde é paradigmático. O que torna o sistema norte-americano tão caro - o mais caro (e, provavelmente, ineficiente) do mundo próspero - são os favores prestados à indústria farmacêutica e aos planos de saúde privados. Isto, atente-se, não tem nenhuma tradução directa no bem-estar agregado da população nem com ganhos de saúde internacionalmente medidos por indicadores vários (que mostram, diga-se, performances medíocres); são situações explicadas pela captura do Estado – federal ou estatal -, em mãos Republicanas, por interesses privados que aquele não é capaz nem está interessado em combater.
E porque não está interessado em combater? Porque o resultado final, de ponto de vista conservador, é simplesmente perfeito: dívida orçamental a subir (o que coloca em causa a sustentabilidade das políticas sociais futuras) + confirmação da incompetência governamental (que desgasta a confiança dos cidadãos, que pensarão, claro, que more government is the problem) + lucros privados a crescer (alimentando empresas que vão tornar-se mais capazes, no futuro, de continuar a ‘extorquir’ dinheiros públicos), ou seja, uma espécie de melhor dos mundos, numa área onde o bem-estar da população nunca deixará o segundo plano.
O desafio é sério para os Democratas. O problema é que, convém não esquecer, os Republicanos lidaram com estas questões com um misto de incompetência, negação e feel good ideológico.
Por isso, não é preciso um ser socialista radical para chegar à mesma conclusão do NYTimes no editorial de hoje: «His [Obama] triumph was decisive and sweeping, because he saw what is wrong with this country: the utter failure of government to protect its citizens».
People(*) have the power
5 Novembro 2008, 18:07 · O País Relativo
Ali na coluna ao lado, a nossa homenagem à noite memorável de ontem.
(*) OK, é o colégio eleitoral…
Uma noite histórica
5 Novembro 2008, 17:18 · André Salgado
Tivemos o privilégio de assistir na última noite a um momento que ficará gravado na história, que se recordará por muitos anos e mesmo gerações. E nós, privilegiados, poderemos contar, a filhos e netos, que estávamos lá, pasmados, em frente aos ecrãns, assistindo à história a acontecer diante dos nossos olhos.
Trazendo à memória o célebre discurso de Kennedy em Berlim, honrando o sonho de Luther King, redescobrindo a abençoada esperança, em comunhão de raças e credos, brancos, negros, louros, morenos, até na diversidade de nacionalidades, unidas na esperança emocionada de mudar o mundo. Este mundo, o nosso mundo.
Esta, meus amigos, será recordada como a noite em que o Sporting Clube de Portugal descobriu que afinal se continua a jogar após a fase de grupos da liga dos campeões.
Vencer é fácil
5 Novembro 2008, 14:45 · Mariana Vieira da Silva
“Em dia de afluência histórica, vencer foi só o mais fácil”, é esta a legenda da fotografia de capa que o Público escolheu. Hoje, como se pode ver aqui, o mais dificil deve ter sido ter uma ideia tão original.
Onda azul
5 Novembro 2008, 13:43 · João Jesus Caetano
A vitória de Barack Obama nas presidenciais foi acompanhada por uma nova configuração do Senado e da Câmara dos Representantes. Durante os próximos dois anos, espera-se dos 56 senadores (em 100) e 250 representantes (em 435) democratas um apoio claro às políticas estruturantes de Barack Obama - na energia, na saúde, na educação, na regulação do sistema financeiro, na dinamização do tecido micro-empresarial e no campo fiscal - para além das escolhas para o topo do sistema judicial.
Este novo mapa político começou a ser construído há pouco mais dois anos, quando durante a campanha para as eleições intercalares do Congresso, Howard Dean decidiu que o partido Democrata deveria apoiar inequivocamente (leia-se injectando dólares) candidatos em círculos outrora considerados bastiões republicanos. Esta maior amplitude e incidência geográfica do campo de campanha democrata, associada ao prolongamento das primárias, permitiu construir e motivar uma base de apoio a Barack Obama e a muitos dos democratas ontem a sufrágio.
Não é por acaso que Colorado, Virgínia e Carolina do Norte, os dois últimos tradicionalmente mais republicanos do que o primeiro, votaram com Obama e com os candidatos democratas ao Senado. Noutros estados de um sul mais profundo ou circundantes das Rockies, onde o determinismo demográfico é mais claro, Obama não venceu, mas o partido Democrata conquistou importantes distritos congressionais.
Daqui a dois anos, voltam a ser escolhidos os 435 representantes e um terço dos senadores. Neste momento, a coesão parece evidente, mas há riscos associados; cabe a Obama gerir e coordenar as expectativas desta alargada base legislativa de apoio.
As palavras de ontem
5 Novembro 2008, 13:33 · Miguel Cabrita
Da noite de ontem restará muito mais do que palavras. Mas. para mais tarde recordar, vale a pena registar as que foram proferidas: o discurso de vitória de Barack Obama (partes 1 e 2) em Chicago e o discurso de John McCain em Phoenix.
Mr. President
5 Novembro 2008, 5:02 · O País Relativo

United they stand
5 Novembro 2008, 4:45 · Mariana Vieira da Silva
Esta noite faz-se de muitos fins, mas alguns são maiores que outros.
Eleições EUA
5 Novembro 2008, 4:14 · O País Relativo
O Hugo Mendes e o João Jesus Caetano, entre outros, continuam em vídeo directamente do Portugal Diário.
Títulos simples
5 Novembro 2008, 4:10 · João Jesus Caetano
«Red states turning blue on U.S. map» [CNN]
Bradley effect
5 Novembro 2008, 3:50 · Mariana Vieira da Silva

Venha a Flórida…
5 Novembro 2008, 2:46 · Hugo Mendes
e abra-se o champagne.
Live blogging?
5 Novembro 2008, 2:33 · João Jesus Caetano
Está difícil postar; o debate na redação é constante. Talvez o melhor seja segui-lo em directo aqui.
North Carolina
5 Novembro 2008, 2:01 · João Jesus Caetano
Através da exit polls, Obama terá entre 50 e 52% dos votos na Carolina do Norte.
Como a expansão irresponsável dos gastos públicos é a melhor estratégia para reduzir, a prazo, o Estado
5 Novembro 2008, 1:45 · Hugo Mendes
Muito se fala de como a dívida orçamental (e a dívida pública) do Governo Federal que marca o legado de Bush coloca em risco muitas das reformas prometidas por Obama, em particular na área das políticas sociais.
Os apoiantes do Partido Republicano dizem-se como que ‘traídos’ pela política despesista da administração Bush.
Não sei muito bem se Bush tinha algum projecto sério de free-market liberalism. Esta pode ser uma leitura cínica, mas sempre me pareceu que a sua estratégia era abusar da irresponsabilidade fiscal para se poder argumentar, hoje e no futuro, que, afinal, o Governo Federal tem tantos encargos que, afinal de contas, não há outra saída senão privatizar a Segurança Social, cortar no Medicare e o Medicaid, etc. A forma de reduzir o Estado - de atingir o que Grover Norquist uma vez colocou de forma expressiva: «I don’t want to abolish government. I simply want to reduce it to the size where I can drag it into the bathroom and drown it in the bathtub» - é esticá-lo até aos limites. À irresponsabilidade fiscal de Bush seguir-se-ia, claro, o freeze spending de Mccain.
Cabe a Obama mostrar que o Governo Federal tem as despesas sob controlo - e que, apesar de tudo, garanti-lo não impede a expansão do Estado social norte-americano.



