A batalha por Lisboa

29 Dezembro 2008, 19:28 · Miguel Cabrita

Com oportunidade, o Expresso noticiava a “larga margem” que uma recente sondagem dá a António Costa em Lisboa: 40% contra 25 do PSD. 

Não restarão muitas dúvidas de que os expressivos 40% da sondagem são um salto importante em relação aos 30 que garantiram a António Costa a vitória nas eleições intercalares. E que correspondem a um justo reconhecimento do bom trabalho que está a ser feito em condições que são conhecidas.

Mas que “larga margem” é esta, no fundo? Desde logo, é um resultado que não garantiria condições de governabilidade mínimas à cidade. E é uma previsão obtida num momento em que, já para não falar do PCP, CDS e BE ainda não indicaram candidatos nem se sabe sequer se terão candidatos autónomos. Além disso, no tempo que falta até às eleições - fértil em disputas eleitorais - muita coisa poderá acontecer a vários níveis, com repercussões imprevisíveis em Lisboa.

Desengane-se quem se deixar iludir pelas anunciadas facilidades e achar que este tipo de sondagens permite algum tipo de ”descanso” sobre o resultado das eleições na câmara mais importantre do país. A batalha, pela dispersão de votos à esquerda e pela complexidade da situação política, vai ser dura, longa, e dependerá de muitos factores, incluindo o próprio xadrez eleitoral local. Se há erros que custam caro, pensar por um só momento o contrário seria certamente um deles.

Das estações

26 Dezembro 2008, 12:08 · Tiago Barbosa Ribeiro

Nunca, nos últimos 15 anos, me tinha apercebido da relevância desportiva do título de campeão de Inverno. Outras possibilidades, como o campeão do Carnaval, da Páscoa ou dos Santos Populares, permitirão certamente alargar a riqueza etnográfica do campeonato português de futebol e consolidar o registo desportivo de alguns clubes do burgo. Pelo menos, enfim, enquanto não existe uma Taça UEFA de Verão.

Caricaturas

22 Dezembro 2008, 19:16 · Miguel Cabrita

CItado pelo Sol de Sábado, o representante de um movimento que se escolheu chamar Mobilização e Unidade dos Professores (MUP), acha ser “caricato que todos os dias o Ministério resolva alterar mais uns pozinhos ao seu modelo [de avaliação] inicial“, que considera estar hoje reduzido a uma “manta de retalhos” (20 Dezembro 2008, p16).

De facto, é caricato: que aspectos importantes do modelo de avaliação dos professores já tenham sido mudados, indo de encontro às pretensões dos sindicatos e dos professores mas que isso, afinal, não sirva para nada; que uma MInistra seja acusada de ser inflexível quando está, afinal, disposta a dialogar sem pré-condições e, pelo contrário, outros que tanto se queixam da falta de diálogo boicotem desta maneira qualquer negociação séria, impondo condições (sobre matérias que não a avaliação, ainda por cima) para sequer se sentar à mesa.

As condições subjectivas da revolução

19 Dezembro 2008, 11:28 · Tiago Barbosa Ribeiro

O sindicato da TAP confirma que a adesão à greve é superior a 100%. Enfim, não sabia que a matemática também já é contra-revolucionária.

Nunca gostei de pescadinhas de rabo na boca

19 Dezembro 2008, 1:24 · Miguel Cabrita

Andamos há meses nisto.

Os sindicatos de professores não queriam a avaliação “entre pares”, por supostamente causar danos irreparáveis ao ambiente de trabalho nas escolas, entre “colegas”. Mas, ao mesmo tempo, exigem a “revisão” do Estatuto da Carreira Docente e o fim da figura do “professor titular” - essencial para que a avaliação pudesse não ser “entre pares” mas sim entre categorias hierarquicamente distintas de docentes.

Por outro lado, não estariam dispostos a aceitar uma avaliação externa, porque seria feita por entidades e profissionais estranhos às escolas - como se isto fosse algo que não é feito, e bem, em tantas organizações, mas adiante. No entanto, também não querem avaliar-se uns aos outros, chegando a ser usado o argumento de que “não foram treinados para isso” (!).

Mais recentemente, novo truque. 

A primeira versão do modelo de avaliação era inaceitável porque este era excessivamente burocratizado, complexo, incomportável, inexequível. No entanto, as sucessivas propostas de simplificação e melhoria são liminarmente rejeitadas por serem “remendos”, irrelevantes, inúteis. Ou, na nova versão, tentativas de “comprar os professores”, como ouvi Mário Nogueira dizer por estes dias perante as câmaras de televisão.

A recorrente circularidade dos argumentos é um péssimo sinal da falta de lisura e de seriedade com que este debate tem sido conduzido. Há milhares e milhares de Professores que merecem, e não é de agora, o ”p” maiúsculo que se tornou moda invocar; mas, por isso mesmo, não merecem as Pescadinhas (com maiúscula também) que têm sido trazidas para a mesa em seu nome.

Matemática ou a economia de pensamento como forma de arte

16 Dezembro 2008, 12:15 · Sílvia Sousa

“Professora: Abram os vossos livros na página 6. Porque estamos a começar na página 6 e não na página 1?

Aluno: O livro tem uma capa com o nome e o ano do livro. Essa é a página 1. Depois há uma capa interna, a página 2. A página 3 é a introdução. Depois há o índice, nas páginas 4 e 5. O texto apenas começa na página 6.

Professora: Muito bem. O que vemos ao iniciar um novo capítulo?

Aluno: Um título.

Professora: Porquê?

Aluno: O título ajuda-nos a compreender o que vamos estudar.

O que é simpático neste diálogo? Em primeiro lugar, a maioria dos professores teria saltado esta fase (eu certamente teria). Tal omissão deixa a criança com uma espécie de branca, uma área que não merece reconhecimento - o que acontece até à página 6? Em segundo lugar, o diálogo encorajou o saudável hábito de ler as introduções e os títulos e de lhes prestar alguma atenção.”

Ron Aharon (2008), Aritmética para pais - Um livro para adultos sobre a matemática das crianças, Gradiva

É a segunda vez em menos de uma semana…

13 Dezembro 2008, 20:42 · Miguel Cabrita

…que o Público repete a brincadeira de mau gosto de aparecer embrulhado num lençol publicitário. Desta vez, não a um supermercado mas à grande superfície proprietária dos supermercados do outro dia.

Ainda não chega para competir com o incontável número de vezes que se repetem, semana após semana, as setas para baixo de certas figuras ministeriais seleccionadas. Mas, a manter-se o ritmo, a competição pode tornar-se renhida.

Direitos de propriedade: a escola de quem?

12 Dezembro 2008, 20:27 · Miguel Cabrita

Na entrevista que deu ontem a Judite de Sousa, Francisco Louçã refere às tantas vários exemplos recentes da possibilidade de convergências “à esquerda”. Um deles seria o sentido de voto comum sobre o “direito dos professores a defender a sua escola”.

Numa só frase, Louçã é exemplo bem significativo do que está errado nos pressupostos de alguns dos argumentos (usados também por figuras “muito de esquerda”) no que deveria ser um debate sobre aspectos essenciais do sistema educativo. Desde logo, que o enfoque essencial do debate sobre a avaliação de professores deva ser centrado em questões de “direitos dos professores”. E por outro lado, na linha de discursos que o Hugo já aqui referiu, que a escola seja sobretudo dos professores (e um assunto deles), secundarizando todos os outros interesses - entre os quais o dos alunos e o da qualidade do desempenho do(s actores no) sistema.

Não é frequente ver um revolucionário tão empenhado na primeira linha da defesa dos direitos de propriedade - mesmo que, neste caso, de um grupo profissional sobre a escola pública. Mas pelo menos fica mais claro quem e o que está, para algumas pessoas, em causa.

Está alguém em casa?

11 Dezembro 2008, 17:14 · André Salgado

O líder parlamentar do PSD anunciou, como forma de reparar moralmente a falha nas votações da passada sexta-feira, que o grupo parlamentar social-democrata vai apresentar um projecto de lei no sentido de suspender o actual modelo de avaliação dos professores. Resta saber, para que o mea culpa seja consequente, se serão os 30 deputados faltosos a assumir a obrigação de elaborar o diploma.

E mais adiantou Paulo Rangel: que o diploma propõe a suspensão do modelo em vigor, um modelo transitório, qualquer que ele seja (sic), e um novo modelo para 2009/2010. Que modelo, não se sabe. O que não difere muito de propor a suspensão do chuvisco e um momento transitório assim-assim, a ver se vem aí sol.

Pena foi que só 30 deputados tenham faltado à votação. Tivessem sido, vamos supor, entre 40 a 50 e talvez a reposição moral obrigasse o grupo parlamentar do PSD a exigir de si próprio a proposta de um modelo de avaliação de sua lavra.

Ao que tudo parece indicar, o país, tendo sorte, poderá ir conhecendo a densidade do pensamento programático do PSD para esta e outras matérias, na medida em que o seu grupo parlamentar vá falhando votações.

Jornais e leitores: o estranho caso dos sacos de plástico

10 Dezembro 2008, 17:36 · Miguel Cabrita

No seguimento do post anterior, é bom recordar que vivemos num país em que os dois principais semanários se vendem, na maior parte das papelarias, dentro de sacos de plástico que têm o mesmo efeito de substituição da informação pela publicidade. O pretexto é benévolo, claro: ajudar a armazenar a “quantidade” de “suplementos” que transportam. O perverso é que a maior parte destes é de qualidade e interesse duvidosos e, quando não têm explicitamente o formato de folhetos de publicidade paga, têm em muitos casos a função mais ou menos óbvia de servir de veículo a interesses de anunciantes. 

Esta colonização invade, aliás, o que outrora eram partes fundamentais da dimensão informativa do jornal. Um exemplo: a tradicional revista do Expresso vem agora selada dentro de uns invólucros plastificados contendo, além da Única, panfletos de telemóveis e afins. 

Como num holograma, os sacos de plástico multiplicam-se e reproduzem-se: dentro do grande saco publicitátio, nascem novos e mais pequenos, com todo o tipo de inutilidades. Que, de resto, também vêm fora dos saquinhos, acrescentos soltos que escorregam por entre a profusão de papelada impingida. São literalmente jornais à venda, e à deriva também, com claro prejuízo e desrespeito dos leitores.

O que fazer quando este estado de coisas se tornou a regra, e não a excepção, num segmento tradicionalmente nobre da imprensa?

O que fazer com os jornais que abdicam dos interesses dos leitores

10 Dezembro 2008, 17:23 · Miguel Cabrita

Lembro-me que há uns anos largos (uns quinze? talvez mais) causou escândalo e indignação que a primeira página de um tablóide (à época, salvo erro, o Correio da Manhã) fosse integralmente ocupada pelo anúncio a um detergente.

Quinze anos depois, parece passar razoavelmente despercebido, e incólume, que os dois diários “de referência” do mercado (o DN e o Público) ocupem na íntegra a capa com um anúncio a uma cadeia de supermercados. Num dos casos, o do Público, é mais do que isso: todo o jornal vem embrulhado num lençol que cobre a primeira e a última página, deixando completamente incógnito o que se esconde lá dentro. Não é, aliás, facto inédito.

Gostando mais ou menos de publicidade, aceitando que os anunciantes ousem sonhar e tirem partido das possibilidades que lhes são oferecidas, e sabendo da precária situação financeira da imprensa diária, percebe-se a conjugação de factores que leva a que este tipo de coisas seja possível. No fundo, sacrifica-se integralmente, em nome da venda de publicidade, a possibilidade de os leitores terem acesso aos conteúdos do jornal que vão comprar…antes de o fazer. Procuramos num escaparate um jornal e encontramos, antes de mais, um anúncio gigante.

No meio disto tudo, e ao fim e ao cabo, quase todos os interesses são acautelados. Menos aquele que devia ser supremo, o dos leitores; e de forma correlata o da dignidade e qualidade dos media. A única resposta possível é não comprar, pelo menos nestes dias, as publicações que não sabem e/ou não conseguem preservar, pelo menos nestas questões básicas, interesses tão fundamentais.

Construtivismo na escola

8 Dezembro 2008, 22:10 · Mariana Trigo Pereira

Exame de Matemática de aferição ao 1º ciclo (2008):

Como o Mário Nogueira se tem encarregado de dar voz a todos os professores de “P” grande que se manifestam contra a avaliação eu pensei que podia, também, dar voz a professores meus amigos que não fazem greve, nem têm grandes problemas com o modelo de avaliação proposto, mas que andam muito insatisfeitos com outro tipo de problemas - com o ensino Construtivista da Matemática e do Português - que, segundo eles, contribuirá para a fraca aprendizagem e indisciplina dos alunos.

Não conheço esta realidade a fundo, mas sei que no meu ensino primário decorei a tabuada e aprendi a fazer contas de dividir à mão com várias casas decimais (o que hoje é poupado aos alunos). Gostaria de compreender um pouco melhor as virtudes deste método de ensino ‘dominante’ e de recolher mais opiniões em relação a este tema que poderia ser facilmente ignorado não fossem os resultados dos alunos portugueses nos exames do PISA (Programme for International Student Assessment) tão dramáticos. Enquanto os resultados destas provas forem consistentemente fracos, penso que deverá haver espaço e interesse em debater os conteúdos e os métodos de aprendizagem que não têm conseguido produzir com eficácia a mudança necessária na sociedade portuguesa - maior igualdade de oportunidades (de realização pessoal e profissional), melhor qualificação e maior produtividade.

Na direcção certa, portanto

8 Dezembro 2008, 19:41 · Miguel Cabrita

O Expresso do fim-de-semana agitava o título “divórcios disparam com a nova lei”, dando voz à “preocupação” de vários advogados e “especialistas”.

Como o objectivo das leis do divórcio não deve ser dificultar ou impedir que as pessoas se divorciem - e desta, pelo menos, não é -, independentemente das condições e razões de facto e pessoais que possam estar em causa, o aumento ou diminuição do número de casos não é critério para julgar a bondade dos efeitos da nova lei.

Tal como não o é o “aumento da conflitualidade” que alguns dos “especialistas” aventam. Porque o objectivo das leis - do divórcio e outras - não deve ser impedir que as pessoas recorram aos meios de resolução de conflitos (incluindo os tribunais) por criarem situações em que, estando em jogo questões importantes, elas não têm os instrumentos e garantias adequadas, legais ou outros, nem as expectativas de a eles aceder, judicialmente ou não.

O que é preciso, na verdade, é analisar as condições de decisão e de protecção que a lei proporciona a cada cidadão. E a forma como ela enquadra e acautela os diferentes interesses e dimensões presentes no contrato do casamento.

Agilizar o reconhecimento legal do fim de “casamentos” só o são à luz da lei, porque na realidade já terminaram; ou fomentar o exercício partilhado das responsabilidades parentais face às crianças e o cumprimento desssas responsabilidades face ao ex-cônjuge, só para citar o que é citado na peça, são por isso bons argumentos para defender a lei.  Nem que isso implique o aumento da conflitualidade “registada”.

Aliás, se as inovações poderão introduzir novos focos de conflitualidade, ver-se-á. Mas se os “conflitos” não chegavam aos tribunais por a lei ter más soluções ou não as ter, não dando nem às pessoas nem ao próprio sistema possibilidades de acautelar situações mais justas e que ponderassem devidamente todos os interesses (dos ex-cônjuges e crianças, nos casos em que existem) então estaremos daqui paraa frente melhor. 

A capacidade de regular o conflito de um modo mais justo, equitativo e ponderando os interesses de todas as partes é uma parte importante da modernização de qualquer sistema de justiça e de qualquer sociedade.

Por outro lado, os conflitos não são intrinsecamente maus, mas pelo contrário são muitas vezes a expressão da capacidade de pugnar por direitos e interesses. Por isso, quanto maior for a capacidade dos cidadãos de lidar, na sua vida, de forma normal e responsável com os conflitos, ie não reprimindo as divergências pela limitação de direitos de outros, mas tirando partido de mecanismos socialmente eficazes de resolução dos conflitos (sejam eles judiciais ou, como seria desejável, de outros tipos) maior será a qualidade demorática e cívica da vida familiar. E, já agora, da sociedade em que vivemos.

Agora só para nos rirmos um pouco

7 Dezembro 2008, 1:52 · Hugo Mendes

O dr.Mário Nogueira exibe por vezes dotes dignos de comediante. Depois de há semanas atrás ter olimpicamente ignorado um memorando de entendimento que havia assinado com o Ministério da Educação no dia 11 de Abril, dando a ideia de que o assinou com o intuito de o quebrar quando a altura fosse a indicada, vem hoje queixar-se de Jorge Pedreira ter voltado atrás numa combinação que nunca vamos saber qual foi ipsis verbis, porque não está objectivada em lado nenhum.

Indignado, o sindicalista afirma agora que “[t]odos temos de estar com seriedade. Só pode haver consenso quando as partes se respeitam”. Desculpe??!!

Todo um programa político em algumas palavras

5 Dezembro 2008, 12:12 · Hugo Mendes

Ana Benavente deu uma entrevista ao “Semanário Económico” de hoje. A dado momento, surge a pergunta:

«P: ‘Maior ataque à escola pública’ em que sentido?

R: (…) O próprio estatuto dos professores, com a questão das quotas, é completamente absurdo. Todos gostaríamos que todos os professores fossem muito bons. Dizer que numa escola só pode haver dois professores excelentes e três muito bons não é uma questão de avaliação mas sim de classificação.

P: Não é assim em toda a Função Pública?

R: Sim, mas eu acho mal (…).»

A transparência é sempre boa nestas coisas. Para Ana Benavente, todos os profissionais deviam poder ascender ao topo da carreira, sem excepção. Ana Benavente não aceita a competição, nem a hierarquia, nem o reconhecimento do mérito relativo. E parece avessa à compreensão do que são lógicas organizacionais ou constrangimentos financeiros. A partir do momento em que estes são tomados em consideração, entramos, para ela, no terreno terrível do “neo-liberalismo”.

Para Ana Benavente, a governação seria necessariamente um festim orçamental. Para usar as palavras que António Correia de Campos escreveu sobre Manuel Alegre há umas semanas, Ana Benavente «necessitaria do triplo do orçamento para governar. Assim todos seriam felizes, embora o país se projectasse na falência». Fácil, não é?

P.S. - Ana Benavente fala em “ataque à escola pública” discutindo apenas medidas relativas às questões laborais dos professores. Fiel ao seu paradigma de políticas educativas, segundo o qual quando falamos de escola pública, falamos exclusivamente de professores, Ana Benavente é incapaz de citar uma única medida tomada nesta legislatura e contribuído para melhorar (ou, for that matter, para piorar) a qualidade do ensino - exceptuando a introdução do Inglês no 1.º ciclo do ensino básico, com a qual concorda, mas na qual vê os primeiros sinais de «mercantilização» do sistema…; sobre várias medidas implementadas que apontam para o lado oposto, a que já aludi en passant aqui, nem uma palavra, naturalmente).

Não tem cartãozinho?

3 Dezembro 2008, 20:37 · Tiago Barbosa Ribeiro

A propósito do entendimento que os comunistas fazem dos movimentos sociais, dos sindicatos e de todas as organizações que escapam ao controlo do comité central em geral, vale a pena acompanhar o que se está a passar nas escolas básicas e secundárias do país. Uma auto-denominada «Plataforma Estudantil ‘Directores Não’» tem estado a desenvolver uma campanha contra o Estatuto do Aluno, não quer dialogar com o Ministério da Educação e convocou uma manifestação para amanhã. Legítimo.

Inversamente, uma outra associação - Plataforma Nacional de AE do Ensino Básico e Secundário - foi recentemente constituída, tem mais do dobro de associações de estudantes aderentes do que a «Plataforma Estudantil ‘Directores Não’» e recusa-se a participar no protesto: «Não nos revemos nas manifestações que têm existido por todo o país. Fomos muito bem recebidos pelo ME, que está a trabalhar nas nossas propostas». Legítimo.

Sucede que a «Plataforma ‘Directores Não’», mais interessada em defender objectivos orgânicos do que quaisquer problemas dos estudantes, responde com um exemplo de abertura brejneviana: «Essa Plataforma existe há duas semanas, com o objectivo de boicotar a luta dos estudantes. Têm uma postura muito afastada do que os alunos pensam. Nós não representamos Associações de Estudantes, representamos estudantes e claro que pomos em causa essa Plataforma». E quem o diz? Um dirigente da JCP que, como habitualmente, se julga um paizinho dos povos em potência. Tenham mas é juízo.

Visão e intelligentsia

3 Dezembro 2008, 19:10 · André Salgado

Ter uma visão estratégica para Lisboa, essa cidade portuária, a maldita.

As frases, a substância e os (sub-)textos

3 Dezembro 2008, 18:35 · Miguel Cabrita

Em editorial do Público de ontem, José Manuel Fernandes fazia uma espécie de jogo com citações avulsas para fazer prova de um imenso “coro das esquerdas” contra o “neoliberalismo”, tentando asim enfiar o PS num enorme - e conveniente - saco com o PCP.

Pena foi que, concedendo piedosamente que a citação que retirou da declaração de princípios do partido era “porventura a mais elaborada” de todas as que compilou, se tivesse focado na n-palavra maldita. Em vez de ler as linhas anteriores; e, já agora, as posteriores, que se esqueceu de incluir. Nelas veria preocupações que no PS, afinal, não são de hoje mas que, talvez concedesse, são de uma actualidade gritante.

O desenvolvimento económico não pode ser sacrificado à ânsia do lucro imediato ou à especulação sem escrúpulos. É preciso, pois, construir uma alternativa democrática à presente hegemonização do mundo pela actuação sem controlo de empresas multinacionais e pela ideologia neoliberal de combate aos Estados. É preciso contrariar as gritantes desigualdades entre os países ricos e os países pobres. É precisa uma organização mais equitativa do comércio mundial. (acrescento meu)

Foi também pena que JMF não tivesse escolhido outras passagens, para que os leitores pudessem perceber a posição do PS sobre a relação entre o mercado e outras esferas sociais, e as proximidades e distâncias a este respeito com outros partidos. Em vez de andar a brincar às frases soltas, talvez fosse bom olhar seriamente para a substância.

Já agora, e para ajudar em artigos futuros, fica aqui o registo de que a tal n-palavrinha aparece em pelo menos mais duas passagens da declaração de princípios. Não sei é se essas passagens ajudam a misturar o PS com o PCP:

Um pouco antes da passagem destacada no editorial,

O PS acredita convictamente nas virtualidades da liberdade de circulação e troca e dos movimentos internacionais de pessoas, ideias, recursos e capitais. Não deseja, portanto, o regresso a formas obsoletas de nacionalismo ou ultraproteccionismo económico. Mas o facto de a aceleração dos movimentos de capitais não ter sido acompanhada por adequada regulação institucional contribuiu decisivamente, nas duas últimas décadas do século XX, para o agravamento do fosso entre países desenvolvidos e países em vias de desenvolvimento e para a intolerável coexistência entre acumulação de riqueza e aumento da pobreza e das desigualdades. Por seu lado, a aplicação cega das teses neoliberais, sem preocupações de sustentação e coesão social, causou, em diferentes regiões do globo, devastação económica e social.

E um pouco à frente:

Se a plena aceitação da economia de mercado distingue, com clareza, a esquerda democrática das concepções colectivistas da organização económica e social, a defesa do Estado social e a valorização das políticas e dos serviços públicos, em domínios centrais da vida colectiva, assim como a preocupação com a acessibilidade e a qualidade dos serviços públicos, distinguem radicalmente a esquerda democrática das formas neoliberais de ataque ao Estado e menosprezo pela administração pública. Em serviços básicos de apoio às pessoas, às famílias e às comunidades locais, e nos sectores em que se jogam as questões principais da igualdade de oportunidades e da justiça social, como a educação, a saúde, a segurança social, a cultura e a ciência, o serviço público, acessível a todos, eficiente e eficaz, é essencial a uma sociedade justa. A sua concretização não deve constituir reserva do Estado; mas é obrigação indeclinável do Estado democrático garantir a sua existência.

P.S.
Já agora, não percebo muito bem JMF quando refere a origem da primeira frase: a “declaração aprovada no congresso de 2002 e (…) nunca alterada“. Talvez o autor não saiba quanto tempo vigorou a anterior; ou esqueça que um texto fundador deste tipo é feito para ser durável. Aliás, o melhor teste a uma declaração princípios é o tempo, e ele tem provado a validade do texto e dos equilíbrios então encontrados. Quem se der ao trabalho de ler, poderá julgar por si. Mas, já agora, era interessante que JMF desse o seu contributo democrático e esclarecesse, então, que pontos careceriam de revisão.

O 25 de Abril também pode ser quando o homem quiser

3 Dezembro 2008, 12:18 · Sílvia Sousa

Quando tão pouco se escreve sobre a Guerra Colonial e ainda menos na primeira pessoa, vale a pena ler o testemunho de Cristóvão Aguiar e respectivos comentários.

Stranger than (science) fiction

2 Dezembro 2008, 17:10 · Miguel Cabrita

A ciência entreabre muitas vezes horizontes estranhos, baralhando categorias supostamente bem arrumadas. No Expresso do fim-de-semana, era citado um desses exemplos: a elysia chlorotica, uma espécie animal (mais concretamente uma lesma-do-mar) é capaz de fazer a fotossíntese e sobreviver nessa base durante um ano (a sua longevidade). Como? Se bem percebo, incorporou (”apropriou-se de”) material genético de uma das espécies de que se alimenta e, quando nova, cada uma das lesmas armazena os cloroplastos das algas que come (e que permitem a fotossíntese), conseguindo depois usá-los ao longo da vida para processar energia solar suficiente.

O habitual

28 Novembro 2008, 17:08 · Hugo Mendes

Não passámos a semana toda a ouvir que a Plataforma sindical dos professores ia apresentar uma “solução transitória”, depois de exigir a suspensão da actual avaliação de desempenho dos docentes? Não apresentou. Há coisas que não mudam: o que é assinado ou dito num dia pode não valer nada no dia seguinte. 

Mas isto também se aplica aos jornalistas: não ouvi ninguém perguntar ao dr.Mário Nogueira por que motivo não apresentou a dita solução transitória. Deve ser falta de memória. Ou falta de coragem. Ou cumplicidade com este tacticismo rasteiro.

Uma hipótese para explicar o silêncio do dr.Mário Nogueira em relação a essa solução transitória que ficou por formalizar: ela, tal qual foi anunciada durante a semana, é demasiado ridícula para apresentar e ser aceite por um país que vive a crise que vive.

Era afinal tão fácil de explicar

28 Novembro 2008, 16:43 · André Salgado

o modelo que a FENPROF propõe para a avaliação de desempenho dos professores.

“O que não era difícil”

27 Novembro 2008, 11:45 · Hugo Mendes

A Plataforma Sindical dos professores, diz-nos hoje a imprensa, vai propor uma solução transitória para este ano lectivo assente na auto-avaliação dos professores. Cara-de-pau, dirão uns; coerência, dirão outros: afinal, Mário Nogueira já o tinha revelado (mais detalhes aqui).

Mas vale a pena ler o que em Março deste ano Mário Nogueira pensava deste modelo - ou pelo menos dizia pensar. Em entrevista ao “Correio da Manhã”, lê-se:

«Correio da Manhã - Os professores aceitam ser avaliados ou não?

Mário Nogueira - Os professores acham que devem ser avaliados. Desde a primeira hora, desde os anos oitenta, quando foi aprovado o primeiro estatuto, os professores e a Fenprof assumiram um modelo de avaliação que, em minha opinião, era mais exigente que este e que os anteriores. O que não era difícil

Ora aí está. O modelo anterior - que a Fenprof se prepara para ressuscitar este ano - era, aparentemente para Mário Nogueira, laxista.

Dado que a Fenprof nos garante que os professores querem mesmo ser avaliados, é estranho não haver memória da última vez que tenha colocado dezenas de milhares de pessoas na rua para obrigar um Governo a substituir o tal modelo laxista por um outro “mais exigente”.

Um outro Outubro

27 Novembro 2008, 11:40 · O País Relativo

A Fundação Res Publica apresentou ontem o seu website, um espaço de informação das suas actividades, mas também de promoção da discussão pública sobre temas que se consideram da maior relevância.  Aqui, há espaço para um Fórum de debate temático e um blogue.

De momento, os temas em debate no Fórum são “Até onde deve ir o Estado na provisão de serviços públicos?” e “Qual é o papel dos partidos europeus?“. O primeiro conta com os contributos iniciais de Vital Moreira e Correia de Campos, e o segundo com contributos de José Reis Santos e Jamila Madeira. Contribuições de pessoas interessadas no debate poderão ser submetidas através da página do Fórum. O debate sobre estas temáticas estará aberto por um período de dois ou três meses, no fim do qual as contribuições iniciais serão revistas pelos autores para incorporarem as ideias que foram expostas pelos participantes.

O blogue, com o nome Outubro (não esse, mas este), conta com a participação de vários bloggers, entre os quais o Filipe Nunes, o Hugo Mendes, o João Jesus Caetano, o Miguel Cabrita e o Tiago Barbosa Ribeiro, do País Relativo.

O bairro do amor

26 Novembro 2008, 19:05 · André Salgado

Alargar o terminal de contentores, sim, mas com uma contrapartida. Construir uma ciclovia espaçosa, ao nível do contentor mais elevado, com cervejarias que nunca fechavam ao longo do percurso. O melhor de dois mundos. Por um lado, mariscava-se, por outro, pedalava-se e o rio e os barcos. Nos contentores desocupados viviam o Baptista Bastos e outros. Escrevendo, rindo, combatendo e trocando proezas com os estivadores.

Mais tarde, abandonada a fantasia do novo aeroporto, canalizava-se o dinheiro para um grande dispositivo hidráulico que elevaria a cidade ao nível da ciclovia.

No espaço subterrâneo ganho, instalavam-se, não os agora desnecessários parques de estacionamento, mas esplêndidas garagens para os transportes públicos e fábricas de bicicletas. Embora estas também pudessem chegar nos contentores. Pensem nisto.

Já os físicos-politólogos…

26 Novembro 2008, 14:50 · João Jesus Caetano

Lee Smolin, do Perimeter Institute for Theoretical Physics, numa TedTalk com o título “How science is like democracy“, em Fevereiro de 2003 mas só agora publicada [link]:

As gravatas dos astrofísicos(*) mimicam a estrutura do universo

26 Novembro 2008, 14:48 · João Jesus Caetano

Geoge Smoot, nobel da física em 2006, numa TedTalk com o título “The design of the universe“, em Maio deste ano e publicada este mês [link]:

(*) dos norte-americanos, pelo menos.

Da felicidade

26 Novembro 2008, 13:09 · Tiago Barbosa Ribeiro

Os cidadãos dos países nórdicos, paradigmas de um modelo democrático de intervenção socialista na economia, são aqueles que manifestam maior grau de realização individual. Socialismo e realização individual. É esta a chave que a direita e parte da esquerda nunca compreenderão.

A subtileza do costume

25 Novembro 2008, 16:10 · Hugo Mendes

O jornal Público é conhecido pelo seu rigor hermenêutico. Vejamos o título desta notícia na edição on-line: DREN ameaça com processos disciplinares quem apelar ao boicote da avaliação
De seguida, os dois primeiros parágrafos da notícia:
«A Direcção Regional da Educação do Norte (DREN) ameaçou hoje que irá avançar com processos disciplinares contra os professores que pressionarem colegas a boicotarem a avaliação de desempenho.

Margarida Moreira, directora da DREN, assegurou, em declarações à TSF, que será “inflexível”. “Se for uma situação de coação, actuarei disciplinarmente se necessário for”, reforçou a responsável, sublinhando, porém, que está disponível para debater a questão com os professores para evitar situações como esta».

Ora, ‘apelar’ (no título), ‘pressionar’ (na notícia) e ‘coagir’ (verbo efectivamente usado por Margarida Moreira) são acções muito diferentes; em concreto, o primeiro verbo tem um sentido muito mais benigno do que qualquer dos outros dois. Seria um exagero punir um ‘apelo’. Punir uma ‘coacção’ é uma coisa bem diferente. Para o caso de muitos não terem percebido, a avaliação é um direito individual.

Mas isso não interessa nada. O que interessa são mesmo as parangonas. Esperemos pela edição em papel amanhã.

O monstro e o sapo

23 Novembro 2008, 23:43 · Hugo Mendes

Ao contrário do que é costume, os blogues que defendem a desobediência e a sublevação dos docentes à avaliação de desempenho não elogiaram o artigo de António Barreto hoje no “Público”. Percebe-se: por uma vez, o articulista substituiu a demagogia contra a “5 de Outubro” - isto é, contra o “Estado” -  e fez o elogio de um sistema de gestão e de avaliação numa escola dotada de ampla autonomia e com um director, que algumas mentes na nossa praça ainda associam ao fascismo, numa confusão pueril - que atravessa n discussões políticas no nosso tempo - entre “autoritarismo” e “exercício legítimo da autoridade”.

O que o autor não tem coragem de dizer é que o modelo que propõe é razoavelmente semelhante - pelo menos nos seus princípios gerais - ao novo regime de autonomia, administração e gestão das escolas aprovado em Abril deste ano, e concebido, pasme-se, no monstro da “5 da Outubro” (decreto-lei aqui).

Admiti-lo seria, simplesmente, engolir um sapo demasiado grande.

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