Contabilidades étnicas

26 Março 2009, 16:51 · Miguel Cabrita

A ideia de “contabilizar etnias”, tarefa a que se pretende dedicar um “Comissário para a Diversidade” (de origem argelina, ao que parece não por acaso) nomeado por Sarkozy, é por definição propícia a dar maus resultados. Além de se entrar por um terreno minado, estão em causa questões demasiado sérias para brincadeiras e voluntarismos.
 
Seja sob o pretexto de combater desigualdades ou com outros nobres objectivos, este tipo de exercício acarreta sempre uma naturalização dos “grupos étnicos” e a consequente legitimação das fronteiras (e pertenças, e  desigualdades) que lhes estão associadas - aliás, um dos problemas fundamentais do multiculturalismo.

De resto, o próprio procedimento está sempre pejado de problemas: da inescapável arbitrariedade das categorias escolhidas, quaisquer que elas sejam, à ambiguidade da inserção de cada caso na grelha criada, à necessidade de recorrer ao método (o único eticamente aceitável, de resto) da “adesão voluntária” - que deveria fazer pensar os próprios defensores da ideia sobre o verdadeiro estatuto do seu exercício.

O debate em França está ao rubro e o melhor que poderá acontecer é que chegue ao fim com este “projecto” numa gaveta qualquer, para desgosto dos paladinos da etno-contabilidade. Porque, a avançar, há boas razões para suspeitar que as consequências estarão bem para além de números e percentagens.

the ‘H’ word

25 Março 2009, 2:56 · Hugo Mendes

Poucas coisas me espantam mais, nos dias que correm, do que ouvir pessoas (de esquerda) barafustar, de dia e em público, contra tudo o que for possível e impossível sobre o Magalhães* (ele é a ‘propaganda’, os atrasos nas entregas, os erros de português no software, vale tudo) e, de noite e em privado, embevecerem-se com o novo computador Mac** (ou outro) que deixa maravilhado o seu filho (ou filha). 

* um computador portátil grátis para as crianças de famílias com menos recursos, e que custa 50 euros para o resto das famílias.

** que custará pelo menos - e atiro assim um valor para o ar - 3 vezes o salário mínimo nacional.

“Crime”, alguém diz?

18 Março 2009, 22:09 · Hugo Mendes

A propósito das recentes declarações do Papa sobre o efeito dos preservativos no combate à SIDA, que tem feito muitos rir, eu gostava que alguém confrontasse a Igreja Católica com a sua responsabilidade moral - para não ir mais longe - na tomada de posição sobre um problema que, em particular onde atinge proporções epidémicas, vitima largos milhões de pessoas.

Afinal, o que está aqui em causa é um bocadinho mais importante do que ‘acreditar’ se o Homo Sapiens é ou não resultado de uma evolução de muitos milhões de anos; o putatitvo debate sobre entre o darwinismo e criacionismo é, comparado com isto, uma história para entreter as crianças depois de jantar.

O que está aqui mesmo em causa é a responsabilidade e a cumplicidade objectiva da Igreja Católica na influência do comportamento de milhões e milhões de pessoas que correm, objectivamente, risco de vida - risco que cresce exponencialmente se seguirem as ‘opiniões’ do Papa.

Como no ‘caso Galileu’, daqui a umas décadas - ou séculos -, virão pedir desculpa pelas mortes e pelo sofrimento causado. Tudo, claro, em nome da “defesa da vida”. Estejam atentos.

Economia, ciência, sinergias e externalidades

5 Fevereiro 2009, 12:37 · Mariana Trigo Pereira

Porque em tempos de crise económica os economistas perdem normalmente alguma credibilidade é bom relembrar os efeitos positivos de alguns mercados e de algumas boas ideias da teoria económica.

O mercado das licenças de emissões de dióxido de carbono tem gerado os incentivos certos ao investimento em tecnologias e soluções que visam a redução das emissões. Este investimento tem crescido à medida que aumenta a procura de licenças e sobe o custo associado à produção de energia a partir de combustíveis fósseis – em linguagem económica, o investimento intensifica-se à medida que aumenta o custo de oportunidade de produção de energia. O preço elevado das licenças faz com que os gastos com a redução de emissões compensem, por vezes, a aquisição de licenças para manter a tecnologia e o método de produção existente.

Neste momento, grupos de cientistas de todo o mundo, muitos deles financiados pelas empresas privadas (produtoras de energia eléctrica, por exemplo), testam soluções que permitam isolar moléculas de dióxido de carbono dos restantes gases que resultam da combustão. Se o dióxido de carbono saísse das chaminés em estado puro não haveria grande problema. O CO2 pode ser injectado para debaixo da terra em zonas com determinadas características geológicas. A dificuldade está em separar as moléculas – isolar o dióxido de carbono dos restantes gases. Com este objectivo, têm sido estudados diversos métodos como a aplicação da nanotecnologia (membranas) à separação de gases. Como ainda não se sabe qual vai ser a tecnologia dominante no futuro (poderá passar pela instalação de painéis solares no deserto…), as empresas produtoras de energia têm procurado diversificar o risco do investimento em I&D, participando em diversos grupos de trabalho, à escala internacional, que procuram desenvolver e optimizar vários tipos de tecnologia. Algumas empresas ‘pagam para ver’ os desenvolvimentos científicos e tecnológicos que vão acontecendo neste domínio, ajudando a financiar a I&D que irá resolver, mais cedo ou mais tarde, o problema da emissão excessiva de gases tóxicos para a atmosfera.

Assim vai avançando a ciência, impulsionada por incentivos económicos.

Stranger than (science) fiction

2 Dezembro 2008, 17:10 · Miguel Cabrita

A ciência entreabre muitas vezes horizontes estranhos, baralhando categorias supostamente bem arrumadas. No Expresso do fim-de-semana, era citado um desses exemplos: a elysia chlorotica, uma espécie animal (mais concretamente uma lesma-do-mar) é capaz de fazer a fotossíntese e sobreviver nessa base durante um ano (a sua longevidade). Como? Se bem percebo, incorporou (”apropriou-se de”) material genético de uma das espécies de que se alimenta e, quando nova, cada uma das lesmas armazena os cloroplastos das algas que come (e que permitem a fotossíntese), conseguindo depois usá-los ao longo da vida para processar energia solar suficiente.

Já os físicos-politólogos…

26 Novembro 2008, 14:50 · João Jesus Caetano

Lee Smolin, do Perimeter Institute for Theoretical Physics, numa TedTalk com o título “How science is like democracy“, em Fevereiro de 2003 mas só agora publicada [link]:

As gravatas dos astrofísicos(*) mimicam a estrutura do universo

26 Novembro 2008, 14:48 · João Jesus Caetano

Geoge Smoot, nobel da física em 2006, numa TedTalk com o título “The design of the universe“, em Maio deste ano e publicada este mês [link]:

(*) dos norte-americanos, pelo menos.

Etnógrafos de todo o mundo, não desesperem

11 Outubro 2008, 18:32 · Hugo Mendes

No micro-cosmos dos cientistas sociais, a guerra entre os ‘quantitavistas’, maníacos das bases de dados, e os ‘qualitativistas’, doentes da observação etnográfica, é um daqueles conflitos insanáveis. Quando a polémica roça o insulto, os primeiros acusam os segundos de se perderem a estudar objectos que não interessam a ninguém com um detalhe capaz de aborrecer qualquer criança hiperactiva, enquanto os segundos acusam os primeiros de se terem vendido à big science, às encomendas estatais, e às agendas - e cheques - do sector privado.

Agora, o “grande capital” mostra que afinal os etnógrafos têm afinal um valor de mercado. Assim, as mais-valias da etnografia - a atenção à observação e ao detalhe, ou à “cognição situada” e “distribuída”, para usar linguagem mais técnica - esão a ser usadas pela Intel para ajudar a melhorar as características do ’Magalhães’: “Temos uma equipa de etnógrafos que estuda a forma como os estudantes usam a tecnologia (ser antichoque, teclado resistente a líquidos)”.

Problemas de Fermi

6 Outubro 2008, 23:12 · João Jesus Caetano

Quantos grãos de areia cabem no balde de praia do meu filho? Com quantas pessoas me cruzo diariamente na rua? Quantos gramas de bife gastou o Rochemback a correr, lentamente, no jogo de ontem, assumindo resistência nula do vento?

A capacidade de intuir ordens de grandeza é algo de que os físicos se orgulham. Já a mulher de um deles, Rebecca Sax, uma neurocientista cognitiva do MIT, dedica a sua vida a perceber porque é que o nerd do marido se diverte com os nerds dos seus amigos matemáticos a resolver este tipo de problemas, designados por “problemas de Fermi”: tentar arranjar soluções aproximadas para problemas arbitrários.

O que isto lhe sugere, segundo o New York Times, é que «the people whom we think of as being the most involved in the symbolic part of math intuitively know that they have to practice those other, nonsymbolic, approximating skills.»

E agora leiam isto (há quem lhe chame “Eduquês”): «Taken together, the new research suggests that math teachers might do well to emphasize the power of the ballpark figure, to focus less on arithmetic precision and more on general reckoning.»

Vamos jogar?