Rasgar a escola para todos
10 Julho 2009, 14:38 · João Jesus Caetano
O gráfico em baixo mostra a taxa de escolarização dos jovens com idades entre os 15 e os 17 anos, de 1961 a 2006.
Entre 1995 e hoje, essa taxa tem-se situado ligeiramente acima dos 80%, oscilando aqui e ali sem grande significado. Ou seja, nos últimos 15 anos, quase 20% dos jovens com idades entre os 15 e os 17 anos não frequentaram nenhum estabelecimento de ensino.
Hoje, na Assembleia da República, ao não ter votado favoravelmente a proposta do Partido Socialista que prevê o alargamento da escolaridade obrigatória até ao 12º ano, o PSD de Manuela Ferreira Leite mostrou que vive em paz com esta realidade.
[Taxa de escolariação mede o número de estudantes que frequentam estabelecimentos de ensino, independentemente do nível em que se encontram, relativamente à população total com a mesma idade - fonte: GEPE]
É o facilitismo, claro
7 Julho 2009, 17:40 · Tiago Barbosa Ribeiro
Nuno Crato, a TVI e alguma direita catatónica, sobretudo nos blogues, quiseram fazer crer ao indigenato que os socialistas promoviam o facilitismo nos exames escolares. Se isso já era irónico quando pensamos em quem se opôs às reformas promovidas pelo PS para uma maior exigência na educação, mais se torna quando sabemos agora que duplicou a taxa de reprovações a Matemática nos exames do 12º ano. Enfim. A realidade está a fazer oposição à direita, o que não deixa de ser incómodo para as crenças colectivas de algumas pessoas.
OCDE desmente Nuno Crato (título tablóide, eu sei)
18 Junho 2009, 2:49 · Hugo Mendes
Já é habitual: em tempo de exames, Nuno Crato é a cara e a voz da Sociedade Portuguesa de Matemática na luta contra o “facilitismo” reinante.
Como é provável que volte a ser entrevistado no decurso das próximas semanas, deixo aqui um pedido sincero a um(a) jornalista que tenha a ocasião de falar com ele: pergunte-lhe como explicar estes dados da OCDE (atenção: o relatório não foi encomendado pelo Governo) que descrevo aqui, e que contrariam o que Nuno Crato diz há anos na TV, nos jornais e em livros. O país interessado nas coisas da educação agradecia (e o “jornalismo de investigação” - é verdade, os dados estão perdidos no meio de um relatório de 300 páginas, é preciso procurá-los com um pouco de paciência - podia deixar de significar apenas “descobrir os podres dos políticos”).
É que se a crítica ao “facilitismo” nos exames tiver tanta consistencia empírica como a crítica ao “eduquês” (a quem Nuno Crato atribui quase todos os males do nosso sistema educativo), então…Talvez tenhamos que esperar, um dia, por um estudo da OCDE para (ajudar a) resolver a questão. Até lá, o mesmo discurso estereotipado terá o mesmo monopólio de sempre na imprensa (e a mesma condescendência jornalística também: a “agressividade” e o “jornalismo de investigação” só servem, todos sabemos, para encostar os ministros e políticos à parede - nunca os seus críticos, que têm carta branca para dizer o que lhe apetece sem que o que é dito tenha de ser justificado ou validado).
Agora, fazer “exercícios” como o Expresso fez no sábado passado de “comparação de exames” - mas afinal não se “comparam exames”, o que se “compara” são problemas a vulso, escolhidos provavelmente entre milhares de exemplos possíveis - é brincar com coisas sérias.
Para memória futura (ou frases que impõe respeito)
20 Maio 2009, 8:31 · Mariana Vieira da Silva
Roubo a citação que Mariana faz do documento Desafios para Portugal em 2009 do gabinete de estudos do PSD:
É muito importante que registemos estas ideias, até porqiue elas serão desmentidas e corrigidas dezenas de vezes até Outubro (a tal política de verdade). É que nas próximas eleições é de escolhas que falaremos, e agora já sabemos qual o mote do PSD em matéria de educação: dar meios para escapar (belo verbo) do ensino público.
Quem anda a ensinar os nossos alunos? E que avaliações têm?
19 Maio 2009, 11:47 · Tiago Antunes
Sim, confesso: fiquei absolutamente chocado com as gravações da aula desta professora que ontem passaram na comunicação social. E não é apenas o conteúdo sexual da conversa. É a intromissão na vida pessoal dos alunos, a acusação de que estes terão feito isto ou aquilo, a ameaça de represálias nos testes, o insultar da mãe de uma aluna em frente de toda a turma mediante invocações de uma alegada inferioridade intelectual. Tudo comportamentos indignos e inaceitáveis.
Ora, ao que parece, tudo isto se passa há já pelo menos três anos. O que me fez pensar: que avaliações terá tido esta professora ao longo desses três anos??? A confirmar-se que teve os Muitos Bons da praxe, estaremos perante uma eloquente demonstração, por um lado, do anacronismo do sistema de avaliação de professores que até há pouco tempo vigorava no nosso país e, por outro lado, de como é importante que os pais possam ter uma palavra na avaliação de quem ensina (e, por vezes, desensina) os seus filhos.
Um bom sistema de avaliação teria despistado esta situação há muito tempo e não teria permitido que esta senhora continuasse a dar aquele tipo de aulas. Daí a necessidade premente de os professores serem avaliados, de o serem de forma absolutamente rigorosa e de essa avaliação ter consequências. Afinal de contas, estão a formar crianças e, numa actividade desta importância, não se pode vacilar, não se pode contemporizar, não se podem admitir estas maçãs podres.
Prêt-à-Copuler
18 Maio 2009, 17:25 · Tiago Antunes
Ai não??? Bolas, estes socialistas são sempre a mesma coisa. Muita promessa, muita propaganda, mas depois deixam sempre a coisa a meio…
Um desejo para os 12 anos de escolaridade
26 Abril 2009, 12:38 · Mariana Trigo Pereira
Todos os passos no sentido de uma maior igualdade de oportunidades e de uma maior qualificação dos portugueses são de saudar. É importante, no entanto, ter presente que a escolaridade obrigatória não se traduz apenas em mais anos que os jovens passam na escola, num maior nível de qualificação da população, em melhores oportunidades de realização pessoal e profissional, em maiores índices de produtividade (com consequências sobre o crescimento económico, etc.).
Tudo isto é verdade, mas há mais. 12 anos na escola são 12 anos de aquisição de um conjunto de conhecimentos considerados fundamentais por uma sociedade. A escolaridade obrigatória tem (ou deveria ter) a grande responsabilidade de formar e estimular a cidadania dos jovens. Muitos deles, mais tarde, vão ter um papel a desempenhar nas decisões colectivas, vão ser chamados a participar na orientação de políticas de forma directa ou indirecta, através do voto.
Estes conhecimentos ‘base’ são determinantes na escolha colectiva de princípios justos, como nos lembra John Rawls. A par da sua ideia de ‘véu de ignorância’ – esse contexto artificial em que cada indivíduo avaliaria princípios de justiça desconhecendo factos particulares como a sua posição e status social, o seu nível de riqueza, as suas capacidades ou inteligência-, Rawls refere também que estas escolhas ‘justas’ pressupõem, no entanto, alguns conhecimentos fundamentais:
«It is taken for granted, however, that they know the general facts about human society. They understand political affairs and the principles of economic theory; they know the basis of social organization and the laws of human psychology. Indeed, the parties are presumed to know whatever general facts affect the choice of the principles of justice.»
São estes ‘general facts about human society‘ que eu gostaria de ver garantidos nos 12 anos de escolaridade obrigatória.

the ‘H’ word
25 Março 2009, 2:56 · Hugo Mendes
Poucas coisas me espantam mais, nos dias que correm, do que ouvir pessoas (de esquerda) barafustar, de dia e em público, contra tudo o que for possível e impossível sobre o Magalhães* (ele é a ‘propaganda’, os atrasos nas entregas, os erros de português no software, vale tudo) e, de noite e em privado, embevecerem-se com o novo computador Mac** (ou outro) que deixa maravilhado o seu filho (ou filha).
* um computador portátil grátis para as crianças de famílias com menos recursos, e que custa 50 euros para o resto das famílias.
** que custará pelo menos - e atiro assim um valor para o ar - 3 vezes o salário mínimo nacional.
Dia do estudante
24 Março 2009, 13:54 · Hugo Costa
Segundo noticiado hoje pelo canal de Televisão SIC, a manifestação do dia do estudante tinha menos de 100 pessoas em Lisboa.
É preciso mais alguma prova da desadequação da mensagem de quem se manifesta dos problemas reais dos estudantes?
O passado do dia do estudante merecia mais…
Publicidade institucional
23 Março 2009, 16:32 · Hugo Mendes
(clicar para aumentar)
Escola e leitura
6 Março 2009, 16:05 · Hugo Mendes
António Barreto na revista ’Ler’, 2009
«Passaram 50 anos e, por razões diferentes, a escola hoje destrói a leitura. Seja com a análise estruturalista linguística dos textos, seja pela ideia de que escola tem de ser mais a acção e tem de ser mais projecto e mais mil coisas que fazem a nova escola. A leitura na escola é a última das preocupações.»
António Barreto na revista ’Análise Social’, 1995
«Portugal distinguiu-se, até aos anos 60, pela crónica incapacidade para escolarizar a população,evitar o analfabetismo e proporcionar aos cidadãos um grau satisfatório de instrução. Até finais da década de 60, os progressos foram extremamente lentos. A partir dessa altura verificou-se uma quase explosão escolar. Em menos de trinta anos, o analfabetismo jovem foi praticamente eliminado, enquanto sobra algum analfabetismo adulto, menos de 9% da população. No ensino secundário público (os actuais 10.° a 12.° anos), a frequência passou de cerca de 8000 para quase 300 000!»
Vale a pena perguntar algumas coisas a António Barreto:
- se estávamos melhor com uma escola que “preza” ou “cultiva” a leitura (ou pelo menos que não a “destrói”) num país que escolarizava uma pequeníssima parte de população, sendo que a maioria era analfabeta ou quase, como há 50 anos.
- se a leitura, no que toca ao que se lia, como se lia, com que objectivo, etc., há meio século, pode continuar a ser ensinada e cultivada hoje da mesma forma numa escola secundária que passou de uma população de 8 mil alunos para 300 mil.
- o que encontrou na literatura científica para apoiar a sua conclusão, e o que mostra esta em relação ao efeito que as novas tecnologias têm sobre a leitura: é de substituição ou de complementaridade/sinergia?
É que, assim de repente, a conclusão que posso inequivocamente tirar das últimas décadas é esta: nunca a população portuguesa leu tanto; e nunca esteve tão exposta às novas tecnologias e mobilizada para o seu uso.
Parece-me que não é uma feliz coincidência.
Era escusado
6 Março 2009, 11:42 · Hugo Mendes
Na mesma capa da revista “Ler” (foto roubada daqui) que cita a extraordinária e premonitória frase de António Barreto - «O ‘Magalhães’ é o maior assassino da leitura em Portugal» -, também se lê: «Os intelectuais: podemos acreditar neles?». Muito à propos.
O responsável por esta capa escusava de ter tirado o tapete ao seu entrevistado de forma tão óbvia. Se esta justaposição de títulos não é de propósito, parece.
Depois de deglutidos os tomates e os cogumelos
5 Março 2009, 16:07 · Hugo Mendes
[Estas linhas foram escritas em resposta a um simpático repto feito pelo João Galamba neste post e inicialmente deixadas na caixa de comentário do 'Jugular']
João, by and large, saberás que concordo com o autor do artigo. Mas vale a pena acrescentar:
1) Não acho que as estratégias - a de melhorar a qualidade das escolas e a de dividir de forma menos desigual a ‘qualidade’ do seu público pela rede escolar - sejam mutuamente exclusivas (pelo contrário, são complementares, como explico à frente). A qualidade dos alunos não é a única variável que explica os resultados destes; a qualidade dos professores é muito importante, e tanto mais importante quanto mais dificuldades os alunos apresentarem (por outras palavras, ensinar bons alunos é mais ‘fácil’ ).
Discussão
5 Março 2009, 13:34 · Hugo Mendes
Dado o desafio feito pelo João Galamba, talvez seja mais interessante acompanhar esta discussão no Jugular.
O copo
4 Março 2009, 9:58 · Hugo Mendes
É notícia hoje: Cobertura do pré-escolar vai passar de 78 para 82%
Na linha do que o “Diário de Notícias” escreveu na sua edição de ontem, já imagino uma qualquer manchete amanhã: “quase 1 em 5 crianças sem vaga”!
No fascismo é que era bom
4 Março 2009, 1:18 · Hugo Mendes
Este post é tão extraordinário que vale a pena copiar o conteúdo da primeira à ultima linha (o título é: Direitos ou falta deles?):
Dois exemplos
16 Fevereiro 2009, 15:47 · Miguel Cabrita
A propósito de custos de transição, dois exemplos recentes em que estes são largamente superados pelos benefícios que no futuro as mudanças trarão aos respectivos sistemas:
A introdução de tramitação de processos em suporte informático, no âmbito da modernização dos tribunais e do sistema de justiça. Acarreta adaptação e, eventualmente, melhorias nas ferramentas e suportes utilizados; mas será um passo (e bem são precisos!) para diminuir a infinita papelada em circulação e os circuitos opacos das “tramitações”, que são não o único mas um dos muitos nós do labirinto da justiça portuguesa.
A introdução da avaliação de professores nas escolas. Que começou por ser “muito complicada” e um “inferno burocrático”; e, depois, quando foi simplificada no sentido que era reclamado pelos sindicatos, passou a ser…redutora e demasiado simples. Mas, ainda assim, claro, infinitamente melhor que o anterior simulacro a que durante anos se chamou avaliação, sem que isso parecesse preocupar quem agora se opõe à mudança.
Tribunais em mudança
16 Fevereiro 2009, 15:36 · Miguel Cabrita
Num “estudo”, “relatório” ou “um documento de análise” (conforme as passagens que escolhermos, embora na primeira página e no destaque da peça, curiosamente, a expressão seja sempre “estudo”), da lavra independente da Associação Sindical dos Juízes Portugueses, “juízes arrasam o novo sistema informático da justiça” - interpreta o Público, claro, com a dose de criatividade sublinhada na Câmara Corporativa.
Segundo o jornal, “os juízes” (não o sindicato) fazem uma “análise muito crítica do primeiro mês de funcionamento do CITIUS-MJ, o sistema de tramitação dos processos em suporte informático“. E isto “sem querer abordar sequer as matérias relacionadas com a segurança” - sem se explicar exactamente o porquê de tanto decoro, quando há poucas semanas foram tão prontamente levantadas…e logo desmontadas.
Apesar de ser a favor das “novas tecnologias nos tribunais” (não esclarecendo sobre quem as deve usar) e de querer contribuir para “melhorar o sistema” a Associação Sindical dos Juízes Portugueses será, segundo a mesma notícia, contra a “mutilação” (sic) do suporte papel para já, aparentemente porque só o formato papel permite a análise comparativa de documentos (!), dada a impossibilidade de, noutros formatos. os juízes “poderem manusear o processo tal como se de um livro se tratasse” (sic).
Haveria, aliás, “inúmeros e graves problemas quer quanto à sua operacionalidade quer quanto à fiabilidade” do sistema - coisa que, aparentemente, não sucedia com o anterior -, embora nenhum dos exemplos apresentados justifique tal afirmação. E refere-se ainda que a forma como o sistema foi concebido “revela um preocupante desconhecimento sobre a experiência e opinião” dos juízes - sendo que o autor do “documento”, diz-se na mesma notícia, “participou no processo de informatização desde o início e funcionou também como formador junto dos colegas“.
Mais importante que tudo, porém, nem este “documento” - feito ao fim de apenas um mês de experiência com o novo sistema - se atreve a pôr em causa, antes pelo contrário, a necessidade e a bondade da mudança. Mas nem isso impede que o título escolhido pelo jornalista seja “juízes arrasam (…)”, e o Público de ontem de ter feito capa com este belo e imaginativo título: “novo sistema de justiça pode tornar justiça mais lenta“. Mais comentários…para quê?
Agora o mesmo raciocínio, mas ao contrário
11 Fevereiro 2009, 3:01 · Hugo Mendes
Antes que seja necessário encomendar um estudo…
5 Fevereiro 2009, 1:17 · Hugo Mendes
No momento em que CONFAP pretende que as escolas do 1.º ciclo estejam abertas 12 horas por dia - e em que muitos acham a reivindicação ‘bizarra‘ (mesmo que não seja bizarrro que a adjectivação venha de quem vem) - vale a pena lembrar o que pensa a OCDE deste problema:
A OCDE, essa organização que aconselha políticas “bizarras” que têm, estranhamente, o objectivo de facilitar a vida das famílias que muitos consideram “irresponsáveis” - as mesmas, note-se, que trabalham horas a fio na procura de aumentar o rendimento familiar, num país com elevados níveis de pobreza infantil…
Leituras
3 Fevereiro 2009, 1:38 · Hugo Mendes
No “Outubro” coloquei um texto um pouco mais longo do que é aceitável para estas bandas sobre o que se convencionou chamar “eduquês”.
Just for the record
2 Fevereiro 2009, 14:17 · Hugo Mendes
No sítio da OCDE.
Se viesse uma avaliação a sério, assim daquelas mesmo a sério, ainda fechavam o país
27 Janeiro 2009, 23:26 · Hugo Mendes
Já vamos quase nas migalhas, mas às vezes são a parte mais docinha. Parece que o facto do relatório ontem apresentado sobre a avaliação do 1.º ciclo do ensino básico não trazer o carimbo da OCDE está a deixar algumas pessoas revoltadas. O facto de ter sido produzido por uma equipa de peritos independentes, onde seguramente por acaso figura a Directora da Divisão das Políticas de Educação e Formação da OCDE, e ter explicitamente seguido a metodologia da avaliação usada pela organização parece ser absolutamente irrelevante e retira-lhe toda a credibilidade (o Pedro Sales tem por fonte o independente e credível professor Ramiro Marques, que tem passado os últimos meses a tentar convencer os docentes deste país a violar a lei das formas mais originais possíveis, numa tentativa desesperada de regressar ao PREC).
De facto, isto de avaliar as medidas de política é um bico-de-obra. Vou tentar percorrer os pecados possíveis (mas não tenho objectivo de ser exaustivo, a minha imaginação é fraca):
- se um estudo de avaliação é produzido a um dado Ministério, não vale, porque é interno.
- se é externo e encomendado, é porque é encomendado, e dado que ainda não encontrámos avaliadores a trabalhar de borla, eles infelizmente têm que ser pagos. Uma chatice, porque toda a gente sabe que se são pagos, então não há idoneidade intelectual que os valha: as suas conclusões foram compradas. Se são portugueses, é porque são amigos dos políticos; se são estrangeiros, é porque são igualmente amigos dos políticos (que, sabemos, são seres altamente cosmopolitas), mas isso não uma condição necessária: basta serem corruptíveis.
- se o relatório não é encomendado mas faz parte do trabalho de organizações internacionais - como este estudo, que elogiou, na área da educação, o programa Novas Oportunidades (e não vou pesquisar as reacções que devem ter sido registadas por cá à sua publicação: devem ter variado entre o achincalhamento e o desprezo, passando pelo silêncio) -, então toca a dizer que, imagino, (1) as informações com que a organização construiu o seu relatório foram viciadas na fonte (o dito Ministério) e, claro, (2) que se trata de uma organização internacional que não passa de uma lança da “globalização neo-liberal” (entre o FMI, o Banco Mundial, a OCDE e a UE, venha o diabo e escolha).
Não vale a pena. Avaliações só mesmo as levadas a cabo por entidades idóneas como a FENPROF, o PCP, o BE, ou movimentos “independentes” dos professores, observadores distantes do fenómeno, e que não têm nada a perder, trate-se de potenciais eleitores ou de influência sindical, já para não falar das cotas pagas.
Tenham dó.
E, já agora, façam uma sondagem (mas acreditarão nos números?) às famílias deste país (será que conseguem perceber opiniões como a de Manuel Monteiro, da Federação de Associação de Pais do Porto, citado hoje no “Público” (pág.8), onde diz que o «alargamento do horário foi óptimo para os pais que não tinham onde deixar as crianças»?) e tentem perceber o que a esmagadora maioria delas acha da “escola a tempo inteiro” e das actividades de enriquecimento curricular. Pode ser que depois percebam a sua importância.
Estas medidas têm problemas, como aliás o relatório dos peritos “comprados” sublinha? Ora bolas, ainda não foi atingida a perfeição, ao contrário do que acontece todos os dias nos nossos tribunais, hospitais, universidades, centros de investigação, museus, serviços públicos, grandes, médias e micro-empresas, etc., organizações conhecidas, bem sabemos, por carburarem no tecto dos níveis de eficiência, eficácia, e equidade. Mas, shhhhhhh, não contem a ninguém, porque se viesse uma avaliação a sério, assim daquelas mesmo a sério, ainda fechavam o país.
Revistinha de imprensa
26 Janeiro 2009, 12:08 · Hugo Mendes
A OCDE produziu um relatório bastante elogioso das reformas levadas a cabo por este Governo no 1º ciclo do ensino básico, em particular as relativas ao fechamento de escolas, à concretização das actividades de enriquecimento curricular e à formação contínua de professores de Português, Matemática e Ciências.
O Diário de Notícias e o Jornal de Notícias fizeram uma chamada de primeira página. O 24Horas ficou-se por uma pequena nota. O Correio da Manhã nada noticiou. Mas o silêncio mais notório é seguramente o do Público: nem uma linha sobre o assunto.
Imagine-se que o relatório tinha puxado as orelhas às políticas do ME. Qual Freeport, qual quê: a primeira página ser-lhe-ia seguramente dedicada.
Alguém avise sff o respectivo director José Manuel Fernandes que o relatório até tem poucas estatísticas, não fosse o mesmo duvidar dos “números”.
“Eu percebo pouco, mas acho que…”
19 Janeiro 2009, 11:50 · Hugo Mendes
A jornalista Bárbara Wong entrevistou Alice Vieira, escritora, sobre a educação em Portugal, numa entrevista que se pode ler hoje no Público, pomposamente intitulada “Aconteceu uma coisa terrível na educação: tudo tem de ser divertido, nada pode dar trabalho”.
Como é que uma pessoa cujas respostas indiciam que parece não ter perdido muito tempo a tentar compreender as políticas educativas actuais - «gostava que um professor e a senhora ministra da Educação se sentassem e me explicassem o que é que é a avaliação? O que é que os professores têm que fazer? Para eu perceber! Os professores dizem que têm muitas fichas para preencher. Que tipo de fichas? O que é que a ministra quer fazer com aquilo?» - educativas merece tanto destaque? Que credibilidade merecem as “ideias” de Alice Vieira sobre educação?
O país precisa de melhor jornalismo de referência do que o serviço prestado actualmente pelo jornal ‘Público’. Para reproduzir o reino do “acho que…”, qualquer tablóide serve.
A “pressa”
14 Janeiro 2009, 1:38 · Hugo Mendes
A “pressa” no ensino profissional - bem tratada aqui pelo Miguel - é a mesma “pressa” que existe em reduzir a desigualdade de qualificações, como parte do caminho a fazer na redução de desigualdades salariais/ derendimento. Não é por acaso que os países onde uma larga fatia da população escolar segue a via profissional do secundário (ver figura, retirada deste livro, p.19) são aqueles onde existe maior compressão salarial: não só ensino profissional funciona como uma rede institucional decisiva na qualificação dos estudantes/futuros activos, como estimula a dinamização de relações cooperativas entre os actores empresariais e sindicais na busca de soluções que sirvam a trabalhadores e empresários. Na verdade, o ensino profissional é, ou pode/deve ser, um pilar essencial de um sistema de relações laborais onde a concertação, a confiança e concretização de estratégias de ganho mútuo sejam a regra e não a excepção.
O ensino profissional é, por isso, uma peça central na luta contra a pobreza e as baixas qualificações. Fosse a “esquerda da esquerda” perceber isto. Central, de facto, mesmo que muitas vezes invisível. E porquê? Porque esta esquerda acha que o ensino profissional é um “ensino para pobrezinhos”, e, por isso, não interessa nada. Para além do mais, aquele é um excelente instrumento de redução do abandono escolar, o que é evidentemente, para esta esquerda, uma chatice, uma vez que lhe rouba mais um motivo de protesto.
(versão de um texto disponível no Outubro)
Heranças e horizontes do ensino profissional
13 Janeiro 2009, 18:04 · Miguel Cabrita
1.
Ontem, dando aliás eco a outras vozes, o Público escolheu fazer destaque da “pressa” colocada, nos últimos anos, na expansão do ensino profissional, e questiona se ela estará a ser excessiva, apontando insuficiências e potenciais “efeitos perversos” dessa “pressa” quando comparada com as supostas condições ideais que o processo deveria ter. Um exercício legítimo mas pouco útil, porque deixa de fora o referente de comparação correcto, isto é as insuficiências e os efeitos perversos da situação anterior.
No seguimento dos posts anteriores (este e este), vale a pena recolocar os termos em que o Público coloca a discussão.
2.
Desde logo, não é dada relevância ao facto de o ensino profissional ter sido, até há poucos anos, um sistema baseado exclusivamente em operadores privados. A abertura das escolas públicas a esta modalidade era um imperativo da universalidade do sistema público de educação e um sinal importante da dignidade atribuída ao próprio ensino profissional. Mas era, acima de tudo, urgente para dar a dimensão necessária ao crescimento das vias profissionais, decisivas para o combate a um dos aspectos mais dramáticos da educação em Portugal, lesiva aliás do potencial humano do país: os níveis elevados e persistentes de abandono escolar precoce entre os jovens.
Apesar deste diagnóstico, bem conhecido e consensual, o ensino profissional não estava a ser utilizado com a devida escala para ajudar a manter jovens na escola e para melhorar as suas condições de êxito escolar e de empregabilidade no futuro. É verdade que mais de 30.000 jovens o frequentavam, com uma tendência de lento crescimento; mas é também verdade que este valor correspondia a uma proporção insuficiente e pouco visível do sistema educativo português.
As escolas públicas não estavam preparadas, diz-se. Será, talvez, verdade em muitos casos; é aliás normal que não estivessem, porque foram sempre mantidas à margem do ensino profissional; ou seria o ensino profissional que era mantido à margem delas?
Impera uma “matriz liceal”, como sublinha (e bem) Joaquim Azevedo. Mas devemos legitimar essa matriz redutora, que é um dos factores na origem dos níveis de insucesso e abandono escolares que temos, e permitir que se reproduza indefinidamente? Ou pelo contrário, devemos reformular essa matriz e diversificar os caminhos educativos, por exemplo aumentando a oferta de ensino profissional?
Os que escolhem o ensino profissional não são a “fina flor” dos estudantes, diz o presidente do conselho executivo de uma escola. Mas era suposto que fossem? Foram até agora?
O alargamento do ensino profissional pode “criar guetos”, como se diz no texto? Mas que espécie de conceito de “gueto” é este, que tem uma procura tão crescente (já na casa das muitas dezenas de milhares e a subir em direcção aos 50% de alunos nesta via), que diversifica as opções de todos e que mantém na escola muitos jovens cujos riscos de insucesso e abandono são elevadíssimos? Aí sim, empurrados para o verdadeiro “gueto” das oportunidades de vida, o dos não qualificados.
Há poucos recursos nas escolas públicas para o ensino profissional? Se assim for, é normal porque este não existia antes. E será então tempo de o tornar prioritário também a este nível. Mas isto não significa que não haja “pressa”; significa apenas que o diagnóstico das lacunas e a implementação de melhorias que só podem ser feitos com as estruturas criadas e com o sistema em funcionamento.
3.
Talvez o “ideal” (?) fosse preparar as escolas antecipadamente para esta mudança; mas quanto tempo demoraria, em especial num contexto de austeridade estrutural das contas púlicas? Temos ainda mais esse tempo a perder? Aliás, algum dia as condições ideais estariam reunidas? Pensando na experiência da educação, e de outros sistemas, em Portugal nos últimos 30 anos é dificil admitir, seriamente, que sim.
Num país com o perfil de qualificações da população, e em particular dos jovens, que é de longe o mais frágil da União Europeia, seria aceitável - e possível? - desperdiçar recursos humanos e materiais valiosos para esta reforma? Seria aceitável desperdiçar as competências dos professores e não procurar rentabilizar ao máximo o enorme investimento feito nas últimas décadas no parque escolar do país? Com base em que recursos públicos, que não estes (que são os que existem e não são poucos) se poderia percorrer este caminho, tão decisivo quanto urgente?
Estas considerações não significam que não haja necessidade de melhorar as condições das escolas para que o ensino profissional nelas possa funcionar e mobilizar, ainda mais, os actores educativos para este processo. É essencial e urgente fazê-lo: para não desvirtuar o ensino profissional, para lhe garantir condições de êxito e para impedir que ele continue “menorizado”.
Mesmo que assim fosse, diga-se, sê-lo-ia apesar de tudo dentro da escola pública. O que já seria um enorme progresso por oposição à periferização de que foi vítima durante tantos anos. Porque, dentro das escolas, não haverá desculpa possível para que, a nível nacional e em cada estabelecimento, não se tomem as medidas necessárias.
(de um texto disponível no Outubro)
Da pressa na educação
13 Janeiro 2009, 17:54 · Miguel Cabrita
1.
“Querer andar depressa em educação é trágico. Querer andar depressa para melhorar as estatísticas é perverso”, diz Fátima Antunes, citada pelo Público. Com o caminho que ainda temos para percorrer após quatro décadas de reforma educativa, é notável que este tipo de argumentos seja utilizado.
Apesar de tantas mudanças positivas, andámos muito mais devagar do que seria desejável em muitos domínios da educação; e isso é que é verdadeiramente trágico.
Ao contrário do que se diz, precisamos desesperadamente, e com muita pressa, de mudar de estatísticas negras como as do insucesso e as do abandono antes do fim do secundário. “Perverso” é permitir que estes números “trágicos” se mantenham; e agir como se fossem uma condição natural do país.
2.
Há campos em que temos verdadeiramente pressa. A qualificação das pessoas é um deles.
Não havendo sistemas que não sejam susceptíveis de melhorias, muito menos à partida, nem reformas que cumpram de modo sustentável os seus objectivos sem o empenhamento dos actores envolvidos, quem queira uma melhoria estrutural do sistema educativo e das escolas não pode deixar-se iludir. Demasiados projectos grandiosos de reforma acabaram numa gaveta ou ficaram a meio por se andar não demasiado depressa, mas demasiado devagar: por terem mudado os ciclos e/ou responsáveis políticos, por não terem vencido a inércia dos sistemas, os obstáculos e a “falta de condições”, interesses vários.
Seria trágico que isso acontecesse à actual estratégia, com tudo para ser bem sucedida, para lidar com o insucesso e com o abandono escolar e para dignificar o ensino profissional, integrando-o na escola pública e tornando-o assim vez acessível a cada vez mais jovens.
(de um texto disponível no Outubro)
Caricaturas
22 Dezembro 2008, 19:16 · Miguel Cabrita
CItado pelo Sol de Sábado, o representante de um movimento que se escolheu chamar Mobilização e Unidade dos Professores (MUP), acha ser “caricato que todos os dias o Ministério resolva alterar mais uns pozinhos ao seu modelo [de avaliação] inicial“, que considera estar hoje reduzido a uma “manta de retalhos” (20 Dezembro 2008, p16).
De facto, é caricato: que aspectos importantes do modelo de avaliação dos professores já tenham sido mudados, indo de encontro às pretensões dos sindicatos e dos professores mas que isso, afinal, não sirva para nada; que uma MInistra seja acusada de ser inflexível quando está, afinal, disposta a dialogar sem pré-condições e, pelo contrário, outros que tanto se queixam da falta de diálogo boicotem desta maneira qualquer negociação séria, impondo condições (sobre matérias que não a avaliação, ainda por cima) para sequer se sentar à mesa.
As condições subjectivas da revolução
19 Dezembro 2008, 11:28 · Tiago Barbosa Ribeiro
O sindicato da TAP confirma que a adesão à greve é superior a 100%. Enfim, não sabia que a matemática também já é contra-revolucionária.







