Os Miseráveis
2 Setembro 2009, 19:37 · André Salgado
É certinho como o destino. Sempre que o número de desempregados não atinge o nível de satisfação adequado ao combate político, desabrocham os estudos do economista* Eugénio Rosa, com a cumplicidade de quem morde o isco, a anunciar a marosca: há muito mais desempregados, que são escondidos pelos números oficiais. Malandros. O argumento não é novo, como não é nova a ligeireza política e técnica de onde vem. E é descascável com a mesma facilidade com que o dr. Eugénio Rosa produz estudos. Antes de mais, convém referir, os números oficiais - que são apurados pelo Instituto Nacional de Estatística, organismo independente, e não pelo governo, como é sempre útil relembrar - não escondem falsos empregados ou desempregados subtraídos aos números. As categorias que classificam a população que não é considerada desempregada constam dos inquéritos ao mercado de emprego e são numericamente publicadas e verificáveis. Segundo, como o sabe qualquer economista amador atento aos estudos do mercado de trabalho, os critérios pelos quais se regem os inquéritos do INE para apurar o desemprego oficial obedecem a um Regulamento Comunitário, ou seja, são idênticos em todos os países da União Europeia. Não existe um desemprego malandrinho e manipulado em Portugal. Existe um desemprego oficial apurado, com os mesmos critérios e a mesma seriedade técnica, em Portugal e na União Europeia. Finalmente, estes critérios, que obedecem a uma harmonização comunitária, são os mesmos em 2009, como em 2008, em 2007, em 2006, em 2005, em 2004, em 2003… bem, até o dr. Eugénio Rosa deve estar a ver a ideia. Nada de novo, portanto.
Nada de novo, também, na estratégia e na grelha mental, não estivessemos em ciclo eleitoral e na urgência de arremessar o que for possível. Afinal, ensina-nos a boa herança comunista, todos somos poucos e somos nada para cumprir a revolução. E se para esta se cumprir forem necessários sacrifícios e satisfação por mais um desempregado a servir de adubo para a sementeira da revolução, vão ver, camaradas, mais houvesse para o porvir colectivo. Por cada mártir que caia com fome, um estudo do dr. Eugénio Rosa se levantará. A miséria alimenta-se e há muitas formas de miséria humana. Até a miséria intelectual.
*Economista do gabinete de estudos da CGTP e deputado ocasional do PCP




Mais uma triste demonstração desta coligação vergonhosa entre a direita trauliteira[Correio da Manha] e a esquerda retrógada[PCP].Escrevi Manha sem til de propósito.