Via Nova e Terceira Via

29 Outubro 2008, 12:57 · Filipe Nunes 

Citando de Gaulle, Manuel Alegre reconhece que comete por vezes o erro de ter razão antes de tempo. Voltou, aliás, a cometer esse erro na moção “Falar é preciso”, apresentada ao Congresso do PS em 1999.

Dizia então Alegre: «A crise financeira (…) pode minar, de um momento para o outro, pela incerteza e pela volatilidade, o próprio funcionamento dos maiores centros financeiros do mundo. A ‘mão invisível’ falhou. (…) Temos de continuar a exigir uma reforma das instituições internacionais, do FMI ao Banco Mundial, para que deixem de ser arautos e agentes do pensamento único. Outra lógica terá de presidir à Organização Mundial do Comércio, para que a livre circulação de mercadorias não se torne em mais um instrumento de enfraquecimento das economias mais frágeis. É preciso regular os mercados financeiros mundiais (…).»

É, de facto, extraordinário. Assim de repente, só encontro tamanha presciência no capítulo de um livro escrito um ano antes dessa referência que é a moção “Falar é preciso”: «Crises, erratic fluctuations, the sudden rush of capital into and out of particular countries and regions – these are not marginal but core features of untamed markets. The regulation of financial markets is the single most pressing issue in the world economy (…) The needs are (…) to create greater accountability within the transnational organizations involved in world economic management, as well as restructure them. The idea that controlling the free mobility of capital produces losses of efficiency takes no account of the social and economic costs of crises. »

O livro intitula-se «The Third Way», o capítulo «Market fundamentalism on a world scale» (pp. 147-153) e o autor chama-se Anthony Giddens, esse mesmo: «o ideólogo da terceira via neoliberal».

Comentários

10 Comentários

  1. Hugo Mendes, 29 Outubro 2008, 13:09

    LOLOL

  2. maria henriques, 29 Outubro 2008, 13:15

    la que de facto manuel alegre as vezes se da as figuras tristes e um facto.
    muito bom

  3. l.rodrigues, 29 Outubro 2008, 15:54

    Daqui a uns tempos ainda vão dizer que a Verdadeira Terceira Via nunca foi realmente experimentada. Ou estão a defender que o que se passou durante o governo de Blair era o melhor que se podia arranjar?

  4. Hugo Mendes, 30 Outubro 2008, 1:59

    Caro l.rodrigues: Giddens trabalhou e lançou a ideia da “Terceira Via”; não foi ministro nem teve responsabilidades políticas. No que diz respeito à questao da regulação dos mercados financeiros, é justo dizer que o que a sua perspectiva defendia nunca foi a posição de fundo do New Labour, que nunca quis enfrentar a City de Londres (claro, agora Gordon Brown vem querer apagar os fogos que nunca fez por evitar enquanto responsável das Finanças).

  5. l.rodrigues, 30 Outubro 2008, 15:26

    Caro Hugo Mendes,
    Confirma o que eu disse: a Terceira Via nunca chegou a ser.
    Nunca percebi bem é o que havia de mal com a social democracia “clássica” para ser preciso inventar uma coisa nova, que acabou por ser pouco mais do que uma estratégia de poder com consequências nefastas para o que deveria ser a esquerda. Em Inglaterra como cá.

  6. Hugo Mendes, 30 Outubro 2008, 15:43

    Caro l.rodrigues,

    »Nunca percebi bem é o que havia de mal com a social democracia “clássica” para ser preciso inventar uma coisa nova».

    Porque tinham passado 18 anos desde que o Labour tinha estado no poder e as memórias da social-democracia não eram as melhores. E podemos criticar o New Labour por várias coisas, sem dúvida, mas é um facto que nunca antes o partido tinha ganho 3 eleições.

    Ao mesmo tempo, a Terceira Via tem a marca específica da sua origem britânica, e é em função da economia política e da história recente do país que devemos interpretá-la. Muitas das suas propostas positivas não era particularmente novas à luz, por exemplo, da social-democracia nórdica.

  7. l.rodrigues, 30 Outubro 2008, 17:25

    Caro Hugo Mendes,

    Sem querer arrastar a discussão, creio que coloca o dedo na ferida: o que importa é ganhar as eleições.
    Mas a impressão que fica é que esse pragmatismo é feito à custa de uma passividade ou até cumplicidade com os poderes económicos instalados, de que é boa expressão o “conforto com os absurdamente ricos”, que são os principais responsáveis e beneficiários da crise actual.
    E o mesmo se tem passado cá, embora tenhamos cancros mais antigos…

  8. Hugo Mendes, 30 Outubro 2008, 18:20

    Caro l.rodrigues, o que diz é verdade, mas eu acho que - exagerando um pouco - ainda ninguém inventou uma forma de ganhar eleições e governar em Inglaterra deliberadamente contra a City (talvez a ‘crise’ ofereça uma oportunidade). É por isso que perceber a história dos países é importante para compreender que ideias e práticas governativas são de lá oriundas.
    E, já agora, ganhar eleições parece-me, em democracia, razoavelmente importante, não acha? É que do lado de fora - das políticas de papel que não são passaradas à prática - temos todos razão.

    Cumprimentos
    Hugo

  9. l.rodrigues, 30 Outubro 2008, 21:27

    Claro que é importante ganhar eleições. Mas é igualmente importante perceber bem porque se foi eleito.

  10. maria henriques, 30 Outubro 2008, 23:55

    Bem , quanto a mim o que e mesmo necessario e que quem ganhe eleiçoes perceba o que esta velho e ultrapassado, quais as formulas que foram usadas durante decadas e que para alem de nao terem resultado , trouxeram resultados tao negativos como os que agora se veem ai as voltas pelo mundo, e que se deixe de iludir ou de ter ilusoes.
    Isto se a ideia for viver em democracia e para a democracia.