7 Ideias da noite de ontem

8 Junho 2009, 18:26 · Hugo Costa 

Em democracia aceitar os resultados eleitorais é uma obrigação de todos. Mas tiro 7 tópicos sobre a noite eleitoral:

1 – O Bloco de Esquerda é o melhor aliado que o PSD e a direita podem ter. O PSD apenas ganhou esta eleição pelo facto de a esquerda vanguardista ter subido. Votar Bloco de Esquerda é votar PSD. Votar Bloco de Esquerda é ajudar a colocar a direita conservadora no poder.

2 – O PSD ganhou com a vitória eleitoral mais baixa que alguém obteve em Europeias (em 2004 o PS tinha obtido 44,53%, mais 13% que agora o PSD) e consegue mesmo vencendo quase o pior resultado eleitoral da História do partido em Europeias que se candidatou sozinho.

3 – Existe um estranho proteccionismo da comunicação social ao Bloco. Parece que obtiveram muito mais do que a realidade, mas a verdade é que ficaram apenas separados por 0,1% da CDU.

4 – A mentira e a manipulação do PSD, BE e CDU foram os vencedores. Todos eles apenas criaram populismo e mentiram na realidade para obter um bom resultado eleitoral.

5 – As sondagens eleitorais perderam aderência à realidade. Falharam demasiado. Tem de ser mudados métodos para obter maior fiabilidade. Será que ninguém ainda reparou que já não se utiliza telefone fixo? E não se vê que isso torna os resultados enviesados?

6 – Portugal é conhecido por ser um país conservador, mas a extrema-esquerda consegue obter 20% dos votos. Será que o populismo que leva as pessoas a votar na extrema-direita pela Europa não é o mesmo que leva a votar em partidos anti-poder em Portugal?

7 – Paulo Rangel fez o mesmo de sempre. Nem uma palavra sobre a Europa e a sua preocupação era se o A, o B ou C lhe tinham dados os parabéns. Sobre Europa? Nada!

Comentários

38 Comentários

  1. Pedro Sá, 8 Junho 2009, 20:12

    Excelente análise. Espero que isto tenha servido de uma vez por todas de lição para aqueles que acham basicamente que o BE defende o que o PS deveria defender.

  2. Mariana Trigo Pereira, 8 Junho 2009, 21:08

    Se há eleição em que “Votar Bloco de Esquerda” não é sinónimo de “votar PSD” é esta. Quem votou BE, com toda a legitimidade, não colocou direita nenhuma no poder, pelo contrário. Um pouco mais de espírito democrático, hugo.

  3. Sérgio Pinto, 8 Junho 2009, 22:03

    Hugo Costa,

    Acho vergonhosa a chantagem que faz ao relacionar BE e PSD, já para nem falar da evidente incapacidade de encaixe e de respeito pela Democracia que isso revela.

    E, tal como a Mariana Trigo Pereira diz, e deveria ser evidente para qualquer pessoa, esta é a eleição em que votar BE certamente NÃO equivale a votar PSD.

  4. joão santos, 8 Junho 2009, 22:27

    Maus fígados, hem?

    A culpa da derrota do PS é inteiramente do PS. Ou acha que 4,6% de votos e brancos e uma abstenção de 60% são normais?

    O Bloco nestas eleições aparentemente cresceu sustentadamente, a avaliar pelos resultados.

  5. Hugo Costa, 8 Junho 2009, 23:09

    Concordo com a legitimidade democrática do voto e que eram eleições meramente europeias.

    O que queria demostrar é que com o crescimento do Bloco e a divisão à esquerda nas próximas legislativas podem colocar a direita no poder.

    Em relação à abstenção e votos brancos realmente são consideráveis e devem fazer refletir todos.

  6. Carlos Pinto Mártires, 9 Junho 2009, 0:45

    Caro Hugo Costa,

    Apesar de ser realista algumas das conclusões que tiras-te, existem outras que não congruem com a realidade actual.
    A primeira excepção é referente ao primeiro ponto, onde tu mostras que votos no BE e PSD se enquadram no mesmo “saco”! Essa análise foi precipitada, como sabemos os deputados eleitos estão inversamente ligados no parlamento europeu.
    Outro ponto, é aquele em que fazes alusão ao proteccionismo que existiu sobre o BE, onde achas que o “histerismo” não tem fundamento uma vez que só ficou 0,1% à frente da CDU. Ora isso é um erro. Porém passa despercebido ao fazer a analogia com a CDU, onde esta invocado o equívoco. A comparação deve ser feita em relação às últimas eleições europeias, e visualizar as diferenças percentuais que existem, mas sempre ao nível do BE. Só consegui-mos fazer comparações de evoluções comparando dados do mesmo grupo.
    É ai que se canaliza para a ideia do enorme desenvolvimento, eles conseguiram eleger 3 vezes mais do que em 2004, conseguiram passar a ser o 3º partido mais votado em Portugal. Se foi 0,1% ou não, isso pouco importa, o que importa ver, e alarmar, é a sua subida exponencial.
    Como corolário vemos a grande evolução exponencial que, realmente, eles tiveram.
    De resto, estou em acordo contigo, e dou-te total aprovação.
    Saudações socialistas,
    Carlos Pinto M

  7. bilaxa, 9 Junho 2009, 9:42

    Pode-se enganar alguns portugueses durante todo o tempo,
    pode-se enganar todos os portugueses durante algum tempo,
    mas não se pode enganar todos os portugueses durante todo o tempo.

    Foi isso que os socialistas ainda não perceberam…
    Só mais uma coisa. Dá-me vontade de rir quando ouvia aquela cambada de assessores, comentadores, ministros, jornalistas avençados e afins referirem a invencibilidade de Sócrates.
    Desde que a vitória da maioria absoluta, Sócrates perdeu todas as eleições em que se meteu: - autárquicas, presidenciais, referendo do aborto, europeias e vai continuar por aí fora

  8. Vitor Cunha, 9 Junho 2009, 11:19

    Mas vocês são parvos ou simplesmente estúpidos?
    Aqui vai:

    - Se votar Bloco de Esquerda é votar PSD, está na altura de votar Bloco de Esquerda;
    - Se o PCP e Bloco são extrema-esquerda, o PS é a direita conservadora que tanto namora.
    - Quem escreveu presta vassalagem ao líder que ultrapassa a de secretariado chegando ao toque de requintes eróticos.

  9. Luís Sá, 9 Junho 2009, 11:42

    Algo que eu já defendo há muito tempo, a Comunicação Social publica que o CDS quer proibir a publicação de sondagens durante as campanhas eleitorais. Não me custa nada admitir que acho uma boa medida e defendo-a.
    Relativamente às eleições europeias, considero que ainda é muito cedo para fazer uma análise, pois infelizmente todos os partidos e digo todos “misturaram” eleições. Logo só no final deste ano é que podemos fazer uma análise mais rigorosa.

  10. AP, 9 Junho 2009, 12:31

    É triste perceber que os socialistas não aceitam os resultados. Estão ressentidos, paciência. Em democracia, e tal como o vosso chefe (vá verguem-se) disse, o “povo é quem mais ordena”. Não procurem desculpas para o falhanço, elas estão em vocês próprios, no Largo do Rato, em S.Bento, em José Sócrates e em Vital Moreira.
    O ponto 2 diz tudo, se o PSD ganhou “pior resultado eleitoral da História do partido em Europeias”, então o que dizer do PS?! Voaram 500 000 votos em comparação com 2004! Não é isto um sinal?
    Va lá, sejam democratas e aceitem que em democracia, ora se perde ora se ganha. Não há “ditaduras da maioria”

  11. Ana Cristina Leonardo, 9 Junho 2009, 14:49

    Talvez a falta de inteligência e sentido da realidade que esta análise denuncia explique a derrota do PS. A arrogància é a mesma: antes e depois. Mas há um “mas” que encanita mais do que tudo, e vem logo na primeira frase. Cito
    Em democracia aceitar os resultados eleitorais é uma obrigação de todos. Mas tiro 7 tópicos sobre a noite eleitoral:

    se aceita, o que é que o “mas” está ali a fazer?
    lembra-me logo aquelas frases tipo, não sou racista, mas…

  12. Sara, 9 Junho 2009, 15:21

    Que análise carregada de parcialidade e anti-bloquismo. Espero que o sentido da frase “votar BE é votar PSD” seja apenas porque muitos dos votos que o PS perdeu e que, consequentemente, deram a vitória ao PSD, foram para o BE. Só assim faria sentido. Quanto ao proteccionismo BE nos media, acha que é para menos? Compare a subida percentual do Bloco em relação às últimas eleições. Um partido com meia dúzia de anos passou a 3ª força política! E mesmo assim o discurso de Francisco Louçã foi o único discurso dos representantes máximos dos partidos que foi cortado a meio pelos 3 canais generalistas…
    “A mentira e a manipulação do PSD, BE e CDU foram os vencedores. Todos eles apenas criaram populismo e mentiram na realidade para obter um bom resultado eleitoral.”. Esta frase tem demasiada parcialidade para merecer mais comentários…

  13. l.rodrigues, 9 Junho 2009, 15:38

    1. votar bloco de esquerda é votar bloco de esquerda. Eu já votei no PSD e sei que não é a mesma coisa.

    2.Este a modos que desmonta o 1., não?

    3. Aqui já não sei do que fala, se os gajos triplicaram isso é notícia, ou não?

    4. A mentira e a manipulação (..) foram os vencedores. Ultimamente na politica portuguesa tem sido assim, qual é a novidade?

    5. Aqui estamos de acordo, mas é curioso que normalmente o vencedor é o PS. Não sei se há uma metodologia que postule um primado do status quo…

    6. Não. É outro populismo. Populismo não é necessariamente mau, veja “Populism” na wikipedia:
    Populism is a discourse that claims to support “the people” versus “the elites”. Populism may comprise an ideology urging social and political system changes and/or a rhetorical style deployed by members of political or social movements. Generally, populism invokes an idea of democracy as being, above all, the expression of the people’s will.

    7. Pois… E nem uma palavrinha de agradecimento ao BE. Ingrato.

  14. Hugo Costa, 9 Junho 2009, 15:56

    Boa tarde,

    Aparentemente o ponto que levanta mais polémica é o 1.Quando digo que alguém vota no BE está a ajudar o PSD é no sentido que com a deslocação de votos do PS para o BE o PSD fica a ganhar com isso.
    Votar PSD não é votar BE. Mas votar BE é ajudar o PSD. E mesmo não sendo politicamente correcto dizer, votar BE é votar PSD.

    Em relação ao ponto da votação do BE a verdade é que tiveram muito mais cobertura jornalística e com noticias aparentemente mais protegidas. Já estamos habituados.

  15. l.rodrigues, 9 Junho 2009, 16:15

    Acho que toda a gente percebeu Hugo Costa, mas isso tem um nome: chantagem.
    Tenho a certeza de que se o PS desse boas razões para votar nele, esses votos tinham ficado no PS.

    Agora imagine que eu era um potencial eleitor de um dos dois partidos. Assim uma espécie de Alegrista mas sem cartão de sócio. Já viu o meu dilema?

    Se voto no PS de Sócrates é a mesma politica de que não gostei durante 4 anos e ainda por cima ele vai usar o meu voto para justificar toda a espécie de desbastes ao estado social, privatizações e outras coisa do género, geralmente desagradáveis e económica e socialmente insensatas.

    Se voto no BE, até pode ganhar o PSD, mas não vai fazer nada de dramaticamente diferente do que o PS faria, e entretanto o PS empandeira o engenheiro Sócrates, e volta a assumir-se como um partido de esquerda, e até poderá fazer coligações com o BE que entretanto tem mais 4 anos de jovens votantes a engrossar as suas fileiras (fazendo sociologia à pressa). Hmm qual será a melhor opção?

  16. Vitor Cunha, 9 Junho 2009, 16:34

    Obrigado L. Rodrigues.

  17. Sérgio Pinto, 9 Junho 2009, 17:37

    Hugo Costa,

    É lamentável verificar que, mesmo a frio, mantém a arrogância que tem sido tão típico do núcleo PS que rodeia o Primeiro Ministro.

    Embora demonstre evidentes problemas em o compreender, o PS perdeu as eleições APENAS por culpa própria. E não, não é por culpar os eleitores por escolhas que não lhe agradam que vai reverter a realidade. Nada mau, para quem se arroga o direito de aplicar todo o tipo de rótulos aos partidos que não lhe agradam.

  18. albertino, 9 Junho 2009, 17:44

    os grandes sismos são assim, demoram a ser identificados. a partir de domingo nada será como dantes, obviamente, mas durante uns dias temos o trágico-cómico espectáculo de ver o esforço de muitos em não verem o que realmente se passou. é assim como que à maneira daqueles tipos num manicómio a quererem convencer toda a gente que são, na realidade, napoleão. como nesses casos, também aqui nos resta dizer que sim, que os partidos da oposição passaram um mau bocado que a comunicação social tenta esconder e, com 26%, ó!, com 26% o ps está bem e recomenda-se! e em outubro, tal como os tolinhos que acreditam ser napoleão, os relativos alcançarão ou aumentarão lugares no parlamento, nos gabinetes, nas secretarias de estado, nas empresas públicas. sim tudo vai correr como pensavam! força!

  19. Hugo Mendes, 9 Junho 2009, 17:56

    Caro l.rodrigues, explique melhor por favor essa dos “toda a espécie de desbastes ao estado social”, fiquei curioso.

  20. DCF, 9 Junho 2009, 18:44

    Engana-se, Hugo.

    O ponto mais polémico é o 4º porque revela toda uma grande azia e falta de espírito e cultura democrática. Ora explique-me lá onde é que PSD, CDS e BE sistematicamente mentiram e criaram populismos junto do eleitorado, como Vexa. insinua?

    Que eu saiba quem mentiu com todas as letras desta palavra e todos os dentes que tinha foi o candidato do PS na questão do imposto, na questão do BPN e da lama que foi arremessada, na questão de querer discutir somente assuntos europeus (vidé debate na TVI 24 entre Vital Moreira e Paulo Rangel, onde não se ouviu uma única proposta para a Europa de VM a não ser que queria outro presidente da CE).

    E quem mandou os seus paus-mandado atacarem próprios militantes do partido foi o PS com o inenarravel José Lello a atacar Maria de Belém, Ana Gomes a atirar sobre tudo o que mexia, Elisa Ferreira a fazer insinuações torpes sobre Ilda Figueiredo, Marques Júnior na Comissão Parlamentar de inquérito ao BPN com a sua declaração de baixo-nível e de tom de virgem ofendida que o PS de hoje já nos habituou.

    Nega algum destes factos? Gostaria muito de ler a sua resposta sobre factos e não ficções.

    E gostaria que comentasse ainda a falta de fair-play democrático que revelou o Secretário Geral do PS e o cabeça de lista deste partido em não dar os parabéns de forma pessoal aos vencedores das eleicções europeias: MFL e Paulo Rangel e que se pronunciasse ainda sobre o facto do PSE ter sido o grande derrotado das eleicções.

    Só lhe fica bem.

    Com os melhores cumprimentos,

    Diogo Cordeiro Ferreira

  21. l.rodrigues, 9 Junho 2009, 19:12

    Caro Hugo Mendes,
    toda a espécie de desbastes ao estado social é o espirito dos tempos… alonga-se a idade da reforma, reduz-se as pensões, precariza-se o emprego.
    Claro que com a crise houve uma espécie de coragem (que é a cobardia de quem só vai na corrente) para acudir a alguns aflitos.

    Mas entretanto, nacionalizam-se mais uns prejuízos mas mantém-se o que dá lucro, cuidadosamente privado… coisas assim…
    Na crise, preparam-se umas obras das boas, daquelas que dão dinheiro aos bancos e aos rentistas do costume, com derrapagens orçamentais de 65%… (é o estado que paga estas coisas, é o estado social que sai fragilizado, porque é sempre por aí que é preciso cortar…nunca são os bancos ou os empreiteiros…)… e por aí fora.

  22. Hugo Mendes, 9 Junho 2009, 19:34

    Sim, propor:
    - a idade da reforma aos 50 anos
    - o fim dos despedimentos (ou torná-los tão dificeis que ninguém tem coragem para despedir)
    - acabar com os bancos e com os empreiteiros
    - acabar com o investimento publico em infra-estruturas em tempo de crise (as “obras”).
    - nacionalizar os lucros
    etc.

    …é um grande programa de governo.

  23. Vítor Cunha, 9 Junho 2009, 19:43

    Caro Hugo,

    São essas as propostas do Bloco de Esquerda? Parecem-me óptimas.
    Obrigado por me indicar em quem devo votar nas legislativas.

  24. l.rodrigues, 9 Junho 2009, 19:58

    Hugo Mendes,
    face à qualidade da resposta que deu, acho que toquei aí num nervo qualquer… costuma ser mais articulado e fundamentado.

    Qual é o mal de nacionalizar lucros de monopólios naturais, ou de conglomerados como o do BPN que nos deixam a batata quente na mão?

    Quem falou de reforma aos 50? E se trabalhei desde os 10, porque não?

    Porque é que hoje se acha normal que um licenciado chegue aos 30 anos e mais não tenha um projecto de vida e se tenha que sujeitar a 500 euros por mês sem férias ou contributo para a reforma?

    Porque é que os bancos não são colocados no seu lugar (como instrumentos ao serviço da economia real, a que produz) e não como casinos ou sanguessugas?

    Porque é que as camaras precisam de urbanizar tudo e mais alguma coisa, reservas naturais incluidas, para ter fundos e ficam reféns de empreiteiros que fazem casas que ninguém pode comprar?

    Porque é que as obras de infra-estrutura têm que ser mega projectos entrgues a meia duzia de empreiteiros e não, por exemplo planos compreensivos de revitalização das principais cidades, com restauro de bairros históricos da rede de saneamento etc, que são muito mais intensivos em mão de obra, e estimulam muito mais pequenas e médias industrias do que mais uma autoestrada, barragem ou aeroporto?

  25. Hugo Mendes, 9 Junho 2009, 20:39

    Caro lrodrigues,

    Pensei que estávamos a falar de “Estado social” e não de política urbana, energetica, ou de competição. Sobre esses temas deixo-o com o conforto da sua verdade.

    Mas já agora: eu gosto de ver as pessoas preocupadas com as empresas rentistas; quando o Governo liberaliza, levantam-se logo todas as vozes contra a competição, o “neo-liberalismo” e contra o mercado interno da UE, criado precisamente para evitar situações de monopólio nacional nas áreas industriais, energéticas, de telecomunicações, etc. (os monopólios naturais são muito menos “naturais” do que os que aparecem descritos nos livros de economia pública; é tudo uma questao de grau)
    A política que defende é legítima, mas nenhum país da Europa o leva a cabo já desde os anos 80 - os governos cansaram-se de gastar dinheiro com empresas ineficientes. Entretanto os preços desceram e os serviços melhoraram. Há casos em que isto nao acontece? Sem dúvida. Significa provavelmente que falta liberalizar mais (mas não faço disto nenhum dogma)

    Já agora, diga-me quantas pessoas descontam desde os 10 anos de idade. Em seguida, gostava de saber como pagamos as reformas das pessoas se a idade da reforma nao for aumentada. Para quem quer defender o Estado social, esta parece-me ser um problema assim não completamente irrelevante: ter dinheiro para pagar as pensoes a longo prazo.

    Quanto à geração dos 500 ou 600 ou 700 euros, estou tao preocupado como o senhor, simplesmente gostava de saber a solução mágica. É impedir ou dificultar ao máximo os despedimentos? É isso? É aumentar a função pública e pagar-lhes 1500 a todos? É isso? Talvez o défice de 3% imposto pelo PEC seja pequeno. Mas o nosso défice estava quase nos 7% em 2005, e o país estava melhor? Quanto é que precisamos para o país estar assim melhor? 10% de défice? 15%? 20%? É este o programa da esquerda, o “tax and spend” com total deprezo pelas finanças públicas?

    É que esse tom de superioridade moral dá a ideia de que alguém tem uma varinha mágica para resolver os problemas. Se a tem, partilhe-a connosco.

    Já agora, é o recuo do “Estado industrial” que permitiu que todos os países tenham feito crescer o “Estado social”. Podia ter referido o aumento do salário minimo, o complemento solidario para idosos, os vários aumentos do abono de familia, a acção social escolar, os computadores para centenas de milhares de crianças, as políticas activas de emprego, etc., - se isto nao é Estado social, é o que? Ou vai dizer que são esmolas? Portugal gasta hoje quase tanto de % do seu PIB quanto os paises mais ricos, cerca dos 25%. Fazemos um esforço nacional no Estado social próximo do que faz, em % do PIB, próximo da Noruega, e no entanto temos um nivel de qualificações que nos aproxima do México. Já reparou nisto? Eu sei que isto não é muito simpático para a esquerda bloquista; eu também sou a favor de um Estado social maximalista e generoso - simplesmente, convém não esquecer que o temos de pagar. E para pagar, temos de competir no mercado internacional. E para competir no mercado internacional, temos de ter em conta os custos de trabalho e os níveis de carga fiscal, uma vez que não é propriamente boa ideia dar sinal ao investimento estrangeiro que aqui todos acreditamos na “história dos coelhinhos na toca” contada pelo Prof.Louçã. Gostava de o ver como Ministro das Finanças: não durava um mês. Pediria a demissão e diria que o sistema não o deixa fazer as políticas que quer. Entre a realidade e a ilusão, há sempre quem escolha a ilusão.

    Cumprimentos
    Hugo

  26. Hugo Mendes, 9 Junho 2009, 20:53

    Caro Vitor Cunha,

    Ora essa. Posso mesmo apontar alguns exemplos históricos de países que seguem o “espírito de outros tempos”. Pode começar pelo “A”, assim por Albânia.

  27. Vitor Cunha, 9 Junho 2009, 21:15

    Caro Hugo Mendes,

    Entenda-me desta forma: não se deve conter um gás, aumenta a pressão interna. E perdoe-me a expressão mas é mesmo esta a do Portugal real - se é para dar o peido, faça-o ecoar.
    Com estado social miserável a morrer de qualquer maneira, prefiro morrer ao som de violinos.
    Já agora, a Albânia foi um dos dois únicos países europeus com crescimento positivo, já tem a entrada alinhada no clube da teta europeia onde irá, com toda a certeza, usar de muito mais ética nacional no que diz respeito à injecção de fundos comunitários.

    Há 35 anos à espera da responsabilidade política ando eu - venha agora a irresponsabilidade (não pode ser muito pior) que já estou calejado.

  28. l.rodrigues, 9 Junho 2009, 22:06

    caro hugo mendes,

    Não há dinheiro para isto, não há dinheiro para aquilo, mas nunca faltou dinheiro para pagar a empreiteiros incompetentes, não faltou dinheiro no país para alimentar o lucro dos bancos, não falta dinheiro em contas offshore, e não falta dinheiro para tapar buracos criados por banqueiros fraudulentos. Faltam medidas contra a corrupção mas quem falava nisso foi mandado embora…;)

    Diz que gastamos tanto dinheiro como a Noruega. Mas teremos um pais tão igualitário como a Noruega? E cobramos tantos impostos como a Noruega? Os nossos ricos são tão socialmente responsabilizados e responsáveis como os deles?
    É que também não faltou dinheiro no passado recente para as marcas de carros de luxo baterem recordes sucessivos cá no burgo. E não me venha falar de inveja.

    Falar do nivel de qualificações parece-me um pouco vazio quando tanta gente qualificada não encontra trabalho em portugal. Quantos bolseiros doutorados ficam lá fora? Quantos licenciados nos call centers a vender pacotes de telecomunicações?

    A culpa não é só do PS claro, que isto vem de trás. Mas é o que acontece quando num país atrasado, sem tecido industrial de nota, o governo deixa “ás forças vivas do mercado” a responsabilidade definir o que há-de ser o progresso económico do pais. Podemos começar por culpar o Cavaquismo, mas depois disso já passaram quase 20 anos.

    A Politica Europeia no que respeita a empresas como a EDP é imensamente questionável. Mostra uma fé no mercado que a realidade desmistifica. Não é mais eficiente, não é mais favorável ao consumidor e crucialmente nos tempos que correm, não prepara o futuro de forma sensata. Mas isso são outros quinhentos.

    Quanto às minhas verdades, eu apenas fiz perguntas.
    Quanto à minha superioridade moral. Não tenho. Não sou militante de coisa nenhuma. Não sirvo nenhuma estratégia partidária.

    Sou só um gajo, por sinal um bocado preguiçoso, que se sente defraudado porque o futuro não é nada do que me foi prometido.
    E olhe que nunca fui em amanhãs cantantes.

  29. l.rodrigues, 9 Junho 2009, 22:57

    Já agora, vale mais ler o que escreve Paulo Pedroso no seu blog Banco Corrido, do que preocupar-se em responder-me. É tempo muito melhor empregue. Chamo a atenção para o ponto 1.

    http://bancocorrido.blogspot.com/2009/06/rescaldo-das-europeias-pensar-nas.html

  30. Hugo Mendes, 10 Junho 2009, 2:40

    Caro l.rodrigues,

    Polémicas à parte sobre a corrupção que é sempre fácil levantar - A é corrupto, B é corrupto, C é corrupto, ….Z é corrupto, mas depois se alguém diz que sao mercados a funcionar que acabam com a corrupção e que estes devem funcionar melhor, é logo apelidado de “neo-liberal” - vale a pena explorar a questao da Noruega. Claro que não somos tão igualitarios como a Noruega. Mas como podemos ser, de um momento para o outro? Expropriamos a riqueza do 0,1% mais ricos? Nacionalizamos a SONAE? Eu também estou preocupado com as off-shore, mas nao me parece quea solução seja nacional. Infelizmente.
    Se gastamos 25% do nosso PIB, como a Noruega, signifca que fazemos um esforço equivalente, mesmo que sejamos mais pobres. É isso que é politicamente e economicamente relevante. Nenhuma pais gasta na dimensao social mais do que 32, 33% (Suécia). E a Suécia é bem mais rica do que nós (os gastos em protecçao social estão fortemente associados com o nível do PIB). Nós podemos gastar mais uns pontos percentuais em pensões e subsidios e transferencias, podemos - de devemos, e está alias em curso se as pessoas se dignassem a olhar para as estatísticas em vez de ouvir o Prof. Louçã a mentir na televisão - até reduzir a pobreza de forma significativa. Mas vamos continuar a ser um pais pobre por comparação com a Europa. Achar que isso das qualificações nao interessa é simplesmente não perceber o funcionamento da economia moderna. Se existem licenciados desempregados - e o desemprego é mais baxo que nos menos qualificados - é porque o nosso padrao de qualificações, nos ultimos 10 anos, mudou mais rapidamente do que o nosso tecido producivo. É esse o desajuste. A solução nao é impedir o aumento das qualificações - solução conservadora; é isso que a esquerda propõe? -, mas acelerar a modernizaçao do tecido produtivo, que é particularmente dificil quando a nossa economia tem propriedade muito fragmentada e muitos proprietários pouco qualificados, com défice na capacidade de gestão, com mão-de-obra igualmente pouco qualificada. Olhe para a nossa estrutura de qualificações: 2/3 da população tem o 9.º ano ou menos. Compare - para manter a comparação - com a Noruega (ou a Suécia, ou Alemanha, ou a França, ou…), e verá as diferenças. Como fazemos? Expropriamos os pequenos proprietários e modernizamos à força as empresas? Transformamos pessoas com o 9.º ano em licenciados especializados em tecnologia de ponta com o estalar dos dedos? Diga lá como resolvemos este problema de milhoes de pessoas com a sua varinha mágica. Diga lá como é que em 4/5 anos deixamos ter uma economia cujo grosso deixa de concorrer com a China para passar a concorrer com os paises e as industrias de ponta. Diga sff como fazem omeletes sem ovos. Quando tiver a formula, podemos então aplicá-la.

    Cumprimentos
    Hugo

  31. l.rodrigues, 10 Junho 2009, 8:23

    Diga lá como é que em 4/5 anos deixamos ter uma economia cujo grosso deixa de concorrer com a China para passar a concorrer com os paises e as industrias de ponta.”

    Sim, se me explicar como é que em 20 anos deixámos de ambicionar ser como os alemães para nos conformarmos a ser como os chineses.

  32. Vítor Cunha, 10 Junho 2009, 9:28

    É preciso descaramento para falar da Noruega e de Portugal como se fossem sequer comparaveis.
    Podia enumerar as diferenças mas bastam as duas:

    - Os Noruegueses não são dados a tretas. Se um primeiro-ministro promete descida de impostos e os sobe arrisca-se a sofrer um terrível acidente de caça ao alce. O mesmo se diz de um vizinho que desvia água ou rouba galinhas - o o estado facilita a resolução do problema num mês ou dois ou o próximo frango assado é o vizinho do lado.

    - Nenhum noruguês defende o seu clube partidario de forma irracional (ou seja, plenamente confiante, nunca suspeitando). Primeiro porque aprende a ler e a escrever mesmo que cave batatas, segundo porque a política dos países desenvolvidos baseia-se na regulação da gestão local onde os problemas da comunidade são mais relevantes que os problemas lá da intriga palaciana do Terreirito do Paço de Oslo.

    - O governo central nem sonha em tentar fazer o trabalho que compete à autarquia, paróquia ou lá o que lhe quiserem chamar. Se o tentar fazer à rebelia da vontade local arrisca-se a uma carga de sachola. Depois, há o factor mais importante de todos: a confiança desenvolve-se a nível local, não atraves da propaganda terceiro mundista do populismo, goste-se ou não, de inspiração Estalinista.

    Isto tudo para dizer que falam bastante da cartilha de quem vota BE ou PCP mas quem a demonstra conhecer ao detalhe microscopico são os senhores que fazem parte dos Diabos Vermelhos da política. Os do futebol são bem mais fáceis de agradar - basta ganhar jogos e um bocado de porrada. Os senhores da defesa cega do sistema são fundamentalistas com bombas ao peito prontos a sacrificar-se por ordem (ou sugestão) do líder.

    Pensar também é bom mas mais cedo ou mais tarde tratarão de decretar também sobre isso, sobre os grupos subversivos que simplesmente desconfiam do líder.

    Waco espera-vos.

  33. Hugo Mendes, 10 Junho 2009, 13:16

    Caro l.rodrigues, vejo que não responde a nenhuma das minhas perguntas dificeis, que se resumem ao problema de como é que se fazem omeletes sem ovos.
    E não estou a falar de ambição: podemos ambicionar ser o que quiser (alemães, americanos, russos); o problema nao é de ambição, é de recursos vários (como é que podíamos ambicionar ser alemães há 20 anos quando - assim por alto - 4/5 da população não tinha o 9.ano?), e a partir destes de estratégia e capacidade de a concretizar.

  34. Vítor Cunha, 10 Junho 2009, 15:39

    Hugo,

    Está visto que tem as respostas.
    Obrigado por salvar o país só com um post.
    Já mudei, obviamente, a intenção de voto.
    Política da queda do muro é a salvação.
    Voltemos então ao choque fiscal já que ele não volta sozinho para nós.

  35. João Oliveira, 10 Junho 2009, 16:57

    Caro Hugo,

    Votar BE é o mesmo que votar PSD ? Não lhe soa demasiadamente simplex ?…

  36. l.rodrigues, 10 Junho 2009, 17:58

    Hugo Mendes.

    Convergência, diz-lhe alguma coisa? Se não estamos ainda mais longe dos alemães é porque também eles têm sido empurrados para baixo. “É a globalização” dirá.
    Mas a questão é se ela tinha que ser feita à custa de quem trabalha e para beneficio exclusivo de quem detém o poder económico (de preferência bem ancorado no político).
    Não tinha. Mas é a atitude de resignação perante as inevitabilidades e a ausência de alternativas que eu condeno. Os partidos socialistas por essa europa fora estão a ser varridos. Porque as pessoas olharam para eles à procura de alternativas e não as encontraram.

    Entretanto não faltam ideias por aí. Pouco realistas, pouco pragmáticas? Mas as únicas que nos dão esperança. E não de um futuro risonho e idilico. Mas apenas de um futuro. Porque as que têm prevalecido até aqui…

    Uma pista. Experimente esquecer por um momento que o mercado deve ser deixado a si mesmo. Já viu as possibilidades que se abrem?

    Experimente dirigir por exemplo tudo o que é consumo de energia no sentido de redução, de mais eficiência, de menos emissoes poluentes.

    Experimente medir os objectivos não em crescimento económico, no sentido de capacidade de aquisição de um telemóvel novo todos os anos, mas em qualidade de vida, no sentido de um mínimo de segurança e liberdade, de tempo, de bom ambiente.

    (Experimente já agora estudar a função exponencial e perceber porque é que “o crescimento” não é lá muito boa ideia).

    Como é que se fazem estas coisas? Com regulação e impostos, apoiando o que é desejável, penalizando o que não é. Na verdade é isso que fazem os governos. Basta quererem. Outra ordem europeia seria benéfica, claro. Mas alguém há-de dar o exemplo…

  37. AL, 10 Junho 2009, 22:31

    .. colocar ‘a direita’ no poder.. mas querem ‘direita’ mais ‘direita do que a que nos tem governado nos últimos 4 anos?

    Deixemo-nos de tretas, os conceitos de ‘esquerda’ e direita’ já eram!
    E o hábito, neste caso, não faz o monge, não se é ’socialista’ de nome, mas de práticas.

  38. Pedro Sá, 11 Junho 2009, 14:44

    Eu muito gostava de saber o que é que estes arautos de um socialismo qualquer que dizem defender, tal como dizem que quem é efectivamente socialista não o é, mudariam em concreto na política do governo.