Do que é que a social-democracia europeia se pode orgulhar nos últimos 20 anos?

6 Novembro 2008, 20:17 · Filipe Nunes 

De que é que a social-democracia europeia se pode orgulhar nas últimas décadas?, pergunta Ricardo Paes Mamede (RPM). Parecendo que não, a resposta a esta pergunta até dava um número razoável de posts. Mas fiquemo-nos pela «prática dos governos Blair», de que fala RPM, e deixemos para já o Senhor Delors. De facto, para usar as expressões de RPM, deitar a «terceira via» (uma proposta de renovação da social-democracia) para a fogueira da história como uma emanação do neoliberalismo seria tão absurdo como deitar a social-democracia para a fogueira da história como uma emanação do comunismo. Deitemos apenas para a fogueira da história a expressão («terceira via», que tantos equívocos gera) e olhemos para o que fez o partido europeu que com ela mais se identificou.

Os Governos do New Labour têm sido avaliados basicamente à luz da sua “relação especial” com os Estados Unidos (e, como tal, com Bush), ignorando-se frequentemente aspectos diferenciadores, mesmo no plano internacional: ao contrário de Bush, Blair assinou o protocolo de Quioto, aderiu ao Tribunal Penal Internacional e teve resultados positivos ao nível da cooperação para o desenvolvimento. É verdade que falhou na adesão à moda única, escolheu más companhias na EU (Aznar, Berlusconi, etc.) e não conseguiu criar as condições globais necessárias à concretização das recomendações regulatórias que, pelos vistos, vieram de figuras tão diferentes como Anthony Giddens e Manuel Alegre. Mas não será certamente por acaso que é Brown, e não outro líder qualquer, que está agora a liderar o debate em torno da reforma das instituições económicas internacionais.

De resto, pouco esforço se faz para reconhecer a natureza progressista das políticas públicas de Blair. Eu próprio já tinha desistido desse exercício a que esta pergunta de RPM me obrigou a voltar. O New Labour teve o mérito de trazer para o governo duas correntes ideológicas que estiveram quase toda a segunda metade do século XX de costas voltadas e (por isso) na oposição: liberais sociais e trabalhistas. Partindo de uma herança neoliberal deixada pelos conservadores (e o ponto de partida é sempre importante), as políticas dos trabalhistas têm tido inegavelmente a marca da social-democracia (que sempre foi «reformista e revisionista», caro RPM). Assim de repente, recordo-me: da democratização do sistema político (proporcionalidade nalguns sistemas eleitorais, a devolução de poderes à Escócia e Gales, fim da hereditariedade na Câmara dos Pares); da igualdade de direitos entre casais heterossexuais e homossexuais; da criação do salário mínimo; da aposta na educação (compare-se o parque escolar em ‘97 e agora; compare-se o acesso das escolas britânicas às novas tecnologias com o que se passa noutros países); do aumento do investimento no Serviço Nacional de Saúde (melhores condições para os profissionais, redução das listas de espera). A concretização destas políticas foi (até agora) sempre acompanhada por níveis elevados de emprego e crescimento e, claro, pelo «neoliberal» controlo orçamental.

Então e a pobreza e as desigualdades, preocupações clássicas da social-democracia, perguntarão os Ladrões de Bicicletas? Também aí os resultados vão na direcção certa, apesar da concepção blairista de igualdade como igualdade de oportunidades. A política fiscal foi usada para reduzir a pobreza e promover o emprego. Entre 2000 e 2005 as taxas de pobreza e desigualdade baixaram no Reino Unido, a um ritmo superior ao dos restantes países e a experiências trabalhistas passadas (OCDE). E como sei que os Ladrões de Bicicletas gostam de números aqui têm mais alguns: entre 1997 e 2005, 2.5 milhões de pessoas saíram da pobreza; e se hoje em dia um quinto da população vive abaixo do limiar da pobreza, em 1997 era um quarto da população que estava nessa situação. (Sim, vem no Giddens, Over to you, Mr Brown.)

Dez anos depois, o neoliberalismo, face ao qual Thatcher dizia «there is no alternative», deu lugar a um consenso de centro-esquerda. Blair, ao contrário de Clinton (que ao fim de dois anos tinha um congresso republicano), teve o mérito de conseguir virar o centro do sistema político para a esquerda, e a melhor prova disso é a necessidade de aproximação de David Cameron, não só ao estilo, mas também às políticas de Blair. Claro que Blair desiludiu em muitos aspectos e não conseguiu fazer as rupturas necessárias de que fala o Paulo Pedroso. Mas neste preciso momento o pior que podia acontecer à social-democracia era perder o tal «orgulho nos seus últimos 20 anos» e desvalorizar (ou ignorar) o que fez, nomeadamente o que fez bem.

Comentários

3 Comentários

  1. jorge miguéis, 7 Novembro 2008, 10:03

    90% de acordo, Filipe.
    Falta, contudo, que nos fales abertamente sobre os “malefícios” do blairismo e as suas consequências no futuro próximo, nomeadamente o afastamento da “esquerda social democrata” do poder no RU - mais do que previsível - durante um período tão dilatado quanto foi o do tatcherismo.

  2. Filipe Nunes, 7 Novembro 2008, 11:23

    Caro Jorge Miguéis,

    É bem possível que, apesar do recente sucesso internacional de Brown, os trabalhistas voltem a ficar afastados do poder durante muito tempo. Mas duvido que, com Cameron, voltem as políticas dos anos Thatcher. Para ficar esse tempo todo no poder Cameron vai ter de apelar à maioria que hoje se identifica com os valores de centro-esquerda. E isso faz toda a diferença.

  3. l.rodrigues, 7 Novembro 2008, 13:26

    No meu entender não faz, Filipe Nunes.
    Num e noutro caso, Blair e hipoteticamente Cameron, há um conformar com o “espirito do tempo”, vergando aquilo que são as suas convicções expressas a uma espécie de “pragmatismo” sobrevivalista. Blair foi em grande medida o que Cameron quereria, mas não poderá ser.

    Se calhar é assim mesmo… o pêndulo das sociedades. E nesse caso não interessa quem governa nem porque o faz. Mas nisto, eu não acredito.