Escola e leitura

6 Março 2009, 16:05 · Hugo Mendes 

António Barreto na revista ’Ler’, 2009

«Passaram 50 anos e, por razões diferentes, a escola hoje destrói a leitura. Seja com a análise estruturalista linguística dos textos, seja pela ideia de que escola tem de ser mais a acção e tem de ser mais projecto e mais mil coisas que fazem a nova escola. A leitura na escola é a última das preocupações.»

 

António Barreto na revista ’Análise Social’, 1995

«Portugal distinguiu-se, até aos anos 60, pela crónica incapacidade para escolarizar a população,evitar o analfabetismo e proporcionar aos cidadãos um grau satisfatório de instrução. Até finais da década de 60, os progressos foram extremamente lentos. A partir dessa altura verificou-se uma quase explosão escolar. Em menos de trinta anos, o analfabetismo jovem foi praticamente eliminado, enquanto sobra algum analfabetismo adulto, menos de 9% da população. No ensino secundário público (os actuais 10.° a 12.° anos), a frequência passou de cerca de 8000 para quase 300 000!»

 

Vale a pena perguntar algumas coisas a António Barreto:

- se estávamos melhor com uma escola que “preza” ou “cultiva” a leitura (ou pelo menos que não a “destrói”) num país que escolarizava uma pequeníssima parte de população, sendo que a maioria era analfabeta ou quase, como há 50 anos.

- se a leitura, no que toca ao que se lia, como se lia, com que objectivo, etc., há meio século, pode continuar a ser ensinada e cultivada hoje da mesma forma numa escola secundária que passou de uma população de 8 mil alunos para 300 mil.

- o que encontrou na literatura científica para apoiar a sua conclusão, e o que mostra esta em relação ao efeito que as novas tecnologias têm sobre a leitura: é de substituição ou de complementaridade/sinergia?

É que, assim de repente, a conclusão que posso inequivocamente tirar das últimas décadas é esta: nunca a população portuguesa leu tanto; e nunca esteve tão exposta às novas tecnologias e mobilizada para o seu uso.

 

Parece-me que não é uma feliz coincidência.

Comentários

3 Comentários

  1. Piedade Braga Santos, 6 Março 2009, 18:01

    Não poderia estar mais de acordo. Porém, para além dos estudos científicos que estão por fazer (”et pour cause”) existe, parece-me - que me desculpe o António Barreto pela observação - um preconceito ideológico e de classe na sua análise. Por isso manifestei no comentário anterior o meu incómodo. Também dei aulas na universidade e tenho um filho adolescente. Convivi com as profundas alterações no sistema de ensino desde os anos setenta. A realidade é o que é e não se compadece com saudosismos, mesmo que inconscientes. Necessita sim, de ser estudada e analisada nas suas causas profundas e próximas, sem preconceitos nem ideias feitas sobre o que deve ou não deve ser lido por uma população escolar em constante mutação - veja-se o fenómeno dos filhos dos novos imigrantes.

  2. joão silva, 6 Março 2009, 18:32

    o antónio barreto já não é um homem do nosso tempo. já não percebe o tempo em que vive (teria certamente algum interesse em saber porque é que parte da opinião publicada é dominada por pessoas que não são deste tempo: mário soares, adriano moreira, manuel alegre, antónio arnaut, ferreira leite, etc). além disso deixou-se enredar em opiniões com objectivos claramente políticos, e portanto deixamos de perceber se as suas opiniões são realmente aquilo que pensa ou se são ditadas por mero arremesso político.

  3. Carlos Santos, 6 Março 2009, 22:58

    Olhe eu tive uma feliz surpresa nesse domínio da cultura em Portugal: http://ovalordasideias.blogspot.com/2009/03/lideranca-na-nao-ficcao-no-ranking-da.html