OCDE desmente Nuno Crato (título tablóide, eu sei)
18 Junho 2009, 2:49 · Hugo Mendes
Já é habitual: em tempo de exames, Nuno Crato é a cara e a voz da Sociedade Portuguesa de Matemática na luta contra o “facilitismo” reinante.
Como é provável que volte a ser entrevistado no decurso das próximas semanas, deixo aqui um pedido sincero a um(a) jornalista que tenha a ocasião de falar com ele: pergunte-lhe como explicar estes dados da OCDE (atenção: o relatório não foi encomendado pelo Governo) que descrevo aqui, e que contrariam o que Nuno Crato diz há anos na TV, nos jornais e em livros. O país interessado nas coisas da educação agradecia (e o “jornalismo de investigação” - é verdade, os dados estão perdidos no meio de um relatório de 300 páginas, é preciso procurá-los com um pouco de paciência - podia deixar de significar apenas “descobrir os podres dos políticos”).
É que se a crítica ao “facilitismo” nos exames tiver tanta consistencia empírica como a crítica ao “eduquês” (a quem Nuno Crato atribui quase todos os males do nosso sistema educativo), então…Talvez tenhamos que esperar, um dia, por um estudo da OCDE para (ajudar a) resolver a questão. Até lá, o mesmo discurso estereotipado terá o mesmo monopólio de sempre na imprensa (e a mesma condescendência jornalística também: a “agressividade” e o “jornalismo de investigação” só servem, todos sabemos, para encostar os ministros e políticos à parede - nunca os seus críticos, que têm carta branca para dizer o que lhe apetece sem que o que é dito tenha de ser justificado ou validado).
Agora, fazer “exercícios” como o Expresso fez no sábado passado de “comparação de exames” - mas afinal não se “comparam exames”, o que se “compara” são problemas a vulso, escolhidos provavelmente entre milhares de exemplos possíveis - é brincar com coisas sérias.




Com a autoridade, permita-me a arrogância, de não apreciar as críticas do sr. Nuno Crato, e de, tivesse-me calhado responder a tal inquérito, tender muito mais para o “construtivismo” que para o “transmissionismo directo do conhecimento”, lamento informá-lo de um pormenor talvez relevante: o facto de a maioria dos professores defender práticas pedagógicas velhinhas não é tido nem achado no tal problema do “eduquês”, pela simples razão de uma coisa ser receber uma formação, chamemos-lhe “modernaça” e outra concordar com ela e praticá-la, mesmo desobedecendo por vezes a orientações superiores.
De resto assumir essa formação não seria fácil, já que o tal eduquês se caracteriza por uma linguagem que se pretende hermética mas científica, e o mais das vezes não significa rigorosamente nada. Duvido que o comum dos professores, por mais que se esforce, tenha capacidade para sequer verbalizar o que muitas vezes recebe como formação, quanto mais aceitá-lo, contrariando toda a sua tradição cultural.
Dou-lhe um exemplo: para combater os excessos de retenção no ensino básico (que os houve, e ainda há), a hierarquia terminou por optar pela arma administrativa, burocratizando de tal forma a reprovação que a aplicação da lei do menor esforço fez o resto, prova de que pela via argumentativa e formativa não se ia lá.
De resto o gráfico é bem interessante pela distribuição geográfica dos países, da direita para a esquerda, se pensarmos na sua história recente. Mas isso já é outra conversa.
Nuno Crato e os seus seguidores deveriam investigar o que se passa nos países que surgem nos lugares cimeiros quanto à aprendizagem. Talvez assim percebessem que é o construtivismo, mitigado com outras teorias pedagógicas, que impera e é responsável pela elevada qualidade das aprendizagens dos alunos e docentes.
Por cá as práticas que continuam a vigorar assentam essencialmente no professor e no ensino (e pouco na aprendizagem). Uma boa parte dos docentes portugueses, embora jovens, são “já velhos”!
“É brincar com coisas sérias.” pode dizer-se o mesmo do título e da efectiva deturpação que faz da mensagem do Nuno Crato e dos que lutam contra o facilitismo (sem aspas) reinante. O que está enquadrado como “construtivista” não é aquilo que os críticos do eduquês se queixam, como quer fazer parecer. http://is.gd/15v6j
Caro João Cardoso,
No geral concordo com o que diz;, pelo que percebo, reforça a ideia que já tinha defendido num texto antigo (http://blog.fundacaorespublica.pt/?p=370). Entre a formação e a efectiva prática em sala de aula vai uma distancia tão grande que se abre um espaço à intervençao de múltiplas variáveis de cariz institucional e organizacional - como o exemplo que dá - sobre as quais a crítica ao “eduquês” nada diz.
Cumprimentos
Hugo
Caro Francisco
«O que está enquadrado como “construtivista” não é aquilo que os críticos do eduquês se queixam, como quer fazer parecer».
Não fico minimamente convencido com a sua opinião. Esta é a questão essencial. O índice construído pela OCDE assenta em 4 frases que representam muito bem a definição de Nuno Crato (e outros autores, como o Carlos Fiolhais) apresenta nos seus escritos sobre o eduquês.
A outra questão é que está a misturar coisas diferentes. A crítica ao “eduquês” e a crítica ao “facilitismo” são coisas diferentes - mesmo que os que criticam o primeiro e o segundo sejam as mesmas pessoas. A minha pergunta é só esta: o eduquês é hegemónico nas atitudes e práticas dos professores portugueses ou não? Não estou a dizer que o eduquês promove o facilitismo ou não - isso é toda uma outra questao (que deixo alias clara no post - e o link entre as duas coisas diferentes é hipotético).
Quando escreve: »É por isso que lutam os anti-eduquês; não é contra a inovação na escola, é contra o facilitismo e não é isso que está em causa neste estudo», não posso estar mais de acordo: nem eu nem o estudo da OCDE estão a falar de facilitismo, mas de incidência empírica de um determinado tipo de crenças. É só isso. Sugiro-lhe a leitura deste meu texto: http://blog.fundacaorespublica.pt/?p=370
Sim, talvez o construtivismo - ou certas apropriações dele - promova o facilitismo - não tenho nenhum problema em equacionar essa hipotese -, mas entao temos que perceber como exactamente; e como, por exemplo, é que países onde as práticas pedagógicas são mais influenciadas pelo construtivismo têm melhores resultados que Portugal.
Quando escreve no seu post, «pode-se adoptar uma atitude enquadrada neste conceito de “construtivista” sem comprometer o grau de exigência e de responsabilização», também não tenho nada a discordar. Mas a relação intrínseca entre construtivismo e laxismo não é feita por mim nem por si; ela trespassa os escritos do Nuno Crato, que aliás, nunca estuda crenças ou práticas de professores, mas textos. Isto é metodologicamente muitíssimo frágil. Se calhar Nuno Crato tem razão em muito do que diz. SImplesmente, está longe de fornecer provas empíricas nesse sentido. Esta parte do argumento é sobretudo metodológica, não é de substância.
Por fim, não acho que a correlação com a evasão fiscal seja muito feliz. O link teórico é o «disposição comportamental dos cidadãos»? Parece-me teoricamente fraco, até porque estamos a falar de crianças e de instituições muito particulares, como as escolas. (mais importante é perceber de onde vem essa “disposição comportamental dos cidadaos”. E aí precisamos de saber como estao organizadas as escolas e as familias, mas isso é outra discussão)
De qualquer forma, a sua hipótese de que «talvez as relações “construtivistas” sejam mais facilmente postas em prática em lugares onde as pessoas são mais cumpridoras em geral» é pertinente. Certas estratégias pedagógicas podem ser eficazes em certas condições, e ineficazes noutras.
Mas repito: a minha preocupação inicial não é saber se o construtivismo é bom ou mau para as aprendizagens; é saber se ele é hegemónico em Portugal como afirma Crato ou nao. Se ele fosse, os dados da OCDE deveriam ser outros - até porque o índice parece-me bem construido, e representa bem o paradigma que os “anti-eduquês” atacam.
Cumprimentos
Hugo
Li com atenção os seus posts antes da primeira resposta. Afirma: “Não estou a dizer que o eduquês promove o facilitismo ou não - isso é toda uma outra questao”. A tese dos anti-eduquês e com a qual concordo é essa: de que o eduquês é uma forma de enquadramento teórico encapotado para a promoção do facilitismo.
“A minha pergunta é só esta: o eduquês é hegemónico nas atitudes e práticas dos professores portugueses ou não?” Não tenho números para o dizer. No entanto, quando as directivas oficiais são essas, quando os programas são esculpidos seguindo essas orientações, quando os critérios de correcção das provas forçam a aplicação dos princípios do eduquês, então não há dúvida que os professores estão reféns do eduquês, mesmo que se esforcem por não o seguir quando assim podem. Um professor não pode dar o seu próprio programa, não pode criar percursos académicos paralelos. Tem de se submeter às orientações da escola, do Ministério. Tudo isto sem se chegar discutir a própria formação e qualidade dos docentes.
Vai-me dizer que os números que dizem se o eduquês é hegemónico são os do TALIS, que apresenta. Eu vou-lhe responder que não, que na minha opinião, reafirmo, embora o eduquês necessite e apregoe as condições espressas nos critérios do “construtivismo”, estas não são suficientes para o definir. Nada é dito sobre o chumbo de alunos, sobre a política de avaliação, sobre a necessidade ou não de exames, sobre o a política de faltas. Condições necessárias, mas não suficientes.
“De qualquer forma, a sua hipótese de que «talvez as relações “construtivistas” sejam mais facilmente postas em prática em lugares onde as pessoas são mais cumpridoras em geral» é pertinente.” Foi simplesmente isso que quis veicular, exemplificando com a questão do cumprimento das obrigações fiscais. Agora, discordo de si quando afirma que “Parece-me teoricamente fraco, até porque estamos a falar de crianças e de instituições muito particulares, como as escolas”. Obviamente que não estou aqui a fazer finca-pé com o exemplo da evasão fiscal, mas as escolas, apesar de serem instituições muito particulares, são constituídas por professores e alunos, filhos de pais, todos eles cidadãos da nossa sociedade. O “mindset” está lá e, eu sei que não é muito científico citar ditados populares, mas de pequenino se torce o pepino.
Os excertos que transcreve do curriculum finlandês são mais dessas condições necessárias, mas não suficientes para o eduquês. Mais uma vez, nada se diz da avaliação, do rigor, do comportamento dos alunos, ou mesmo da forma de aplicação destas directivas. E não tenho dúvida que numa sociedade mais cumpridora, a necessidade de imposição de regras restritivas é muito menor.
«Nada é dito sobre o chumbo de alunos, sobre a política de avaliação, sobre a necessidade ou não de exames, sobre o a política de faltas. »
Bom, de acordo, haveria - por definição - sempre formas mais completas de definir os paradigmas. Mas os índices do TALIS são coerentes e apanham elementos-chave. Acha que se lá estivessem elementos «sobre o chumbo de alunos, sobre a política de avaliação, sobre a necessidade ou não de exames, sobre o a política de faltas» Portugal ia acabar numa posição muito diferente? Duvido muito, mesmo muito. Iríamos acabar ao pé da Islandia ou da Austrália? Mas a sua dúvida é legítima.
«Vai-me dizer que os números que dizem se o eduquês é hegemónico são os do TALIS, que apresenta.»
Bom, os números do TALIS não são definitos, naturalmente. Sao um elemento empírico para a discussão. Mas sao números interessantes. E eu pergunto: quais são os números que apoiam a tese do NUno Crato? Onde estão? Quais são? Em que estudos que não sejam análise de texto solta - por muito interessantes que sejam - se baseia Nuno Crato para concluir o que conclui? E a resposta é: não existem. Desculpe dizer isto com esta frontalidade, mas cientificamente, não existem. Repito: Nuno Crato pode ter razão (reafirmo: boa parte da minha crítica é de cariz metodológico), mas está longe de ter começado a construir uma prova. Os poucos dados quantitativos que dispomos, como estes do TALIS, apontam para uma realidade que é muito diferente daquela que se expectável encontrar se a tese de Nuno Crato estivesse próxima de ser verdadeira.
Entre os manuais de formação e o “mindset” - não sei bem que conceito é este aplicado desta forma a uma sociedade - vai todo um mundo de crenças e práticas dos professores que está por estudar. Os estudos não existem, mas a tese do eduquês já é uma “verdade” que muitos aceitam e circula nos media porque conforta alguns preconceitos e se adequa a uma série de indicadores a vulso do que conhecemos da realidade.
Repito: é pouco. Do ponto de vista científico da prova - e estou a falar de pessoas que sabem a importancia da robustez da prova cientifica na argumentaçao e na justificaçao de uma tomada de posição - é pouco, e as conclusões que retiram são perfeitamente abusivas.
Cumprimentos
Hugo
O mais prudente é não proclamar a superioridade de qualquer concepção pedagógica sobre outra, porque cada pessoa, ou cada comunidade, poderá beneficiar de qualquer concepção pedagógica, mesmo que uma destas seja especialmente eficaz no caso particular de uma dada pessoa ou comunidade.
A minha solução política preferida é dar às escolas e às famílias liberdade de opção pedagógica. No máximo, poderá argumentar-se que poderá haver famílias que não tenham condições para optar conscientemente ou que poderá haver pedagogias anti-sociais que uma democracia não pode tolerar.
Que resultados podem dar as pedagogias baseadas na pessoa e na sua interacção com o meio, quando o meio é miserável e se sobrepõe ao ambiente da escola? Não é natural que uma pedagogia destas tenha mais sucesso no norte da Europa do que no Sul?
Sinto que há um cerco “eduquês” (designação genérica de modas pedagógicas tendenciosas, utópicas ou chiques) aos professores, que os professores filtram à porta da aula, tanto quanto podem.
O argumento da falta de prova empírica das teses do Prof Nuno Crato é irrefutável - sem isso o que fazemos é desenvolver o “achismo”: eu acho que, tu achas que, ele acha que - nisto somos todos muito bons (desperta o ministro da educação que há em ti!). Também todos sabemos que um dos golpes baixos para derrotar alguém, alguma coisa, alguma ideia, algum projecto é pôr-lhe uma etiqueta, uma alcunha, um dixote. Mas se perguntarem a um conhecedor do “eduquês” qual a teoria científica que o sustenta ele responderá: o construtivismo. Eu pergunto aos que diabolizam o “eduquês”: que concepção proponhem como alternativa e qual a teoria científica que a sustenta?
Só uma pequena curiosidade: os dados que a OCDE usa inventa-os, tem agentes locais para os recolher ou são fornecidos pelo estado português?
E já agora, exames como os do ano passado, os sabemos que foram muito, muito difíceis, contribuíram ou não para os dados fornecidos à OCDE.
Eu acho que, tu achas que, ele acha que … eles proponhem. O Nuno Crato que leia o comentário!
Caro Jorge,
Depende do que quiser acreditar. O relatório diz que o estudo foi levado a cabo pela OCDE em 23 países, e a amostra das escolas e professores inquiridos em cada país é da responsabilidade da mesma organização. Se acha que os dados foram inventados, não posso fazer nada.
Por fim, o estudo é sobre professores, não mede quaisquer resultados dos alunos.
Meu caro AF:
é o que dá responder à pressa, acabado de chegar a casa, cansado e porventura com algum alzheimer já a caminho. Só quem não participa não sabe o que é dar erros ortográficos, de digitalização e outros de pura besteira, como foi o meu caso. Mas não respondeu à minha pergunta…
Luis Viana:
Como um comentário mais acima sugere (mesmo não tendo escrito nomes esquisitos): construtivismo equilibradamente misturado com behaviourismo e com outros ismos´que nem devo saber que existem.
Quando vi que estava a escrever sobre eventual facilitismo nos exames, assumi (precipitadamente) que trazia à baila um estudo da OCDE que estivesse relacionado com o assunto. Desses que usam as dados fornecidos pelo estado português, como é o caso dos diversos Education at a Glance. Daí a minha pergunta “quem é que fornece os dados”. Já agora, não falei em dados inventados, isso é uma expressão sua.
Ora lá fui ver que relatório é esse (sem link directo no seu texto, note-se). Portanto o TALIS é uma espécie de sondagem que mistura perguntas factuais com outras de opinião a um conjunto de professores. É composto por dois questionários (Teacher Questionnaire/ e Principal Questionnaire) e a própria OCDE define-o como sendo
Escapa-me assim a relevância deste estudo para a existência ou inexistência de facilitismo nos exames. Como facilmente se verifica pela leitura do sumário alargado para Portugal.
Hugo Mendes:
De vez em quando acompanho o blogue “De Rerum Natura” onde vários autores parecem subscrever o tipo de críticas que Nuno Crato faz ao “eduquês”.
Uma das autoras (Helena Damião ) que o faz tem formação em pedagogia e argumenta com maos do que “acho”, vai dando argumentos que aparentam ser sólidos e sustentados.
Como não sou especialista nesse assunto, tenho alguma dificuldade em avaliar os argumentos de cada parte devidamente - quando leio cada um de vós, parece-me que têm razão, mesmo quando várias vezes defendem coisas contraditórias (um face ao outro, bem entendido). Por outro lado, como cidadão cujo voto pode influenciar o tipo de políticas a ser seguidas tenho obrigação de me informar o mais que possa a respeito dessa questão. Creio que há muita gente na minha situação.
Por isso, creio que seria interessante um debate entre o Hugo e a Helena Damião. O formato mais prático talvez seja a sequência de posts em ambos os blogues, cada um dos quais publicaria ou referenciaria as respostas do outro, e idealmente teriam atenção à falta de formação especializada nos leitores. Um debate público frente a frente seria ouro sobre azul, mas duvido que seja prático.
Além de deixar a sugestão, pergunto se a mesma é do agrado do Hugo.
Olá João, a ideia de debate parece-me óptima. Como concretizá-la? :)
abraço
Hugo
Caro Jorge,
Se ler bem o post - e sobretudo o outro para o qual faço o link no “Outubro” -, o meu objectivo ao chamar a atenção para os dados do TALIS é discutir a questão do “eduquês” e das “pedagogias construtivistas”. A questão do “facilitismo” está lá por afinidade - mas é uma questão diferente (como já sublinhiei noutras respostas).
João, qualquer contacto, pode escrever para aqui, sff: hugo.santos.mendes@gmail.com
Obrigado.
[...] o blogger Hugo Mendes d’O País Relativo, autor de prosas como esta, que a certa altura da intervenção do Tiago Moreira Ramalho se levanta e vai passar qualquer [...]