Agora o mesmo raciocínio, mas ao contrário
11 Fevereiro 2009, 3:01 · Hugo Mendes
Facto B - Um grupo de professores contratou o advogado e pagou o parecer.
Facto C - O mesmo país que não acreditava que um relatório de peritos independentes pudesse ser credível por aquele ter sido pago pelo Ministério da Educação – como qualquer estudo realizado por qualquer entidade -, não levanta por um momento o sobrolho para questionar a credibilidade do trabalho de um advogado pago pelos seus clientes, nem o facto da conclusão daquele ir completamente de encontro às mais arreigadas crenças dos que financiaram esta empreitada.




Se me permite a sugestão, não seria melhor o Hugo ler os inúmeros Dec.-Lei emitidos pela equipa ministerial relacionados com o Estatuto da Carreira Docente (se conseguir…) e depois ler os dois pareceres para finalmente revelar o seu raciocínio?
Quanto a mim, que não consegui decifrar a legislação produzida, tive de me basear no que vi acontecer aos professores, à Educação e à Escola Pública em apenas 3 anos:
http://vozes_dissonantes.blogs.sapo.pt/63329.html
Cumprimentos
Cara Ana, limitei-me a fazer uma comparação. Pelos vistos agora o facto do cliente pagar um parecer já não é suficiente para o desqualificar.
Quanto ao que “aconteceu” (e o que é que isto tem a ver com a constitucionalidade das leis?) à escola pública e aos professores, divergimos de opinião. Mas recordo-lhe que ‘escola pública’ e ‘professores’ não são sinónimos. Acho que o grosso do profissionais só se deu conta do facto há pouco mais de um par de anos.
Cumprimentos
Hugo, o problema deve ser mesmo meu, porque não consigo acompanhar o seu raciocínio:
1. O parecer de peritos independentes, [encomendado] pelo ministério da Educação [e pago] por todos os contribuintes incluindo os professores, será mais credível à partida do que um parecer a um advogado só pago pelos professores? Porque não ler os dois primeiro?
2. “”… o que ‘aconteceu’… [ à escola pública e aos professores] o que é que tem a ver com a constitucionalidade da lei?” e “‘Escola pública’ e ‘professores’ não são sinónomos.” Porque não ler então toda a legislação quase diária que invadiu as escolas sobre o Estatuto da Carreira Docente e a avaliação dos professores? Os professores tiveram de a ler. Eu não a consigo sequer decifrar.
Cumprimentos
Cara Ana:
Mas não conseguiu decifrar porquê? Faltou-lhe tempo? Paciência? Não está a legislação escrita em português? E não tem meios de orientação dessa leitura? Nem por via das estruturas da escola? Nem com a ajuda dos sindicatos, que a lêem, a expurgam, a sintetizam e a servem prontinha a ser tragada, perdão, entendida pelos professores? Já conhecemos as mil e uma desculpazinhas de muitos professores para não não serem avaliados por este modelo (só pelo “outro”, aquele que ninguém conhece ao fim de mais de um ano de “lutas” e trinta e tal de democracia); agora conhecemos mil e duas. Já agora, Ana: se não conseguiu nem decifrar como sabe que é mau?
Luís Viana
Boa pergunta. A resposta está na própria pergunta: “sei que é mau” precisamente porque “não o consegui decifrar”.
Se fosse bom, certamente era decifrável. É assim, em leis complicadas e retorcidas, e que surgem em catadupa, que se esconde a incompetência de quem exerce o poder e legisla. É certo que depois do envio dessa numerosa legislação também enviavam as explicações. Se fosse legível e decirável, havia necessidade de as explicar depois?
Não sou professora (a minha área é a psicologia), mas interesso-me pela “educação” e pela “escola pública” e sei que os professores são uma peça-chave.
Sei que a avaliação é necessária, mas a todos os níveis e em todas as áreas. Esse argumento de não existir alternativas ao modelo apresentado é que é discutível. Eis que não se pode questionar as opções, que revelam uma filosofia e cultura da educação e da escola pública verdadeiramente discutíveis! E chama a isso “democracia”?
Cumprimentos
Ana
Cara Ana,
«A resposta está na própria pergunta: “sei que é mau” precisamente porque “não o consegui decifrar”. Se fosse bom, certamente era decifrável.»
Desculpe, há 50 anos eu consideraria esse argumento válido. Hoje, com o acesso à informação, com os processos de mediação e tradução dessa informação existente, e na presença de pessoas qualificadas (é delas que estamos a falar, certo?), ele não vale. Esse alibi tem limites.
Cumprimentos
Hugo
Hugo
Há 50 anos pelo menos as elites eram “qualificadas”.
E eu não preciso de alibis.
Além disso, estava a responder ao Luís Viana.
Cumprimentos
Ana
Cara Ana,
Peço desculpa pela intromissão.
Será que li bem: disse que há 50 anos as elites eram “qualificadas”?
Agora sem polémicas: talvez a diferença entre hoje e o passado é que há meio século era preciso pertencer à elite para ler e compreender as leis da República; hoje é bastante provável que as fracções mais escolarizadas das classes médias (onde se incluem os professores, parece-me óbvio) já o consigam fazer. Ou assim pensava eu.
Cumprimentos
Hugo
Hugo
Eu estive sempre a falar a sério, não gosto de alimentar “polémicas”.
Até porque o assunto “Educação” e “Escola Pública” é muito mais sério do que se pensa.
Por “elites” referia-me aos ministros e secretários de estado. Aos que, idealmente, deveriam ser “os melhores de todos nós”.
Cumprimentos
Ana
Ana,
A elite “mais ilustrada” deste país fixou a escolaridade obrigatória dos portugueses em 3 anos por mais de duas décadas durante o século XX, condenando-nos a um atraso cujo preço ainda hoje pagamos. Se é dessas elites - e desse honrosa e saudosa “escola pública” - que fala, eu dispenso-as.
Cumprimentos
Hugo
Hugo
12 anos de escolaridade que em breve não chegarão aos calcanhares dos antigos cursos comerciais e industriais do liceu, por exemplo.
Sabe?, esta conversa não tinha fim…
Não, não é saudosismo. É apenas a triste evidência da nossa triste situação actual.
Mas, claro, não se pode criticar a filosofia e a política desta equipa ministerial. E, claro, não há quaisquer alternativas.
Quem de nós vive nesse passado do séc. XX?
Cumprimentos
Ana
Ana,
É precisamente essa a questão: é que o antigo curso comercial podia até ser superior a um doutoramento de Oxford, que não serve para uma escola democrática e que deve ser capaz de ensinar todos sem excepção. O stock de conhecimento e competências do passado era infinitamente inferior ao actual, porque a percentagem de anafabetismo era uma vergonha. Para que me interessam os cursos técnicos para uma elite se metade da população nao sabe ler?
A escola para poucos a minoria pertence, felizmente, ao passado. Se para a Ana a escola tem de ser uma escola de elites - deixando a maioria com poucos anos de escolaridade -, tem direito a pensá-lo e a expressá-lo (duvido que o conseguisse fazer no passado das outras elites; e já nem falo em votar num programa político alternativo). Felizmente, pertence a uma imensa minoria, e garanto-lhe que a larga maioria das elites de hoje (que não percebo por que razão são piores que as do passado - sejam as políticas, as económicas ou as cientificas -, e quase de certeza que são superiores, quanto mais não seja porque a competição entre elites aumentou) quase ninguém pensa assim.
E não é só a actual equipa ministerial, Ana: são praticamente todas as equipas ministeriais dos EUA ao Japão. Basta abrir um das dezenas dos relatórios da OCDE. Como eu digo sempre: isto do ‘facilitismo’ é uma conspiração internacional.
Cumprimentos
Hugo
Hugo
Acha correcto vir dizer-me que eu pretendo uma escola para elites? É pecado querer uma escola de qualidade acessível a todos? Os “filhos de papá” já estão a estudar no privado. E os que não podem pagar um ensino de qualidade? Não é isso que vai acontecer com estas políticas? Quem é que afinal está a criar condições para essa fractura social e para acentuar a divergência, essa sim veronhosa em democracia, entre ricos e pobre, os que têm acesso à informação e a ferramentas para se adaptarem actuais e o que ficarão fora do sistema? É ler Alvin Toffler.
E porque não desejar ver nas áreas mais importantes da governação, os mais capazes e competentes? Também é pecado?
Cumprimentos
Ana
Olá, sou eu outra vez. Peço desculpa por interromper o vosso diálogo mas era comigo que a Ana queria falar…
Não quero que se ofenda com os argumentos contrários mas também terá de se centrar na lógica do assunto e deixar um bocadinho de lado as sensibilidades de estilo. Cá por mim, e o Hugo (que não conheço) tem feito o mesmo - respondo à mensagem não respondo ao mensageiro, neste caso a Ana, que também não conheço.
Esse seu argumento de que se não percebo é porque é mau, nâo colhe: então tudo o que a gente percebe é bom, e não é: estamos a faar de propostas ténicas, num determinado quadro político e se eu não percebo não posso concluir de imediato que é mau.
O que se passa, do meu ponto de vista (sou professor de…psicologia, mas não sou psicólogo; tenho 30 anos de serviço e entreguie objectivos e pedi aulas assistidas, sabe porquê? Porque não tenho nem lata nem coragem para, ao fimd e trinta de anos de privilégios em relação a TODOS
peço desculpa. Vou continuar: os outros trabalhadores públicos, para não falar dos privados: trinta anos sem componente lectiva regulamentada! Sabe o que isso significou Ana? Significou que cada professor trabalhava de acordo com a sua consciência, que é uma coisa muito bonita mas não serve de regulamentação legal em nenhuma parte do mundo. Aquilo a que muitos profesosres chamam “trabalho burocrático” não é mais do as acrescidas responsabilidades de profissionais que trabalham com crianças e jovens: detecção de dificuldades de aprendizagem, actividades de diagnóstico, planos de acompanhamento e de recuperação, trabalho em euipa com psicólogoa, assistentes sociais, encarregados de educação, são exemplos de tarefas obrigatórias para quem tem como profissão instruir, educar e formar crianças e jovens. Responsabilidades acrescidas da escola pública! “Ensinar, hoje, não é ir para a sala de aula debitar matéria científica que os alunos encontram muito mais facilmente na internet. É fazer o enquadramento do desenvolvimento global do sujeito. A Ana que é psicóloga sabe muito melhor do que eu de que é que estou a falar! É uma vergonha professores viram para a rua afirmar que estão cheios de “trabalho burocrático” e a pedir que os “deixem ensinar”! Revela que não são profissionais com sentido de serviço público, com a agravante de utilizarem despudoradamente o argumento da defesa da escola pública! Porque isto das elites não pode ser descontextualizado: a excelente educação que a Ana reconhece nos antigos cursos técnicos - e dos liceus, imagino - não chegava aos calcanhares da que era ministrada nos colégios jesuitas do século XIX e XVIII, já pensou? Hoje há alunos que passam por mim na escola e não me cumprimentam, o que está mal. Eu cumprimentava os meus professores com um bom dia ou boa tarde conforme as circunstâncias. Mas era mal educado comparado com os antigos alunos que cumprimentavam os mestres parando e fazendo a vénia. Deixe-me dar-lhe um humilde conselho: para aferir a qualidade do presente não compare com o passado, compare com o futuro. A escola portuguesa nunca foi tão pública como hoje. Nunca teve tanta gente lá dentro, nunca mobilizou tantos recursos humanos, financeiros e materiais. Claro que a massificação, a democrratização e alguns erros explicam defici~encias que é preciso corrigir, mas corrigir não deixando ir o menino com á gua do banho. Quando eu andei no antigo D. Manuel II, no Porto, na década de 60, éramos ao todo 800 alunos; a seguir ao 25 de Abril, chegou a ser de mais de 5000 alunos.
Muitos professores reagem com esta “indignação” - para não usar outro termo, histeria, por exemplo - porque se apercebem das responsanbilidades que a sociedade lhes passa a exigir. Outros, infelizmente, reagem com o puro pânico ou com agressividade, que é uma variante do medo, como sabemos, porque pura e simplesmente não percebem, não entendem, não sabem como responder a estas novas (com trinta anos de atraso) exigências profissonais. Não quero puxar dos galões mas gostaria de contextualizar a minha posição: tenho um mestrado em Avaliação Educacional e digo-lhe que não vejo nenhum absurdo no modelo proposto. Reconheço-lhe imperfeições e a necessidade de as limar no futuro. E digo-lhe que, uma vez mais, fica mal aos professores, que são, ou deveriam ser, dos maiores especialistas em avaliação na sociedade, criticar, e mesmo achincalhar, o modelo proposto porque revelam, uma vez mais, a sua impreparação para profissionais do serviço público de educação. Não percebo como um maior rigor no perfil humano e profissonal dos professores pode ser um ataque à escola pública.
Só mais um ponto: como explica a Ana que, falando apenas desde que esta reforma começou a ser implementada, não tenha surgido nenhum modelo de avaliação de DESEMPENHO alternativo ao do ME? Porque será que nem sindicatos, nem professores blogados rejeitam este apontando, no concreto, inúmeros defeitos (alguns terá) e quando dizem que querem ser avaliados, não apresentam nenhum em CONCRETO? Acaso fora impedidos? Onde é que está a falta de democracia? Pergunta a Ana se isto é “democracia”? Deixe-me devolver-lhe a pergunta: insultar o outro, atacar as pessoas e não as ideias, instrumentalizar jovens menores para se manifestarem em nome de causas que não compreendem, desobedecer e apelar à desobediência às leis da República, é para si democracia?
Grande abraço.
Luís Viana
Agradeço-lhe imenso a atenção e amabilidade nesta sua resposta às questões que coloquei. Ambos entendemos a escola como um espaço que permite um desenvolvimento global das crianças e jovens, que seja o mais abrangente e acessível possível, onde adquiram os instrumentos que lhes permitem lidar com os desafios actuais e criar soluções profissionais, porque o cenário que vão encoontrar é completamente diferente daquele a que nos habituámos. Para isso, as escolas têm de se transformar, adaptar a estes desafios, abrir-se e ligar-se mais ao meio social, empresarial, à realidade. No essencial, estamos de acordo. Nos métodos e estratégias escolhidos por esta equipa, aí é que divergimos. Começar por dividir arbitrária e administrativamente o grande grupo dos profissionais? Não estou de acordo. Um modelo de avaliação que, de complexo, se foi simplificando? Um instrumento de medida tão sensível como o que avalia as diversas dimensões de uma actividade profissional pode ser alterado assim e não piorar? Também quando diz que não se apresentaram modelos alternativos: tudo bem, o da Fenprof podia nãoser viável, mas então o do CDS, que era uma possibilidade de compromisso para este ano lectivo?
Se concordo com o discurso dos sindicatos? Nem sempre. Acho é que os professores não tinham uma cultura de grande grupo, de comunidade (e não me refiro a corporativismo, mas a uma percepção global da importância da sua intervenção na Educação e na escola pública). Também por isso mesmo, duas mega-manifestações já dariam que pensar, não acha?
Também não me coloco aqui na defesa da posição da desobediência à lei. Mas que haja a sabedoria de compor o que já se estragou, de definir claramente o que se pretende da escola pública e dos professores, com uma “visão de futuro”, e que se permita a tal “autonomia escolar”, são estas as minhas expectativas.
E para o Luís, a continuação dessa energia e empenho que dedica a uma “escola voltada para o futuro”.
Cumprimentos
Ana
Ana:
Penso que chegamos a um ponto em que ambos definimos bem o que nos separa em termos de análise da questão da avaliação dos professores. Não quero mudar a sua opinião (gostaria, mas enfim…) mas contribuir para que ela se torne mais densa, compreensiva e que, sobretudo, perca o tom que tinha no início, assim um bocadinho os professores coitadinhos, uns injustiçados e eles, os malandros, os do ME. Se esta é, como todas, uma questão política, não significa que deva ser politizada a ponto de perdermos de vista o essencial. Essa foi a estratégia dos sindicatos: na verdade, quem lidera o processo é a FENPROF, os outros colaram-se ao processo de contestação radical nos objectivos e de falinhas mansas na táctica: a agenda sindical da FENPROF é subsidiária da sua agenda política, como é evidente (sei do que falo). Durante trinta anos os sindicatos recusaram toda e qualquer alteração significativa que o governo, QUALQUER GOVERNO, pretendesse implementar: o que era uma “tentativa reaccionária de atacar os direitos dos professores”, depois de perdida a “luta” e passados uns anitos, perante nova proposta de alteração, passava a ser uma “preciosa conquista dos professores”. Os sindicatos (e neste caso os professores) não disseram tudo: o modelo de avaliação (o qual exigiram que o ME “desburocratizasse” e quando o fez, aqui-del-rei que ficou pior) era apenas o máximo denominador comum da “luta” dos professores; o verdadeiro objectivo, agora já confessado, é repudiar o novo estatuto da carreira docente, isto é, apagar os últimos três deste governo, como nada se tivesse passado! E o ME é que é autista, radical, e arrogante? Veja o que aconteceu com as alterações simplex introduzidas: exigiram alterações e quando elas foram implementadas, acham que está pior e sâo motivo de chacota. Não deixam margem ao ME para negociar sem perder a face. E o governo já percebeu que tem mais a perder se recuar do que não recuando. Quem extremou posições? Em bom português: os professores estão deitados na cama que deixaram que os sindicatos lhes fizessem. As mudanças que poderiam ter sido paulatinamente introduzidas ao longo dos anos, cairam de uma só vez na cabeça dos professores. Talvez isto explique “a pressa” do ME. Os sindicatos são estruturas essenciais numa sociedade democrática. Têm é de escolher que papel querem desempenhar. Os sindicatos afectos à FENPROF são, em matéria de educação (falo do que conheço), a expressão mais concentrada de conservadorismo e, em certos aspectos, de reaccionarismo, simplesmente porque a sua agenda é a do retorno aos governos do PREC e não o desenvolvimento da educação para os portugueses. Duro não é? E triste.
Grande abraço.
Luís